domingo, 24 de abril de 2011

AS CANCELAS DA BAHIA

Salvador hoje está cercada de porteiras e cancelas por todos os lados. Para sair e para entrar o cidadão deixa uma taxa para os pedágios da Bahia Norte e a Via Bahia. Mais parece uma fazenda de porteira fechada, mas só que nesta você é obrigado a pagar aos donos. O mais irônico é que está fórmula foi implantada justamente num governo de esquerda que tanto condenou a privatização.

Pagamos tantas vezes os impostos para construir as rodovias e mantê-las conservadas. Desviam a grana para mordomias políticas e outros fins, deixando as estradas sem a devida conservação. Aí, vem um capitalista e bota porteiras e cancelas, obrigando que o cidadão pague quantas vezes passar por elas. Não é engraçado este sistema! Ou vergonhoso de doer!

Mas que nada, os motoristas e consumidores acham legal, dizendo que agora vamos ter pistas bem sinalizadas e asfaltadas. Que mal pergunte: Isso não deveria ter sido feito pelos eleitos com o dinheiro que já pagamos e continuamos a pagar? Por acaso, vão deixar de cobrar o IPVA e outras taxas mais? Não se trata de um calote? De uma transgressão à Constituição? De uma tremenda safadeza?

É imensurável a resistência do povo quando se trata de ser judiado e pisoteado. É muita judiação como diz a canção. O nosso povo tem uma paciência inigualável de suportar ultrajes e ultrapassa as barreiras do limite. Tudo engole, sem reclamar. Não protesta. Tudo aceita, sem discutir seus direitos. Também, o nível da nossa educação é um dos piores do mundo! O ensino é uma lástima.

Montaram porteiras e cancelas na Via Parafuso (Km-8), Canal de Tráfego (Km-11), na Simões Filho – Camaçari e mais cinco de Salvador para Vitória da Conquista, passando por Feira de Santana. São cinco cancelas só ao redor de Salvador, “administradas” pela tal Bahia-Norte. Vem muito mais cancela por aí. O Governo de Jacques Wagner vai ficar registrado na história como o governo das porteiras e cancelas. Boa marca!

Vão dizer que essa situação existe também em outros estados. É verdade. Só que não se devia copiar os erros de governos passados, principalmente cunhados de conservadores, reacionários e retrógrados. Mesmo assim, estou falando da Bahia onde as contradições são mais escancaradas, como tirar o nome de Aeroporto Internacional Dois de Julho para Aeroporto Internacional Luis Eduardo Magalhães.

Sinto-me envergonhado de ser baiano quando chego de avião em Salvador e anunciam: “Logo mais pousaremos no Aeroporto Internacional Luis Eduardo Magalhães”. Sou pobre e raras vezes entro num avião. Imagina se viajasse muito! A esquerda de Wagner continua calada e não se mobiliza no Congresso para retornar o nome histórico de origem.

Os intelectuais, artistas, estudantes, sindicatos e os segmentos ditos organizados da sociedade continuam em silêncio. É esse consentimento que mais nos incomoda. A mídia, também dita formadora de opinião, deveria ter consciência, pelo menos, e não citar Aeroporto Luis Eduardo Magalhães. Ao menos falasse ou escrevesse Aeroporto Internacional de Salvador. Quanto aos políticos, nem é preciso falar. Não esperamos mesmo muita coisa deles.

Essa é a Bahia de Jorge Amado, Ruy Barbosa, Mário Cravo, Caetano, Gil, Otávio Mangabeira, Balbino e de tantos outros nomes famosos, como também é a Bahia dos absurdos. É a Bahia de economia forte, mas com os piores índices de desenvolvimento humano. É a Salvador de belas paisagens, mas feia para receber turistas e visitantes. É mais a Bahia que tenta viver dos estereótipos e dos folclores.

domingo, 17 de abril de 2011

VERGONHA NACIONAL

Sem arrodeios, com escolas caindo aos pedaços, em locais impróprios e sem higiene, sem água e merenda escolar, paredes rachadas, crianças sem cadeiras assistindo aulas em pé e professores mal pagos, desestimulados e despreparados, o ensino educacional brasileiro é uma verdadeira vergonha nacional.

Enquanto isso fica uma simpática senhora subindo escadas na propaganda institucional paga pelos contribuintes dizendo que estamos sim atingindo o índice recomendado pelo Governo e pelas Nações Unidas, com base nos países mais desenvolvidos. Até quando vamos ter que aturar essa desfaçatez que nos trata como burros?

Não é preciso ir muito longe para concluirmos que o Ministério da Educação está querendo subestimar nossa inteligência. Há pouco tempo estava lendo artigo de um colega meu num jornal da capital onde citava “pérolas” do Enem, respondidas nas provas dos atrapalhados concursos.

Vamos, então, a algumas delas como “O Brasil não teve mulheres presidentes, mas várias primeiras-damas foram do sexo feminino”. E queria o aluno ou aluna que a esposa do presidente fosse mulher do sexo masculino. Complicado, não é?
Outra maravilhosa é de encher os olhos de lágrimas, ou cair na gargalhada. “O bem star dos abtantes da nossa cidade muito endepende do governo federal capixaba”. Que confusão! Será que ele ou ela estava pensando na intervenção militar do governo federal no governo carioca? Vai saber!

“Quilombo era um negro que fazia um índio no mato” e “Tomé de Souza chegou acompanhado do padre Manoel dá no Brega”. “A História se divide em 4 – Antiga, Média, Momentânea e Futura, a mais estudada hoje”. Não sei se dá para rir ou para chorar.

Querem mais? Então vamos a outras “pérolas”: “Os pagãos não gostavam quando Deus pregava suas dotrinas e tiveram a idéia de eliminá-lo da face do céu” e “Onde nasce o sol é o nacente, onde desce é o decente”.

São esses estudantes que estão ingressando nas universidades, principalmente nas particulares, e depois procuram o mercado de trabalho, sem chances de um serviço mais especializado como está acontecendo.

Ao invés de melhorar, está aumentando a decadência do nível de ensino, deixando o brasileiro mais distante da verdadeira cidadania para exigir seus direitos básicos e escolher, por exemplo, seus representantes no Congresso, nas assembléias e câmaras. Desde que me entendo como gente ainda não vi um governo priorizar a educação e dizem que os políticos assim gostam que fique porque têm maior poder de manobra.

Na educação, a própria quantidade propagada está se ruindo com muitas escolas em estado lamentável. Tudo isso é de se estranhar, justamente num governo que se diz de esquerda que prima pelo social. Os segmentos da sociedade, como a mídia, por exemplo, também têm suas parcelas de culpa.

A imprensa também está sem conteúdo e qualidade. Nas emissoras de televisão o que mais se vê são baixarias desmoralizantes. Cada veículo de comunicação neste país, por dever de cidadania, deveria colocar em cada edição, jornal, rádio, televisão, blog ou site, uma matéria diária sobre educação, criticando as falhas e exigindo qualidade no ensino. Seria uma campanha nacional conjunta de todas as mídias.
Enquanto isso, a mulher da propaganda enganosa continua subindo as escadas.

Maquiando números e escondendo a verdade pode-se chegar lá, mas não vai enganar por muito tempo. A educação é uma vergonha nacional que se arrasta há anos e deixa nossos cidadãos cada vez mais vulneráveis à manipulação.

Já que estamos falando de educação, há pouco tempo foi divulgada uma pesquisa britânica listando as 200 melhores universidades do mundo e, como já era esperado, o Brasil ficou de fora. As instituições que chegaram mais perto da relação foram a Universidade de São Paulo e a Universidade Estadual de Campinas-Unicamp.

As universidades baianas, com baixa produtividade, ficaram bem longe. Elas não fazem parte nem da lista das dez melhores universidades brasileiras. As diferenças entre as brasileiras e estrangeiras melhores começam pelo valor investido em educação. O Brasil investe 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto Estados Unidos atingem 3%. Chegou-se à óbvia conclusão de que o Governo precisa investir muito mais nas universidades estaduais.

A Universidade de Harvard foi apontada como a melhor do planeta. Quanto a nós brasileiros só nos restou a herança maldita como dizem os políticos que assumem governos dos seus adversários. A Universidade de Coimbra que sempre formou no tempo da colonização a elite brasileira, sempre esteve atrasada em relação às européias. Instituições de ensino superior em solo brasileiro somente foram implantadas após a chegada da Família Real, em 1808.

Conforme estudos, no final do século XIX apenas 16% da população era alfabetizada. Universidades como a USP surgiram nos anos 30 do século XX. A nossa origem não é nada boa, mas se os governos tivessem vergonha na cara já tinham mudado essa situação degradante. Sem educação, o Brasil será sempre um país do futuro, onde os jovens do sexo masculino sonham em ser jogadores de futebol e as meninas dançarinas de pagode.

Temos um PIB considerável de US 2 trilhões, mas existem 103 países com melhor renda per capita que a brasileira. Numa lista de 134 países, só existem 10 mais desiguais que o Brasil. Nossos indicadores deixam muito a desejar na área social. Temos uma expectativa de vida média de 72,5 anos, abaixo de países como Paraguai, Uruguai e Chile. Quanta a taxa de mortalidade infantil houve melhora nos últimos anos, mas outros países da América Latina estão em nossa frente.

Esses dados servem para ilustrar que, enquanto não alcançarmos uma educação de qualidade, os níveis sociais vão continuar defasados em relação a outros países subdesenvolvidos, ou emergentes como queiram os politicamente corretos que adoram se enquadrar nos padrões ditatoriais dessa sociedade capitalista burguesa. Muitos ainda se orgulham de que somos a 6ª ou a 7ª maior economia do mundo.

domingo, 10 de abril de 2011

FÁBRICA DE HERÓIS

È trágico, mas são nas tragédias que os nossos políticos governantes aproveitam para marcar mais pontos. Derramam suas lágrimas em público para apagar suas mazelas, pelo menos temporariamente. Aparecem com soluções que não passam de paliativos.


Após o massacre dos adolescentes num colégio do Rio de Janeiro, logo aparecem numa coletiva as figuras do governador e do prefeito remoendo palavras sentimentalóides e soltas como se estivessem narrando do local os passos do criminoso e a aflição dos alunos fugindo dos tiros.


Sempre estiveram distantes das políticas públicas de proteção e defesa dos direitos civis e sociais dos cidadãos mais humildes, mas aparecem nas catástrofes como guardiões, com discursos inflamados e demagógicos. Agora a solução para o problema é o desarmamento. Uma forma de jogar debaixo do tapete anos de atrasos nas políticas públicas.


No calor da emoção, lançam as vítimas com seu poder de eloquência, dizendo frases tocantes de consolação como se sempre estivessem caminhando ao lado delas. Depois se afastam até acontecer outra desgraça.


Num linguajar de nível marqueteiro, se excedem com sentenças impróprias e descabidas que passam despercebidas dos ouvintes e da imprensa.


Para ficarem bonitos na fita, esquecem de seus cargos e atacam desumanamente o criminoso, chamando-o de animal e soltando outras grosserias. Usam e abusam para ganhar admiração. Imediatistas, agora se fazem de bonzinhos, solidários e condoídos.


O povo se esquece da falta de segurança, inclusive nas escolas. Se houvesse policiamento mais reforçado na cidade, inclusive em frente dos colégios, os alunos teriam sido socorridos mais rapidamente e até evitado que doze fossem sacrificados. O estudante ferido só foi encontrar um policial a duas quadras de distância.


A imprensa, como sempre, superficial e apelativa, não explorou esse fato, mas achou de fabricar um soldado herói que apenas fez seu trabalho pago pela população para isto. Aliás, a mídia se especializou em fabricar heróis para aumentar sua audiência, e o povo engole e deixar se envolver no cipoal espalhafatoso da mídia.


No lugar do exemplo e do equilíbrio, o tom dos gestos do governador transmite uma sensação de incentivo ao linchamento do atirador (isto se vivo estivesse). Aliás, fizeram um linchamento verbal popular, típico de multidão enfurecida, fora do racional, que quer matar, como se viu nas cenas de vídeos.


Da multidão que avançou as escadas do colégio, cruzando atordoadamente os corredores pra lá e pra cá, boa parte não tinha parentesco com as vítimas. É impressionante como o ser humano fareja desgraça.


O indivíduo que cometeu o desatino e a loucura é digno de compaixão por se tratar de uma pessoa doente mentalmente, psicologicamente perturbada. Supostamente (a mídia também pulou esta parte) ridicularizado e desprezado na escola onde estudou, o rapaz não soube superar o trauma e o sofrimento da rejeição.


Todos nós somos animais cheios de fraquezas. E se o governador Sérgio Cabral se referiu ao animal selvagem, está espécie não comete matanças indiscriminadas. O selvagem caça o outro para sobreviver. Devia ter mais compostura e serenidade em suas palavras.


Baixar o nível e xingar o assassino de animal ou monstro não traz as vítimas de volta à vida. Nestas horas se espera de um governante o espírito humanista, não de oportunismo para capitalizar politicamente popularidade com a dor alheia.


Vivermos num mundo individualista e sem solidariedade onde o que mais importa é o ter. As crianças estão sendo instruídas a viver assim, não respeitando a diferença do outro ao seu lado. O ensinamento hoje gira em torno da competição e em ser o melhor a qualquer custo se quiser sobrteviver. É a sociedade da indiferença.

OS BURACOS DAS COBERTURAS

Do outro lado, a mídia televisiva monta seu espetáculo para criar seus “heróis” do momento que, inocentemente úteis, se deixam filmar para contar as histórias de horror. Seus egos são inflados com a magia das câmaras filmadoras até sentirem o cheiro perfumado da fama. Usam e abusam.


O sargento e seu companheiro que atuaram de acordo com suas funções delegadas e pagas pelo povo são transformados em heróis e quase roubam a cena do jornalismo que foi o fato da chacina de 12 estudantes. Como poderia ter sido outro, o policial atendeu o chamado e sua obrigação era conter a ação do atirador.


Depois de explorar ao máximo as lágrimas e as expressões de dores das famílias das vítimas, a mídia foca suas lentes nos soldados e deles extraem e sugam todo sentimentalismo. Empolgados com o assédio, os militares se sentem famosos e contam até suas vidas particulares. Um deles diz que sua filha lhe beijou. Só risos no meio de uma tragédia horrível.


No meio disso tudo, não ficou nada esclarecido se foi suicídio, ou se o criminoso foi morto depois de alvejado pelo sargento. Apenas disseram que nesses casos, os quais já ocorreram em várias partes do mundo, o assassino sempre se mata depois. Nesse fato, as coberturas jornalísticas estão cheias de buracos e falhas. Todas reportagens fazem a mesma coisa.


Para completar o espetáculo, uma rede passa um vídeo tremido feito por um amador que fica o tempo rodando a câmara e fazendo perguntas idiotas para os feridos, repetindo que vai chamar o bombeiro. Nessa hora, como notícia, todo boato vira fato no telejornalismo. É muita pobreza.

terça-feira, 5 de abril de 2011

O POLÍTICO, O LADRÃO E A INTOLERÂNCIA

Desta vez vou falar de duas questões que sempre estão rondando o nosso cotidiano circo dos horrores do “mundo civilizado”, pelo menos é o que dizem por aí. Uma é sobre a corrupção e a impunidade que tantas vezes já abordei aqui com reprovação e revolta.


A outra é sobre até aonde vai o poder de tolerância contra a intolerância que ultrapassa o politicamente correto. Existe uma patrulha no país que, contraditoriamente, defende uma liberdade de expressão, mas sempre está de plantão para linchar o primeiro pensamento intolerante que aparece.


Sei que sobre uma destas questões, pelo menos, serei linchado e apedrejado. Não estou nem aí como diz uma canção. Podem bater à vontade, desde que não seja literalmente em minha cara, mas com argumentos e idéias.


Quando ainda era menino e aparecia um político, um oficial da polícia, um funcionário graduado do governo ou alguém de um segmento civil sendo denunciado como corrupto, as autoridades corriam logo para explicar que se tratava de uma minoria a contar nos dedos, e que era preciso extirpar o câncer para não se espalhar por todo o corpo. Hoje é o contrário. A dita minoria virou grande maioria e todo o corpo apodreceu. É uma fedentina só como em esgoto de ratos.


A senhora toda encantada e bela impunidade abriu seus braços meigos para o beijar de língua na boca da corja que desfila entre nós acintosamente. O corrupto passa rindo e soltando gracejos como noivas donzelas e puras. Esta questão me suscitou fazer um paralelo, ou diferenças entre o político corrupto e o ladrão comum, ou o bandido das periferias.


Os políticos ou magistrados corruptos assaltam os cofres públicos e continuam por aí de terno fino desfilando nos aeroportos e ambientes sociais, recebendo cumprimentos e tapinhas nas costas.


O ladrão das periferias anda com roupas batidas e toucas para despistar da polícia. Vive se escondendo e fugindo das metralhadoras dos “homens da lei”. Só é cumprimentado por parceiros de delito e já tomou muitas porradas e ferro nas cadeias por onde passou.


O político corrupto faz seu próprio aumento no Congresso, na Assembléia ou na Câmara, e é presenteado para delegar Comissão ou dirigir Ministério. Tem imunidade parlamentar e só pode ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal. Enfim, ele é promovido pelo roubo.


O ladrão comum vive em constante perigo nos assaltos e a qualquer bobeira é executado friamente por um “tribunal” fardado de soldados (muitas vezes comparsas dele). Quando preso é quebrado na tortura e sem julgamento judicial. Sem essa de imunidade.


O político corrupto trama o roubo do cidadão em gabinetes de ar condicionado sem correr nenhum perigo de tiros de fuzis. Sem aquela ordem: Isso é um assalto. Monta quadrilhas sofisticadas e esquemas intrincados em mansões e restaurantes de luxo, comendo lagostas e faisões. Depois recebe sua parte num escritório; enche a cueca e as meias de dinheiro; e sai passeando livremente sendo saudado como doutor e excelentíssimo. Recebem votos dos eleitores e no poder continuam roubando.


O ladrão monta esquemas em barracos e depois do assalto ou roubo sai correndo em disparada, fugindo desesperado das balas e ainda corre o risco de ser linchado em praça pública.


Essas diferenças e comparações entre o político corrupto e o ladrão comum, a depender da imaginação de cada, podem ocupar um longo espaço, mas hoje as pessoas não têm tempo para ler e estão mais preocupadas consigo mesmo. Não querem se envolver com essas coisas de corrupção de políticos e impunidade. Nisso, elas toleram a intolerância.

TOLERAR A INTOLERÂNCIA

Alguém diz que se sente feliz porque em sua família sua raça não se misturou. É toda limpa. Não foi um branco quem falou. Foi um negro numa entrevista num jornal da capital. Isso pode ser interpretado como puro racismo, mas com base na liberdade de expressão tão defendida por aí, ele tem o direito de falar o que pensa, mesmo que não concorde. Ninguém comentou. A contradição maior é que se tivesse partido de um branco, a patrulha entrava pesado e tome linchamento público.


Uma alta funcionária do Governo Lula, não me lembro o nome, deu um depoimento na imprensa declarando que o negro tem o direito de discriminar e até ser preconceituoso pelo simples motivo de ter sofrido o peso da escravidão que aconteceu durante mais de 300 anos, sem depois ter sido reparado pelas políticas públicas.


Ela também tem o direito de livre expressão e eu de discordar do seu pensamento simplista, sem nexo e raivoso, que não justifica um preconceito, mas sem essa de patrulhamento e linchamento. Ultimamente venho observando um acirramento na sociedade dos preconceitos étnicos, homofóbicos e no campo das idéias. Alguma coisa está errada e pode piorar. Outra coisa que assusta é o aumento da violência e da corrupção na polícia militar. Algo está errado no regime das corporações que precisa ser repensado e reformulado. A coisa está feia e aterrorizante.


Vou adentrar, especificamente, no caso mais recente do deputado Jair Bolsonaro, longe de defender e concordar com suas idéias preconceituosas, mas ele também tem o direito de se expressar, e quem for ofendido recorrer à justiça por injúria e difamação. Quando não somos tolerantes com a intolerância, nosso conceito de liberdade e democracia vai para o ralo. Onde está a capacidade de tolerar a intolerância? E onde fica o nosso compromisso com a liberdade de expressão?


Bolsonaro já é uma personagem visada e carimbada como do mal. É difícil defender seu direito de pensar, mesmo dizendo barbaridades. Ora, se não concordo com seus preconceitos, devo defender seu direito de ser contra o homosexualismo, a união gay e o casamento entre um negro e uma branca ou ao contrário.


Como disse bem um colunista de um jornal, “se o direito de ser contra for negado a Bolsonaro hoje, o direito de ser a favor pode ser negado a mim amanhã de acordo com a ideologia dos que estiverem no poder”. Foi o que ocorreu na ditadura. A patrulha imbecil do politicamente correto é autoritária e ditatorial. Sem essa de “cassa, cala e prende Bolsonaro”. Se me coloco intolerante com ele, estou me igualando a ele. O mais incrível é que nossa gente tem a maior tolerância com os corruptos e ladrões políticos.


Quase ninguém mais se lembra quando Lula numa emissora de televisão em Pelotas (Rio Grande do Sul), sem saber que estava sendo filmado, disse que a cidade era uma exportadora de veados. Muita gente o defendeu para não dar espaço para a direita. Foi ele também que falou que os responsáveis pela crise internacional de 2008 teriam sido os louros de olhos azuis. Imagina se os responsáveis tivessem sido os africanos! Será que ele diria que foram os negros de olhos pretos?


O preconceito só é caracterizado quando parte do branco para o negro? E se o gay chamar o heterossexual de sujo, porco, machista e safado só por ele expressar seu pensamento contrário a união homossexual? Não é preconceito? Então, o que conta mais é quem diz e quem pensa? Na nova novela “Morde e Assopra”, da rede Globo, a mulher do prefeito empurra na praça uma faxineira branca vendedora de cocadas e diz que despreza e tem nojo de quem é pobre. É uma discriminação velada e pesada. Diria nazista e fascista. Será que alguma entidade ou alguém vai protestar? Mas, se fosse uma negra iria, com certeza. Quer dizer que a tolerância e a intolerância têm cor e raça?