quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

TRAPALHADAS JORNALÍSTICAS



O jornalismo “moderno” perdeu a sintonia com o avanço tecnológico moderno e não consegue encontrar o caminho da informação correta e precisa, com conteúdo e qualidade. Logo que surgiram o computador, a internet, o celular e os mecanismo de comunicação instantâneos, os veículos passaram a se preocupar em treinar gente para acompanhar a evolução das máquinas, mas deixaram de lado a preparação contínua dos recursos humanos.

Erros, trapalhadas e atrapalhadas jornalísticas sempre aconteceram desde que se inventou a impressão com Gutemberguer, mas nos tempos atuais, com todo aparato moderno dos meios de comunicação, especialmente de massa dos serviços eletrônicos, os pecados são gritantes. O pior é que são trapalhadas humanas porque se passou a confiar demais e a ser escravo da tecnologia.

A cobertura jornalística do terremoto em Haiti é um prato cheio de distorções e de informações truncadas e desencontradas, sem contar as “barrigas” e o engolir de “moscas” como se diz no jargão da imprensa. É uma boa matéria-prima para os professores de Comunicação. A análise deve ser direcionada no sentido de que o jornalismo, antes de qualquer coisa, precisa ser feito com responsabilidade, ética e compromisso para com o público.

Para começar, as notícias do Haiti só começaram a fluir nas emissoras de televisão um dia depois do terremoto, com informações confusas e capadas dos sites e blogs da internet. A cena mais comum que se viu foi de repórteres descendo dos aviões carregados de máquinas e todo tipo de parafernália, mas sem saber o que fazer, nem como transmitir a informação correta.

Muita gente nem sabia em que parte do Globo estava, mais por falta de conhecimento histórico e geográfico do país. Tivemos que aturar cenas repetidas por diversas vezes na televisão para fechar espaço. Repórter entrevistava repórter que passava o tempo ruminando palavras porque não tinha apuração dos fatos. Percebia-se a enrolação. Pode até ser um pequeno detalhe, mas chutaram a população da capital Porto Príncipe. Num noticiário era de dois milhões. No outro já era de três milhões de habitantes.

A maior parte do tempo foi ocupada com sensacionalismo e com a exploração da tragédia nas lágrimas demoradas de imagens paradas dos parentes dos mortos. O sentimentalismo prevaleceu em busca da audiência desenfreada e desorganizada. O que se observa é que os profissionais da imprensa nos tempos atuais estão contaminados pelo vírus incurável da tecnologia.

A imprensa escrita – é assim que eu ainda a classifico – só fez engolir “moscas” e tomar “barrigadas”. Primeiro, a cobertura deixou a desejar em termos de conteúdo. Segundo, o noticiário só começou a aparecer dois dias depois do terremoto. Não se faz mais edições extras como faziam antigamente, mesmo com todo avanço da tecnologia. Terceiro, os jornais do país (quase todos) deram fotos de manchetes de primeira página que não eram da tragédia do Haiti.

O jornal A Tarde, por exemplo, publicou matérias retificando de que a foto, na verdade, era de um terremoto da China, em 2008. Para completar, dias depois traz outra matéria explicando que a foto era do Chile. Durma com um barulho desses! Isso não é mais nem ruído de comunicação. É uma poluição sonora do tamanho da de Salvador, com 600 decibéis.

O imediatismo não pode falar mais alto que o bom senso humano de procurar passar uma informação correta, comprometida com o público leitor. Não é desculpa argumentar de que ninguém lê legenda de foto. Por isso engoliram a “pegadinha” vinda de um blog ou coisa parecida? Pouco espaço se deu à história do país e do seu povo sofrido desde o colonialismo francês.

Não temos mais um jornalismo interpretativo, opinativo, crítico e mais profundo dos fatos, com retrospectivas e análises para que o leitor e o telespectador possam se situar melhor e compreender o que está acontecendo. Existe muita tecnologia e pouco conteúdo, profissionalismo e preparo humano. Os repórteres só querem ir pelo caminho mais fácil, sem ter o cuidado de elaborar e publicar uma matéria digna para o seu público.

Com a evolução da internet e com as facilidades de contatos rápidos através das diversas modalidades de comunicação, depois do telex e do fax, os jornalistas hoje são multimídias e passam mais o tempo nas redações, de olho nas máquinas que nas ruas e nos campos onde estão as fontes e os fatos, matérias-primas das matérias.

Boa parte das reportagens é feita por telefone ou via e-mail, para economizar tempo, recursos e esforços. O imediatismo mais acelerado da notícia com a evolução da tecnologia deixou a imprensa, especialmente, a escrita, desnorteada e sem rumo certo para conquistar o seu público e sobreviver frente à internet.

O repórter não arregaça as mangas e as calças como antes. Deixou de, pessoalmente, olhar no olho do entrevistado, para ficar de olho na resposta do e-mail que é transmitida sem emoção e sem sentimento. A entrevista olho no olho, ou no local onde está ocorrendo o fato, contém bem mais profundidade, conteúdo e seriedade.

Diante de toda essa tecnologia, os jornais perderam o caminho e não conseguiram encontrar a saída, qual seja a volta ao jornalismo do contato pessoal com a fonte e com o local dos acontecimentos. Só o conteúdo, a informação correta de qualidade, a responsabilidade e o compromisso sério com o público podem salvar esse jornalismo tragado pela máquina do tempo.

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