domingo, 28 de novembro de 2010

ARQUIVO E MUSEU DA IMPRENSA


Há poucos dias estava lendo denúncias num jornal da capital sobre documentos importantes que estão sendo queimados e destruídos por cartórios e prefeituras do interior e, então, veio logo à minha mente o Arquivo Municipal de Vitória da Conquista.


Antes de qualquer interpretação errada, felizmente aqui os documentos não estão sendo literalmente queimados e destruídos, mas, da forma como estão sendo armazenados pela Prefeitura, o Fórum e outros órgãos públicos, o destino deles é o desaparecimento com o passar do tempo.


Não é preciso ser especialista no assunto para dizer que o Arquivo Municipal de Conquista, hoje numa área abafada no térreo de um prédio da Rua do Triunfo, está num local inadequado, não oferecendo condições de conservação dos documentos. Por falta de recursos e uma política planejada de preservação, inclusive a digitalização dos principais registros históricos, muitos papéis estão vulneráveis às traças e aos ácaros.


Um Arquivo não pode ser tratado pelas prefeituras como um simples depósito de papéis, como sempre foi feito ao longo dos últimos séculos. O que se vem fazendo com nossos documentos é um crime de responsabilidade pública por parte dos poderes executivos. O pior é que existe um silêncio em torno da questão, inclusive por parte das camadas mais instruídas, enquanto a memória de um povo vai sendo destruída.


Pelo porte da cidade e pela sua história desde o final do século XVIII, com o desbravamento das terras pelo português João Gonçalves da Costa, Vitória da Conquista merece um Arquivo Municipal à sua altura, com área adequada, espaçosa e arejada, modernizada, informatizada e local amplo para pesquisas dos estudantes, professores e interessados.


O Arquivo Municipal de Conquista, pouco freqüentado por falta de divulgação, tem um acervo valiosíssimo que precisa de maior atenção e cuidado por parte do poder público. Não é só alocar uma área e ir despejando documentos de qualquer forma, sem a estrutura necessária à conservação. Só para ficar no básico, o local não comporta o arquivamento de mais pastas que chegam diariamente das diversas repartições.


Não fosse a boa vontade e dedicação dos funcionários que trabalham no setor, sob a batuta de Genivan, Verônica, Ramon e de todos os outros que ali atuam com afinco, a situação do Arquivo Municipal estaria bem pior e nossos documentos mais comprometidos ainda. Não basta a boa vontade de um chefe para mudar o quadro.


É bom lembrar aqui que pouca gente sabe onde fica o Arquivo Público Municipal. É que ele foi jogado num canto como coisa imprestável para amontoar papéis. Ele está sendo considerado como um simples depósito, sem importância. É como se fosse um peso pesado da administração.


Um arquivo público não deve servir apenas como local de guarda de documentos destinados à pesquisa. Nele pode ser inserida também uma política cultural mais ampla de visitação, exposições de artistas, realização de palestras, seminários, acontecimentos literários e outros eventos em parcerias e convênios com escolas, universidades, fundações e órgãos diversos.


Nos meus trabalhos como jornalista, inclusive na elaboração do livro “A Imprensa e o Coronelismo no Sertão do Sudoeste”, e agora na busca de dados sobre a Ditadura em Vitória da Conquista, o Arquivo Municipal tem sido uma fonte importante. Quando preciso, sempre recorro ao local e tenho sido bem atendido. Isso não quer dizer que a estrutura de trabalho seja ideal. Vejo com tristeza documentos sendo ameaçados pelo tempo.



O MUSEU DA IMPRENSA



Além das atas das sessões da Câmara de Vereadores, projetos, leis, decretos, assembléias e decisões do executivo e legislativo, marcos da nossa história, o Arquivo Municipal tem um razoável volume de jornais que circularam na cidade nos últimos cem anos.


Podia ter muito mais, mas o que ainda resta está sendo destruído pelo tempo devido a falta de recursos para conservação e o próprio local abafado que não é adequado. Volto a repetir que não basta o devotado cuidado por parte dos funcionários. Folheei, por exemplo, todos exemplares do “Combate” e do “Sertanejo”. Com todo esforço, Genivan está digitalizando boa parte desses documentos.


E por falar em jornais impressos, é uma pena que Conquista como pólo de desenvolvimento e capital do sudoeste ainda não tenha erguido um museu da imprensa para contar essa história que agora está completando 100 anos. Boa parte dos periódicos está espalhada entre particulares como Rui Medeiros e Jackson Rangel, principalmente, e no Arquivo Municipal, no Museu Regional e até no Fórum. Muita coisa está sendo perdida por falta de maiores cuidados.


O nosso amigo Rui Medeiros, por exemplo, tem um acervo precioso e bem cuidado, bem como Jackson Rangel. Não seria ideal que se formasse na cidade um grupo de intelectuais e interessados, inclusive a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), com apoio do poder público, e se criasse uma casa ou museu onde concentrariam todos esses jornais da época?


A UESB, por exemplo, tem o curso de Jornalismo, e poderia, em conjunto com esse grupo, fundar o Museu da Imprensa onde não abrigaria apenas coleções dos jornais, mas fotos antigas da cidade, livros, máquinas de linotipo, biografias de jornalistas da época e histórias do passado do nosso jornalismo.


Todo esse patrimônio espalhado por aí pode se tornar de domínio público para pesquisas e visitação. Por essa boa causa, tenho certeza que cada um doaria sua parte que lhe cabe nesse latifúndio.


Fica aqui lançada a idéia de fazermos em Conquista o Museu da Imprensa. Nosso amigo e companheiro Luis Fernandes, com sua boa vontade e esforço, já vem reunindo material valioso para divulgar uma revista sobre a História dos Jornais em Conquista nos últimos 100 anos. Está na hora de concentrarmos esforços visando o resgate dessa memória antes que se acabe com as traças.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

CURTAS REFLEXÕES

Com tantas informações, com tanta tecnologia e comunicação virtual para lidar, já parou para pensar um pouco que não temos mais tempo para refletir sobre a realidade e os absurdos que acontecem no dia-a-dia de nossas vidas, no Brasil e pelo mundo globalizado?


Entre a multidão que cruza por todos os lados com destinos diferentes, o moço chega com um celular no ouvido e um laptop num restaurante de um aeroporto e senta numa mesa vazia. Ele abre o aparelho, ainda com o celular ligado, e começa a navegar com seus deuses virtuais.


Olho e observo que o moço bem trajado não vê ninguém ao seu redor. É como se ele estivesse sozinho num quarto de apartamento, isolado num emaranhado de comunicação que o tornou incomunicável. Sua interação é apenas com a máquina. Perdeu-se a solidariedade e o calor humano.


Faz um sinal frio para o garçom e pede uma coca-cola com sanduíche. O moço das máquinas não ouve o barulho das conversas e o tilintar dos pratos e talheres.
Não prestou atenção no outro que sentou ao seu lado com um lanche para engolir rápido, e nem viu quando um passageiro descuidado passou apressado e derrubou uma cadeira da sua mesa. Não ouviu nada.


A maioria das pessoas ali está com o celular ligado. Não importa quem passa. O tempo é o carrasco. Todos são estranhos num planeta desconhecido. Todos pacientes doentes internados no mesmo hospital, mas ninguém liga, a não ser do outro lado de lá, no virtual.


TIRIRICA - Aleluia! Aleluia! Habemus Tiririca! A Justiça deu tempo e o deputado eleito por São Paulo com mais de um milhão de votos passou um mês tomando aulas particulares para fazer um ditado durante um dia. Farsa montada. Uns dizem que foram votos de protestos contra a conduta nefasta dos políticos e outros que foram votos de confiança para mudar. No Brasil não temos somente votos comprados, mas de solidariedade, por ser mulher, negro ou minoria, sentimental, emotivos, por beleza e por uma cesta mesmo. Passam longe os votos por competência e honestidade. Cuidado para você não sair do politicamente correto e se dar mal! Corro esse risco.


OPERAÇÃO CARCARÁ – Uma ave extinta do Nordeste serviu de inspiração para prender prefeitos e corruptos do erário, do nosso suado dinheiro, para ser mais claro. Quando menino na roça, lembro de minha mãe preocupada quando um carcará piava longe e rondava o terreiro de casa. Tinha que proteger as galinhas porque a ave levava os pintinhos no bico, sem falar em outros filhotes de pássaros. Tentaram prender os carcarás, mas forças protetoras ocultas soltaram os animais de volta aos seus habitats. Para deleite, vão continuar comendo os pintinhos e os ovos das nossas criações.


LATIFÚNDIO DA REPÚBLICA – Passadas as eleições, a briga agora é pela divisão do Latifúndio da República que não é nada pequeno. Estica de um lado, estica do outro, mas no final cada um vai receber o lote que lhe cabe num cercado de pasto verdejante. Todos vão pastar felizes, enquanto as ovelhas magras observam o gado engordar. A briga é feia, mas tudo acaba bem.


REPÚBLICA SINDICALISTA – Nossa república, que não é nada pública, é dividida em várias capitanias hereditárias e agora temos também a República Sindicalista lá de cima recheada de grana por todos os lados para defender e aplaudir o patrão. No Dia do Trabalhador nos brindam com shows e faz de conta que defende a raia lá debaixo. É o estrangulamento da vida, ou a lei do mais forte que leva vantagem e fica com o bolo.


JOVENS LIBERADOS - Nesta semana, jovens em São Paulo, na avenida Paulista, agrediram barbaramente sem motivos outros jovens. Foram presos, mas logo soltos pelas nossas malditas leis da desigualdade, com a benevolência dos pais. Belo exemplo para esta sociedade hipócrita, desfacelada, corrompida, subornada e podre pela criação de filhos mimados.


PALAMADA - Mais uma vez, cuidado! É que só se pode falar agora o “politicamente correto”. Estou me arriscando em ser massacrado e apedrejado pelas novas concepções. Talvez se esses jovens agressores de São Paulo tivessem levado umas palmadas quando crianças não tivessem espancado seus semelhantes. Levei muitas palmadas, inclusive de professores, e só ajudaram na formação do meu caráter. Não quero dizer aqui que sou perfeito. Não estou falando de espancamento dos filhos. Podem dizer que sou velho, conservador, reacionário e ultrapassado. Quem diria que um dia em minha vida fosse ter a lei da palmada! Tempos falidos!


PORRADA NOS PROFESSORES - Com a lei da palmada invadindo nossos lares já desestruturados, os jovens alunos agora descem a porrada nos professores quando estes tentam ensinar, ou dão uma nota baixa. No meu tempo se respeitava professores e idosos, mas isso hoje é coisa ultrapassada. As crianças mandam e os pais obedecem. Por lei, são obrigados a satisfazer seus desejos e caprichos de cada dia. Podem ficar frustrados, traumatizados e recalcados com uma palmada.


Agora já é tarde e estou cansado. Podemos falar sobre mais coisas na próxima semana. Por sua vez, as máquinas sugaram nosso tempo de ler, pensar e refletir. Corro o risco de ser xingado e execrado. Como já sou idoso, posso levar umas palmadas. São curtas para pensar e contestar. Não é uma contradição? Estou usando esta máquina para condenar o isolamento e o individualismo humano. Tem seus benefícios, é claro.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

NO TÚNEL DO TEMPO

Pode ser um termo até batido, mas foi a melhor expressão de título para falar da eterna Roma dos imperadores e das conquistas históricas; seus filósofos meios gregos e romanos; suas orgias; sem falar do povo e dos aquedutos das águas termais que ficaram famosas.


Passear em Roma e visitar o Vaticano com sua esplendorosa Basílica de São Pedro, o Coliseu, o Arco do Triunfo, a Fontana di Trevi, os monumentos e prédios antigos de mais de dois mil anos, além de outros locais históricos da humanidade, é o mesmo que entrar no túnel do tempo.


Penetrar no Coliseu onde se realizavam os combates entre os gladiadores é sentir a sensação de estar ali vendo o povo acenando, gritando por morte ou ovacionando os vencedores. É lembrar do imperador Nero se delirando das suas atrocidades e loucuras. É lembrar de cenas do clássico filme Gladiadores. É lembrar dos Césares glorificando suas vitórias, dando o circo prometido para amenizar as queixas e feridas do povo.


Não resta dúvida que se tem uma sensação diferente e o visitante sente que os outros ali estão também sentindo o mesmo, tirando fotos belíssimas do que restou. São rostos das mais diferentes nacionalidades que se interagem no mesmo pensamento.
Só não gostei da falta de organização para se conseguir um ingresso por 12 euros. Uma multidão entra na fila, mas quando chega próximo aos guichês tudo vira uma confusão e aí, salve-se quem puder. Todo esforço é válido para quem sai do outro lado do Atlântico.


Próximo à entrada do principal portão, o Arco do Triunfo faz o visitante novamente entrar no túnel do tempo, vendo os generais chegando em suas carruagens vitoriosos das guerras, sendo saudados pelas multidões e pelos imperadores e rainhas.
Em torno do Coliseu, colunas de antigos palácios e templos se mantêm firmes como testemunhos de um império que conquistou e dominou toda Europa e parte da Ásia por vários séculos antes e depois de Cristo.


Dizem que quem for a Roma e não visitar o Vaticano, não foi a Roma. Mas, não é somente isso. Tem que ir também à Fontana de Trevi e ao Coliseu, principalmente. Para quem tem pouca grana como eu, o tempo é curto e tem que correr, de preferência, a pé mesmo.


A Fontana é como se fosse uma pop star, ou uma pintura de Monalisa no Louvre, que todo mundo quer conhecer e tirar fotos. Todos querem jogar uma moeda na fonte e fazer um pedido.


Eu não joguei, talvez por ser do contra e por economia mesmo. Afinal de contas, sou subdesenvolvido e não vou dar meu dinheiro a rico. Por todos os becos e vias da antiga Roma, as pessoas se cruzam e os caminhos levam ao mesmo lugar. Mais parece dia de jogo de futebol de um clássico.


Vaticano, Coliseu e a Fontana são como lugares sagrados das visitas, e os outros pontos ficam para depois. Mas, quem vai à encantadora Roma não pode deixar de ir ao Castelo de Santo Ângelo, ou Castel Sant´Angelo. Lá está em seu museu uma exposição da vida do revolucionário Giussepe Garibaldi que unificou a Itália e passou pelo Brasil na Guerra dos Farrapos, no Rio Grande do Sul, no segundo reinado de D. Pedro II.


Do alto do Castelo se tem uma bela vista de toda Roma, e tive o privilégio de pegar um pôr-do-sol deslumbrante. Lá também tem uma velha catapulta dos tempos antigos, corroída pelo tempo.


O Museu de Roma é outro local que não se pode deixar de ir. É também um entrar no túnel do tempo com pinturas dos renascentistas e preciosas esculturas das conquistas do império. A Basílica de São Pedro, nem é preciso falar muito da sua história, mas o Museu do Vaticano é pura ostentação da Igreja, com suas peças de pedras preciosas de ouro e esmeraldas. Não condiz com a pregação de Cristo.


Quanto aos italianos, como muitos já sabem, falam alto como se estivessem numa briga. Como em muitos países da Europa, inclusive na capital Paris, o povo não trata muito bem os turistas, mas fui lá por outros motivos bem mais importantes. Em toda parte, se perdeu a solidariedade e o calor humano.


No Vaticano, por exemplo, presenciei uma cena grosseira. Para arrumar a fila de entrada na Basílica, um guarda gritava e berrava com os turistas, com a maior estupidez, ao ponto de alguns visitantes irem para cima e também gritarem; Por que gritas?


Em Paris, o recepcionista do hotel onde me hospedei ficou furioso porque simplesmente esqueci de descer as malas no último dia para mudar de quarto conforme estava previsto. Jogou meus pertences todos na portaria e quando cheguei da rua me atendeu com brutalidade. Foi um bate-boca feio. Lá eles não respeitam o cliente porque sempre tem outro na fila.


Voltando a Roma, os comerciantes de bancas de revistas e venda de souvenires são todos paquistaneses e indianos. São desconfiados para com os turistas, principalmente os brasileiros. Acham que todos são malandros e passam notas falsificadas.


No entanto, o que mais me irritou em toda viagem foram os aeroportos com suas minuciosas revistas e filas para conferir as passagens, tudo culpa dos americanos que com seus fundamentalismo e arrogância ocidental de nação dominante do mundo fizeram surgir grupos também fundamentalistas para revidar com golpes de violência e vingança.


Com tanta inspeção e exigências para se chegar com duas a três horas das partidas dos aviões, passa-se mais tempo nos aeroportos que voando nas viagens. Mas, hoje, todo mundo já acha normal e, comodamente, concordam com as regras de invasão de privacidade. Todos temem que aconteçam atos criminosos. Tudo isso deixa o passageiro tenso e nervoso.


Esperar malas nos bagageiros quando se desce num aeroporto é também teste de paciência, sem contar a falta de respeito para com o turista. Em Roma, por exemplo, sua mala desce de uma altura de quase um metro até a esteira. Em Lisboa, o visitante deve ter muito cuidado com os taxistas safados que cobram uma taxa irregular por fora e ainda gritam para defender de que estão corretos. Chame a polícia. A malandragem não acontece somente no Brasil.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

SAUDADES DO TREM

Não consegui segurar a saudade dos meus tempos de criança quando ainda existia linha férrea de passageiros na Bahia e resolvi viajar de trem na Europa, dispensando o avião. De Paris comprei uma passagem de trem para a velha Lisboa, fazendo o transbordo em Írum, na fronteira com a Espanha.


Foi uma viagem de 20 horas, passando por Bordoux e outras cidades da França, sem contar as pequenas vilas espalhadas pelos campos verdejantes, recheados de vinhedos e outras lavouras que hoje abastecem o mercado consumidor. A grande maioria das terras é de pequenas propriedades com suas vilas de 100 a 200 casas onde se cultiva a agricultura e se pratica a criação de gado leiteiro, sustentado por fenos.


Por onde passei, não vi grandes extensões de terras abarrotadas de bovinos e capim por todos os lados. Apesar de cansativa pelo tempo, foi uma viagem prazerosa, de observação e meditação. No lugar dos grandes latifúndios dos tempos feudais, pequenos lotes bem cuidados e bem estruturados. Fiquei imaginando que aquele homem do campo, diferente do nosso, não tem nenhum desejo e vontade de morar nas grandes cidades para sobreviver.


Quando criança, viajei muito de Piritiba a Senhor do Bonfim num trem chamado Maria Fumaça por ser movido a lenha. Era velho e já dava sinais de decadência, mais era divertido e gostoso. Não tinha noção de que tudo aquilo caminhava para o fim.


Depois de mais de 40 anos lá estava eu de novo viajando num trem, agora movido a eletricidade, bem mais moderno e confortável. Embora com outra estrutura, a sensação era a mesma e mais forte pelas recordações. Senti tristeza do nosso país, cujos governantes trocaram o transporte ferroviário pelo rodoviário. Por causa dessa opção, o brasileiro paga caro pelos produtos, sem levar em consideração o impacto ambiental que provocam carros e caminhões pesados.


Mas vamos voltar á nossa viagem. Com a proximidade da cidade de Írum, gente nova de outras nacionalidades vai ocupando as poltronas e a língua aos poucos vai mudando do francês para o espanhol, o português e até o italiano. São pessoas mais alegres que falam mais alto e discutem variados temas, inclusive os familiares. Assim como as pessoas, as paisagens também vão mudando.


De Írum para Lisboa cruzando parte da Espanha, também se percebe as diferenças de classes sociais. Nota-se que são pessoas com menor poder aquisitivo e o trem é mais velho, menos confortável e balança muito, parecendo que vai despencar de alguma serra.


Ao lado, um casal de jovens portugueses faz algazarra e fuma muito quando o trem para nas estações. Não consigo dormir direito, preocupado com suas atitudes. Um senhor na frente, com aspecto de operário ou agricultor, trazia na sua sacola de viagem café e comida. Mastigava o tempo todo.


Quando o dia amanheceu pude apreciar novamente as paisagens, se bem que me sentia sonolento e cansado. O casal continuava a perturbar e a fumar como caiporas. Também fumo e fui até lá fora numa das paradas, mas só consegui dar duas tragadas. Os dois desciam e no apito do maquinista pongavam no trem, acompanhando o embalo. Lembrei novamente dos tempos de menino, mas não tenho mais mobilidade no corpo para isso. O tempo nos faz assim. Troquei algumas palavras com o casal, mas não fui muito longe. Aliás, os dois desceram próximo a Lisboa e me deixaram mais sossegado.


Desci na Estação Santa Apolônia, em Lisboa, por volta das 12 horas num dia ensolarado. Fui direto para o hotel na Praça Marques de Pombal, aquele estadista que governou Portugal no século XVIII, se não me engano por volta de 1775, justamente na época do grande terremoto que destruiu quase toda Lisboa. Foi ele também quem expulsou os jesuítas do Brasil.


Com uma estátua imponente em sua homenagem, a praça é bonita, mas o trânsito em torno dela é confuso. Depois de me refazer da viagem com um bom banho, resolvi dar os primeiros passos na cidade e fui percebendo semelhanças com a nossa Salvador, não somente na questão da arquitetura.


No centro histórico do bairro Rosio você entra no túnel do tempo, pegando um bonde que sobe ladeiras e leva as pessoas até o Castelo de São Jorge. Se você está indo pela primeira vez, não deixe de pegar o elevador Santa Justa até a Cidade Alta. Lá você pode visitar o Mosteiro do Carmo e seu museu antropológico, muito interessante. Ah! Na praça tem a casa onde viveu o poeta maior Fernando Pessoa e ao lado a barraca de revistas aonde ele ia todos os dias comprar o jornal.


Mais na frente já no bairro de Belém, onde se saboreia um delicioso pastel, o museu do Coxe, o Mosteiro dos Jerônimos, o Monumento aos Descobridores e a Torre de Belém de onde partiram Cristovam Colombo e Pedro Álvares Cabral para a descoberta de novas terras, são locais que não podem deixar de ser visitados.


Claro que existem outros lugares muito agradáveis e importantes para serem conhecidos, mas cito estes principais. O Jardim Zoológico é um deles. Não podia deixar de ir a Fátima. Foi outra bela viagem de ônibus por estradas bem asfaltadas e sinalizadas, cortando campos de vinhedos e oliveiras.


Durante os dias que passei em Portugal pude acompanhar melhor os noticiários e visitar o jornal Diário de Notícias. O país vive uma séria crise financeira e social na educação e na saúde. É nítida a diferença econômica de Portugal com relação a outros países da Comunidade Européia. Para começar, lá os ônibus e aviões atrasam sempre.


Para reduzir custos com mão-de-obra presenciei uma coitada de uma mulher responsável por conduzir o elevador Santa Justa. Fazia de tudo, desde orientar turistas, receber o dinheiro do ingresso, passar o troco e fechar as portas. Fazia tudo isso sozinha num esforço estressante.


Quando estive lá, a discussão principal entre os parlamentares da situação e da oposição era sobre a universalização da saúde e a melhoria da qualidade da educação. Mais de 400 mil pessoas sofrem em filas nos hospitais para fazer uma consulta que demora de seis a oito meses. Parecido conosco. Os desempregados já ultrapassam 600 mil pessoas. O salário base é de cerca de 400 euros, perto de mil reais, bem distante da França e da Inglaterra, por exemplo. A situação por lá não é nada boa.