quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A MESMA TRISTE BAHIA

“Triste Bahia” de Gregório de Mattos, de Castro Alves, de Ruy Barbosa, de Otávio Mangabeira, de Jorge Amado, de Mário Cravo, Calazans, de Raul Seixas, de Tom Zé, de Gil, Caetano, Caymmi, Glauber Rocha, Elomar e tantos outros, que ainda exibe tristes índices de desigualdades sociais, de concentração de renda, de baixa educação, de morosidade no judiciário, de desnutrição, de saúde deficitária, de altos índices de doenças e poluição sonora.



“Triste Bahia” que teve sua música, sua educação, seu saber e sua cultura definhados a uma aparência esquelética pelo axé music, pelo pagode com letras pobres e consumistas, pelo carnaval que continua a criar palanques para gente endinheirada assistir os” pipocas” pularem no asfalto, pelas baianas de acarajé que não se vestem mais a rigor, pela exploração no verão, pelo abandono de Salvador e pela falta de cultura turística.



“Triste Bahia” abençoada por todos os deuses e amaldiçoada pelos primeiros colonizadores que aqui chegaram com suas manias e maracutais, pelo sistema escravista, feudal e capitalista predador, pelo esmagamento das revoltas sociais dos Malês, dos Alfaiates, de Canudos, pela ditadura juracicista, pelo coronelismo carlista e pela herança maldita de aqui se eternizar o absurdo dos absurdos.



È a Bahia da sexta maior economia concentrada no Litoral e no Recôncavo e é também onde está a maior pobreza, campeã do Bolsa Família com mais de um milhão de famílias cadastradas. É a Salvador das belezas naturais com seu rico patrimônio histórico e é também a capital da mais baixa renda per capita de R$8.870,00, só perdendo para Teresina, no Piauí.



É a Bahia de um interior tão desigual onde o semiárido ocupa 64% do seu território. É ainda a Bahia das piores escolas do Brasil. É essa Bahia dos poetas, dos escritores, seresteiros, sambistas e idealistas que não mudou muito em 2009. Infelizmente, ainda é essa Bahia de um metrô superfaturado e o mais curto de 10 anos de obras, de um aeroporto cujo nome histórico da sua independência é trocado por um filho de ACM. É a Bahia dos absurdos. É a Bahia que não termina o metrô, mas lança ponte Salvador-Itaparica.



No ano que passou, o que mais me chocou nesta Triste Bahia foi a introdução de mais de 40 agulhas numa pobre criança em Ibotirama pelo padrasto. A ignorância (falta de educação) e a miséria se misturam diante de um capitalismo insensato que só vê a competição e o lucro. A sociedade não tem nem moral para condenar tão absurda agressão.



O Governo Jacques Wagner, do PT, imprimiu seu estilo republicano de administrar. Mudou a capa, mas o miolo do seu Governo está impregnado de conservadores e gente execrável do carlismo. Tudo pelo poder. A coligação Gedel Vieira Lima e Wagner se desfez em 2009 quando o ministro da Integração Nacional colocou em agosto à disposição do Governo todos os cargos que a legenda do PMDB detinha na estrutura estadual.



Como em todo Brasil, em 2009 foi denunciado que o Governo do Estado reteve R$30 milhões do repasse constitucional ao Tribunal de Justiça da Bahia para quitar dívidas com fornecedores e folha de pagamento. O Conselho Nacional de Justiça decretou o fim das atividades do Instituto Pedro Ribeiro de Administração Judiciária.



E por falar em Justiça, pesquisas e estudos concluíram que a Bahia tem um judiciário mais moroso do Brasil com o acúmulo de milhares de processos, sem contar as irregularidades no Tribunal, como do desembargador Dario Cunha denunciado por venda de sentenças. Uma vergonha nacional.



O presidente da Assembléia Legislativa, Marcelo Nilo buscou apoio para a PEC da aposentadoria vitalícia a ex-chefes do Executivo. No apagar das luzes do final do ano, a Mesa Diretora aprovou aumento de indenização da verba dos deputados, de R$15 mil para R$29 mil. A sociedade, como sempre, se calou.



O conselheiro do TCM, Pedro Lino, em sem relatório, recomendou a rejeição das contas do governador, referentes a 2008. Jacques Wagner rebateu e no Tribunal, membros da Casa baixaram o nível com palavrões.



Em Salvador, guardas civis ficaram sem fardas para trabalhar devido a licitações fraudulentas. E, por falar em roubalheira, a diretoria da Agerba (a Agência que regula os transportes) foi acusada de atos de ladroagem, inclusive o chefe Leur Lomanto. O ex-comandante da PM, coronel Antônio Jorge Ribeiro de Santana foi preso pela Operação Nêmesis com outros integrantes da corporação por enriquecimento ilícito. Soltos logo depois. Ninguém falou mais nisso.



No dia 7 de setembro, data símbolo da história do país, a capital foi tomada por uma onde de violência de bandidos traficantes de drogas com ataques a módulos policiais, loja da Cesta do Povo e a ônibus coletivos. De um modo geral, o Governo não conseguiu conter a violência na Bahia e a segurança deixa a desejar.



A saúde é outro setor que deixou tristes marcas no ano que passou. Os corredores dos hospitais continuam cheios de macas e doentes amontoados na espera de um atendimento médico. Em abril nasceu na rua, no bairro de Ondina, um bebê prematuro que morreu dias depois.



Surtos de doenças como a dengue, meningite, H1N1 se alastraram na capital e no interior. O mosquito aedes aegypti contaminou 121.267 pessoas em 394 municípios e causou a morte de 84 pacientes até meados de dezembro.



Os problemas do trânsito de Salvador (cerca de 700 mil carros transitando) só fizeram se avolumar e a tendência é piorar com o aumento de veículos e poucos projetos para contornar a situação. O prometido metrô que virou “calça curta” está completando 10 anos sem funcionar.
Na economia, a Bahia conseguiu segurar a crise, devendo registrar um crescimento de 1,5% do seu PIB. Os setores de varejo e construção civil foram os destaques. A indústria, especialmente a química e a metalúrgica, ainda patina.



A boa notícia são os investimentos anunciados de R$3 bilhões pela Ford e pela Braskem. A construção civil comemorou 10 mil unidades comercializadas em 2009. A Bahia foi o primeiro estado a atingir a meta do programa Mina Casa, Minha Vida com 32 mil unidades contratadas. O comércio deverá ter um crescimento de 6% no ano. Até novembro, as exportações recuaram 23% em relação a 2008 num ritmo de queda igual ao do Brasil cujas vendas se concentram em produtos primários.



O consórcio RodoBahia formado por espanhóis e brasileiros arrematou as concessões das BRs -116 e 324. Lá vem pedágio para infernizar nossas vidas. A gigante do varejo Casas Bahia comprou a Romelsa. Entrou em operação no município de Itagiba a maior mina de níquel da América Latina. O grupo francês Alstom confirmou a instalação na Bahia de uma unidade de montagem para exploração de energia eólica.



Em maio, as enchentes voltaram a castigar Salvador e muita gente ficou desabrigada. Salvador foi escolhida para ser uma das sedes da Copa do Mundo de 2014. Mais uma vez, o medo é a roubalheira desenfreada.



A nossa cultura se esbarrou no bate boca e nos quatro anos de conferências pelo interior. Existe muito discurso e pouca ação. Os projetos e os editais esbarram na burocracia e as aprovações continuam centralizadas em Salvador.

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