segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

NINGUÉM IMPORTA

A terra começa a dar sinal de que não suporta mais a agressão dos sete bilhões de habitantes e caminha para o seu fim. As bruscas adversidades climáticas da natureza e os fenômenos de destruição em cadeia, neste ano de 2009 que se passou, foram os fatos que mais me impressionaram, deixando um rastro de mortes e uma visão de que o planeta começa a morrer.



Secas, enchentes, deslizamentos de morros, ciclones, tufões e pedras de gelo que caem do céu no sul do país. Cidades ficam inundadas porque os rios não suportam mais as águas das chuvas. Sobe a temperatura nas regiões tropicais. No norte do planeta a neve e gelo param os transportes e a vida de seus habitantes que não param para refletir e pensar.



Tudo isso não importa ao capitalismo que só importa o lucro e os interesses econômicos de produzir mais e mais para consumir cada vez mais e entupir a terra de lixo. Rasgam serras, abrem túneis e cavam nas mais baixas profundezas do planeta com tecnologias mais avançadas para retirar óleo e poluir de fumaça e de produtos químicos sua atmosfera.



O homem continua sujando para ganhar e ninguém aceita parar. A Conferência de Copenhague sobre o clima e a redução de gases poluidores virou uma Torre de Babel como está escrito no Antigo Testamento. Cada um falou sua língua e ninguém entendeu ninguém.



Veja o exemplo em Angra dos Reis onde o capital fala mais alto e os homens de muita grana invadem santuários ecológicos para edificarem suas mansões e pousadas. Compram as licenças – quando existem - pensando apenas no bem-estar do conforto e em ganhar mais dinheiro. Para eles, o que interessa é apreciar do alto a vista do mar até que um dia tudo vem abaixo.



A questão visível da ira da natureza contra o homem irracional foi o que mais me impressionou e me marcou em 2009. No entanto, outros acontecimentos deixaram suas marcas na política, na violência assassina e cruel do ser humano, na falta de educação e saúde de qualidade, sem falar na economia onde o Brasil foi elogiado no mundo lá fora, mas as desigualdades sociais permaneceram gritantes.



A eleição de Barack Obama para presidir os Estados Unidos chamou a atenção do mundo e acabou com a era Busch, mas o Prêmio Nobel da Paz ao vitorioso das urnas me decepcionou. Ele continua a fazer guerra e a enviar mais soldados para o Afeganistão.



A Organização das Nações Unidas não reformou o seu Conselho de Segurança, mas o Governo Brasileiro mandou U$15 bilhões para o Fundo Monetário Internacional, sem contar suas atrapalhadas na diplomacia ao apoiar governos de ditadura.



A morte do cantor e compositor Michael Jackson abalou o mundo, mas pouco se comentou sobre o falecimento da cantora argentina Mercedes Souza, do antropólogo Claude Lévi-Strauss, Zé Rodrix, o ator Miguel Magno, do ex-deputado Marcio Moreira Alves, do senador democrata Edward Kennedy, do ex-presidente argentino, Raul Alfonsin, Neguinho do Samba, Ankito, entre outras personalidades.



A pandemia H1N1, mais conhecida como gripe suína, deixou populações do mundo em pânico. No Brasil e na Bahia foi a dengue e a meningite que mataram também centenas e milhares de pessoas, principalmente crianças e idosos.



Como um terremoto que arrasou o centro das Itália e em outros países, a corrupção no Brasil continua a sangrar as veias do nosso povo, embora, infelizmente, já esteja se tornando numa coisa normal. Esse sistema precisa de controles preventivos, promovendo a participação da sociedade na gestão pública. Não adianta baixar decretos taxando a corrupção como crime hediondo. Até agora só temos falácia, e o nosso presidente continua a dizer que não viu nada.



De acordo com pesquisa da ONG Transparência, 26 das 27 assembléias legislativas e do Distrito Federal ocultam informações sobre verbas e ações dos deputados. O quadro se repete em gestões estaduais, prefeituras e câmaras de vereadores. Predomina no Brasil o monólogo, e os políticos continuam a encher os bolsos, as cuecas e as meias de dinheiro roubado dos cofres públicos, como aconteceu em Brasília.



Dizem que a economia vai bem na visão dos críticos lá fora, mas a educação, a saúde e a cultura são a vergonha da Nação. Não consigo assimilar como o Brasil caminha para ser uma potência econômica se nos últimos anos foi o que menos cresceu entre os subdesenvolvidos. Só a China cresceu mais de 9% em 2009. Os investimentos do Brasil estão em torno de 20% do PIB enquanto Índia, China e Rússia se situam entre 30 e 40%.



O mapeamento entre os 5.564 municípios demonstra fortes carências e desigualdades regionais. Apenas 157 municípios possuem estabelecimentos públicos de ensino superior, dos quais 24% estão em São Paulo. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que existe um grande descompasso entre avanço econômico e a vida urbana do século 21. Em 1.875 municípios não existem estabelecimentos de internação ligados ao SUS.



A verdade é que vivemos ainda num país controverso. O setor de varejo deve ter um incremento de 20% em 2009. Na outra face da moeda, nossa democracia ainda é frágeis, com visíveis desigualdades, sustentadas na base do assistencialismo. A educação não virou plataforma real dos governantes. É um país gigante e pequeno.



Os economistas estão prevendo um crescimento de 5 a 6% na economia para 2010, mas do outro lado existe o demônio do aumento do déficit nas contas com o resto do mundo. O Banco Central estima um déficit nas transações correntes de cerca de U$40 bilhões, mas pode chegar a U$60 bilhões. Em 2009, os gastos do governo dispararam e as receitas caíram.



Além da Copa Mundial de Futebol de 2014, o Brasil foi escolhido para sediar as Olimpíadas de 2016. Gostaria que não tivesse sido assim porque estamos contaminados pela corrupção e pelas desigualdades sociais. Os Jogos Pan-Americanos no Rio de Janeiro em 2009 foi um fracasso em administração e vergonha de irregularidades. Já estão falando que entre a Copa de 2014 e as Olimpíadas, os gastos podem girar em torno de R$150 a R$200 bilhões. E o rombo e a concentração de recursos?



Bastou o Governo Lula, com muito atraso e medo, decidir em abrir os arquivos da ditadura militar com a criação da Comissão da Verdade, para os quartéis começarem a limpar suas armas que estavam nos porões. Os generais de plantão gritaram de que o documento é agressivo. Olha quem fala de agressão! Seus comandados se sentem ofendidos. As Forças Armadas se acham intocáveis. O ano de 2009 passou e não deram respostas sobre a queima de documentos do regime na Base Aérea de Salvador.



Não podemos ficar esperando que os políticos mudem e encarem o povo com seriedade. Nós é que temos que mudar nossa postura e nosso espírito no sentido de pressionar os políticos com protestos e manifestações contra a sujeira deles. Se ficarmos só no esperar, nada vai acontecer. As eleições estão chegando. Não reelejam ninguém.



A nossa mídia em 2009 manteve sua linha sensacionalista e com o foco na audiência a qualquer custo. Basta lembrar o “show” de final de ano com relação a ida do menino Seam Goldman para os Estados Unidos. A imprensa continua se banqueteando dos sentimentos e da miséria alheia, quando deveria se preocupar com o conteúdo e a qualidade em suas informações e investigações. Na próxima falaremos dos acontecimentos da Bahia.

Nenhum comentário: