quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

O CARNAVAL DO APARTHEID

Uma festa européia, trazida para o Brasil, o carnaval tinha como modelo original a exclusão do negro, do índio e do mestiço. Seu formato foi se modificando com o tempo, abrindo espaços para a popularização e a socialização. Só que nos últimos tempos, a pretexto de profissionalização, o carnaval terminou virando um evento das elites, e hoje o que temos é um verdadeiro apartheid social. Muitos acham que é também racial, mas não vejo por este prisma. A questão é social mesmo, tendo em vista que exclui a camada social mais pobre, sem distinção de cor, impedindo a sua participação nos blocos ou de freqüentar os camarotes.

É assim o carnaval de Salvador, cheio de distorções e contradições. Os trios elétricos das celebridades artísticas e de empresários dominam as ruas e avenidas com seus blocos numerosos e de acessos caros, empurrando e espremendo cada vez mais o folião “pipoca”. O esquema funciona como um rolo compressor que vai passando por cima da massa, não importando a cor. A individualização racial já é uma tendência de divisão de brancos e pretos que hoje está cada vez mais textualizada nos depoimentos.

Com a omissão do poder público, os blocos de elites cresceram e definiram suas características no carnaval de Salvador. Os desastres aparecem a cada ano, como aconteceu com a confusão no Teatro Castro Alves durante a aquisição de ingressos para as arquibancadas. Lá estavam os pobres, negros, brancos e mestiços, tentando comprar uma entrada mediante quilos de feijão, arroz ou latas de leite. No corre-corre e empurrões, por pouco não houve uma tragédia com mortes.

O poder público, mais uma vez, levou os pobres a uma humilhação degradante. Para ver os ricos desfilarem, os organizadores colocaram os pobres para doarem alimentos para os pobres. Aí, os cambistas entraram em cena e conseguiram boa parte dos ingressos que foram vendidos aos riquinhos por até R$100,00. Ora, a medida se inverteu e só os de maior poder aquisitivo vão ter acesso às arquibancadas. Outros comercializaram seus ingressos para comprar mais alimentos. Pelo menos nisso a medida serviu para gerar mais uma renda de sustento para as famílias pobres.

Outra questão são os patrocínios das empresas que são direcionados para os mesmos tipos de blocos e trios, ficando evidente a desigualdade e o quanto o carnaval é antidemocráico. Mais uma vez, não considero aí uma atitude terminantemente racial, mas social. Quem tem dinheiro sobrando compra os abadás dos blocos, não importando a cor. Ocorre que a maior parte da população de Salvador, mais de 80%, é constituída de negros e quase todos são pobres. Os brancos pobres também ficam de fora do carnaval e são empurrados pelos trios e blocos. O problema é de concentração de renda que é gritante na capital e em todo país, regido pelo capitalismo selvagem e desigual.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

UM CARNAVAL IMORAL

Ivete Sangalo convoca uma entrevista coletiva para dizer á imprensa que vai sair seminua no carnaval de Salvador. Durval Lelis faz o seu circo para falar que vai sair com trajes de cawbóy americano, mais precisamente de cawboylino. A mídia dá destaque e ocupa seu tempo e espaço com os artistas endinheirados e incensados. Oh! quantas besteiras e futilidades diante de tantos assuntos importantes nacionais para serem divulgados, discutidos e informados para a opinião pública! Mas, paciência, o nosso povo foi treinado para engolir as baboseiras e achar tudo divertido e importante.

É o carnaval de Salvador, cheio de folclores e “folcloristas” como a indicação de Clarindo, o magro, para ser rei Momo. Mas, o pior tinha que vir. Nesta terça-feira(dia 29/01), as redes de TVs estamparam as cenas degradantes de pessoas socialmente pobres se matando aos empurrões, carregando mantimentos às costas para adquirir um ingresso para ver as celebridades do carnaval nas arquibancadas. Achei tudo deprimente e como ainda é tão revelador nos tempos atuais, o poder dos senhores de engenhos sobre os escravos. Como o povo continua na servidão e sendo tratado com resto!

Por que os organizadores do carnaval não colocaram as celebridades e os políticos para levarem os produtos e trocarem pelos seus acentos confortáveis nos lugares reservados a eles? Quer dizer que aqui em nossa terra, os pobres são obrigados a repartir o pão com seus semelhantes, também pobres e miseráveis. A filantropia agora é feita pelas camadas mais baixas. Muita gente tirou seu alimento de casa para conseguir um ingresso e ver os riquinhos desfilarem na avenida. Na fúria, os pobres coitados arrebentaram portões e, por pouco, não ocorreu uma tragédia com mortes. Se isso acontecesse, ninguém era responsável.

Que carnaval é esse de tantas contradições, absurdos e maluquices? A mídia se omite porque ela está sendo beneficiada e tem seus interesses na festa. Sobre o assunto, o cantor e compositor Walter Queiroz fez o seguinte comentário: Diante da acomodação de todos os segmentos da sociedade quanto a esse modelo atual de Carnaval – imoral, ilegal e perverso – somente uma medida de grande alcance, como uma ação popular, será capaz de sacudir esse sistema. Não espere por isso porque o povo foi tragado pela propaganda enganosa.

Para o Estado, que utiliza o dinheiro do contribuinte, o carnaval é uma prioridade absoluta, tanto que a Secretaria da Cultura está desembolsando R$5 milhões para os blocos e artistas alternativos que estão reclamando do cachê. Essa verba é maior que a do ano passado. Cada bloco está recebendo entre R$15 a R$100 mil. Para a educação e a cultura, não existe e nunca existiu prioridade absoluta neste país por parte dos governantes. Cadê, sr. Secretário, a tão falada democratização dos recursos para o interior? As conferências de cultura passaram e tudo continua no mesmo de sempre.

O carnaval de Salvador é uma vergonha em termos de elitismo, boçalidade das celebridades artísticas e políticas e, acima de tudo, de futilidades. É onde existe mais músicas com letras de baixo nível por metro quadrado, num espaço cada vez mais elitizado que empurra os pobres para os muros e esquinas fedorentas de urinas. As avenidas são ocupadas pelos senhores capitalistas donos do poder. Diferente de Recife que ainda apresenta uma grande diversidade cultural popular durante seu carnaval, Salvador é só uma lembrança amarga da festa que existiu há 30 anos.

sábado, 26 de janeiro de 2008

A FEDERAL VEM AI

Muita gente não vai gostar, mas vem aí a criação da Delegacia da Polícia Federal em Vitória da Conquista, há tantos anos solicitada pelas pessoas mais sérias e de boas intenções que querem ver o crime organizado ser desbaratado. Quando se fala muita gente, compreende-se os chefes de quadrilhas de roubo de cargas, que sustenta o aparente sucesso rápido de "empresários" comerciantes; os traficantes de drogas; os exploradores do sexo de menores; e até os grupos de extermínio que estão aterrorizando famílias conquistenses, sendo os menores de ruas em risco social as maiores vítimas.
O vereador Athaíde Macedo está informando que o Conselho de Segurança do Município fez um estudo mais aprofundado sobre a situação, com argumentos sobre a necessidade urgente de instalação de uma Delegacia da Polícia Federal, em Conquista. Esse trabalho foi enviado ao Ministério Público, e a Justiça determinou a criação de uma Federal na cidade. O Ministério da Justiça alegou falta de funcionários para compor uma unidade em Conquista, como escrivãos e auxiliares. Aí a Justiça expediu uma ordem para que dentro de 90 dias seja realizado concurso para as vagas necessárias e logo seja implantada a Delegacia, sob pena de multas diárias.
Vamos torcer para que a ordem judicial seja cumprida porque o crime organizado em Conquista está cada vez mais crescente, inclusive com o envolvimento e a conivência de policiais bandidos que possuem patrimônio, especialmente bens imóveis, bem além de seus salários. Como pode um policial com o salário que ganha ter apartamentos de luxo, carros novos e terrenos. Muitos caminhões são descarregados altas horas da madrugada em estabelecimentos comerciais suspeitos. Outro crime que a polícia federal tem que entrar firme em Conquista é contra a sonegação de impostos.
Muita gente sabe o que acontece em Vitória da Conquista há muitos anos, mas prefere ficar calado a se manifestar. Por ser uma cidade de porte médio, cortada pela BR-116(Rio -Bahia) e cruzamento com várias regiões do Estado e do Brasil, Conquista é um campo fértil para a proliferação do crime organizado. É aqui que se internam os criminosos do PCC que fogem do Rio de Janeiro e São Paulo, para darem continuidade aos seus atos. O tráfico de drogas é um dos crimes que mais cresce e tem até a cobertura de taxistas e pessoas da sociedade.
A mídia não divulga nada, a não ser ocorrências exporádicas de interesse de policiais, por vários motivos. Além do medo de serem assassinados, os profissionais, na sua maioria, não têm experiência de jornalismo investigativo, e os veículos não dão o suporte necessário para o trabalho. Enfim, a mídia do interior é muito exposta e é vulnerável aos ataques dos chefes do crime organizado. Por tudo isso, Conquista está virando uma cidade sem lei e, aos poucos, sendo corroída por uma máfia. Só os crimes menores, a chamada periferia, são atacados e punidos. Os tubarões continuam soltos.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

OS INTOCÁVEIS

Otto Lara Resende dizia que mineiro só é solidário no câncer. Para as estrelas baianas da música, nem no câncer elas são solidárias. Em Salvador, o cantor Leonardo realizou um show em benefício do Hospital Aristides Maltez que sempre atravessou dificuldades financeiras. Não se tem notícias de shows dos baianos artistas em solidariedade às entidades beneficentes. Eles enchem as “burras de dinheiro” e só dizem que Salvador é um lugar maravilhoso, de um povo encantador. No mais vivem em suas mansões e passeando em seus iates e aviões particulares.

Caetano Veloso, Bathânia, Gal Costa, Daniela Mercury, Claúdia Leite, Béu Marques, Lú Lelis, Ivete Sangalo, entre outros, são os intocáveis da mídia da capital. Todos os dias são incensados com espaços e imagens de elogios, mas muitos preferem morar em São Paulo ou no Rio de Janeiro. Mesmo assim, se acham no direito de fazer suas críticas e dar suas opiniões quando um prefeito ou político toma uma decisão que não é de seus agrados.

Somente na Bahia, as omissões e os absurdos têm precedentes, como disse certa vez Octávio Mangabeira. Enquanto isso, o povo se despedaça e se espreme nos shows, comprando ingresso a preços altos, na maioria das vezes para ouvir músicas com letras vazias e de baixo nível. Os súditos gritam e apóiam qualquer baboseira que falam, mesmo que seja uma frase idiota e irracional, sem nexo. Qualquer coisa vira fenômeno que merece ser publicado e idolatrado.

Ora esses artistas estão com a direita fascista, como foi o tempo que passaram beijando as mãos e os pés de ACM e seu grupo, ora se dizem da esquerda socialista, ou vice-versa. Mudam de opinião e de conceito de acordo com seus interesses e gozam de privilégios como reis, príncipes, rainhas e princesas. Têm espaços cativos na mídia, ao contrário de algum talento novo que se apresente com um trabalho cultural de conteúdo e qualidade.

Voltando ao caso do cantor Leonardo, tem que vir um artista de fora para ajudar o Hospital Aristides Maltez, ou outra instituição filantrópica necessitada. Agora mesmo, eles(os baianos de sempre) estão aí se esbaldando de dinheiro no carnaval, em seus camarotes e trios luxuosos, ordenando a plebe a pular e a bater palmas para tudo que fazem. São os intocáveis da imprensa que não tem a coragem de falar a verdade, ou levantar alguma crítica contra os absurdos.


COMO ENGANAM!!!


Mudando um pouco de assunto, mas na mesma linha de como vivemos de aparências e sendo enganados o tempo todo, já perceberam como os governantes mentem com suas estatísticas e deixam a opinião pública – se é que existe – mais confusa e baratinada?

Agora mesmo é o caso do PAC(Programa de Aceleração do Desenvolvimento). O Governo faz tudo para esconder que o PAC não tem deslanchado como dizem. Segundo os ministros, 86% das obras pautadas avançaram durante o ano passado. O executivo empenhou 97% dos R$16,6 bilhões previstos para 2007. Acontece, no entanto, que empenho não significa liberação de verba, tanto que dos R$16,6 bilhões, somente R$7,3 bilhões foram autorizados. Por sua vez, a oposição questiona e diz que só foram liberados R$4,5 bilhões.

Tudo isso quer dizer que o PAC ainda não passou de uma expectativa, longe de um canteiro de obras. Não disseram que o Planalto depende da votação do Orçamento pelo Congresso. Segundo dados, na Bahia o PAC não gastou nem 20% dos recursos previstos. O metrô de Salvador, que virou uma novela e só tem o toco, é um exemplo de lentidão. O Governo culpa a burocracia e a questões ambientais para explicar os atrasos. E por que se tolera isso e ainda se engana o povo?

Todo jornalista deve ser cético, ainda mais quando se fala de estatísticas no Brasil, ou quando se ouve palavras saídas dos governantes. Mas, não é só desse Governo que se tem o hábito de se emitir propagandas enganosas. Só para citar um exemplo, no tempo de Arthur Bernanrdes, entre 1923/27, o Governo propagou e incitou o povo a receber a Coluna Prestes na bala, dizendo se tratar de bandidos e marginais sanguinários que matavam velhos, crianças e estupravam mulheres. Aliás, toda propaganda é enganosa.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

UMA EMPRESA NO VERMELHO

Todo ano é a mesma coisa; as críticas partem de todos os lados, mas o carnaval de Salvador continua elitista e concentrador de rendas para os donos de hotéis, de trios, blocos e camarotes. O folião “pipoca” que se dane, espremido entre os grã-finos e vítima das botas e dos cassetetes dos polícias que descarregam suas frustrações no primeiro que encontra.

Mas, não é somente isso, há muitos anos que o carnaval é uma empresa que funciona no vermelho. Para a Prefeitura Municipal, a custo da folia está estimado em R$25 milhões. Já o Estado tem gastos de R$30 milhões para bancar a infra-estrutura com saúde, segurança e outros repasses de recursos. A Prefeitura corre atrás dos patrocinadores, mas a arrecadação não chega a 50% das despesas.

Pior ainda: quem mais paga impostos são os barraqueiros que ganham uns trocados, enquanto os donos que comandam a folia fazem seus malabarismos e sonegam. As estatísticas sobre a presença de turistas são mentirosas. No ano passado falaram em 800 mil visitantes, mas o governo atual constatou metade desse número em Salvador. Enquanto falam em empatar receita e despesas, a parte cara da festa fica com o Estado e a Prefeitura.

Para um Estado pobre como o nosso, com os piores índices sociais e de educação, é uma vergonha que seja assim. É certo que o povo também precisa de diversão, mas quando se vive com dignidade. Não existe dinheiro para projetos nas áreas da saúde da educação, mas quando se aproxima o carnaval, a verba aparece. A Secretaria da Cultura, por exemplo, já soltou cerca de R$3 milhões para os blocos afros, e ainda se fala em democratização dos recursos entre capital e interior.

Mais lamentável é que os benefícios financeiros são concentrados em segmentos mais elitizados do mercado de blocos, camarotes e hotelaria. Segundo estudos, os dados relativos ao ICMS e ao ISS mostram que o carnaval gera impacto direto modesto sobre a receita tributária. Para se ter uma idéia mais precisa, em 2007, a despesa pública com a festa foi de R$49 milhões, contra cerca de R$6 milhões de receita. E quando falo de despesa pública, estamos nos referindo em dinheiro do contribuinte, dinheiro nosso.

Segundo especialistas, o carnaval afro-elétrico-empresarial é regido por um mercado oligopolizado de uma meia dúzia de entidades, com excesso de cargas nos circuitos físicos da festa, e conseqüente desequilíbrio entre espaço público(pipocas) e espaço privado(blocos), sem contar as limitações à expressão de diversidades. Tudo isso significa que o contribuinte paga para a elite se esbaldar, com apresentações de baixo nível do axé music.

Querem mais aberrações? Então vamos lá. O Comando da Aeronáutica(Base Aérea de Salvador) abriu edital para o uso de uma área privilegiada no Circuito Dodô(Barra –Ondina), próximo ao Clube espanhol. A única obrigação é que o vencedor deve fornecer 150 cortesias nos camarotes, com direito a todos os serviços de mordomias(bebidas, comidas, etc). É, ou não é uma amoralidade e abuso administrativo?

Além de ser uma mesmice de artistas que continuam mamando nas tetas do Governo, ou do povo; que sempre são idolatrados pela mídia(muitos deles nem moram em Salvador), o carnaval quando passa, deixa os ricos mais ricos e os pobres mais pobres. É que muitos gastam tudo que têm e ainda fazem dívidas para não ficarem de fora da folia dos burgueses. Tem gente que deixa a casa sem alimentos em troca do aperto nos corredores apertados dos blocos e dos trios. A descaracterização da festa não importa nem um pouco aos exploradores que escravizam a mão-de-obra dos cordeiros e vendedores. E assim é o nosso sistema devorador de criaturas que são escravas de uma cultura falida e degradante.

Os artistas famosos quando vão para as TVs, rádios e jornais falam um bocado de baboseiras a respeito da festa, das suas futilidades culturais e da grandiosidade de Salvador, que deixam as pessoas orgulhosas e envaidecidas. Só que eles sempre estão enchendo seus bolsos de grana e nunca se ouviu falar de terem feito doações ou ajudado entidades beneficentes. Estão ricos, mas não colaboram com as entidades que cuidam da assistência social às minorias excluídas da sociedade. Só entram com a lábia e a teoria.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

O RETORNO DO DRAGÃO

Nas décadas de 70, 80 e até meados dos anos 90, bem próximos de nós, o dragão da inflação soltava rajadas de fogo, queimando e deixando em cinzas os salários dos trabalhadores. O pouco que a classe média poupava era consumida todo final de mês. Naquela época, não valia a pena aplicar dinheiro em negócios. Tinha um bezerro de ouro chamado overnight que rendia lucros todos os dias. O dinheiro do alvorecer do dia não era mais o mesmo do anoitecer. Os supermercados remarcavam os preços por minuto, e no Governo Sarney, no final dos anos 80, a inflação do mês chegou a mais de 70%.

Planos e mais planos, pacotes e mais pacotes econômicos foram implantados e nada conseguiu deter o dragão. Fernando Collor disse que ia matar o bicho com uma bala só. Tudo não passou de mais uma bravata. O lendário animal que aterrorizava a família brasileira só foi domado em 1994, com o Plano Real. Em 2001/02 ele mostrou suas garras e que ainda estava vivo, mas se conseguiu anestesiar o danado. No ano passado, despertou da anestesia e está tentando se levantar da toca para fazer seus estragos.

Em 2007, o IPCA que mede essa inflação brasileira chegou a 4,46%, marca que excede 1,32% do índice de 2006. Desde 2002 que o tal dragão foi esquecido e nem se falava mais nele. E sabe quem está reanimando o lançador de chamas? Os compenetrados economistas apontam vários fatores, mas o principal deles é o ambiente globalizado das grandes bolsas de negociações, como é caso da soja, do milho, carne e até do leite, estes últimos devido a escassez de produção na Austrália e Nova Zelândia. O boom do etanol dos Estados Unidos, fabricado do milho, é outro vilão.

Parece contraditório e o inverso do que diz a lei da oferta e da procura, mas as safras dos EUA, América Latina, China e Índia foram excelentes, alcançando 2,1 bilhões de toneladas, um recorde planetário. Acontece que houve forte acréscimo no consumo, especialmente na China e Índia. Como resultado do aumento dos preços, os países em desenvolvimento gastaram U$745 bilhões com importações de alimentos, piorando suas balanças comerciais. A tendência é que a demanda aumente em 2008, segundo organismo internacionais ligados à alimentação.

Além, é claro, da demanda externa, no mercado interno tivemos a alta do feijão puxada pela seca que castigou várias regiões do país, principalmente o Nordeste. A carne também subiu em razão da estiagem, mas este produto está atrelado às cotações internacionais. Quando o produto está com bom preço lá fora, o empresário prefere vender para o gringo. Afinal de contas, vivemos uma globalização de competição e não de cooperação. Vale quem der mais, e o pobre que se dane. Vale o livre mercado neoliberal.

Bem, deixa pra lá esse papo de grã-finos e vamos ao que mais nos interessa que é a nossa casa. Aqui, a inflação dos alimentos representou 60% do IPCA. No caso da carne, por exemplo, a alta em Salvador foi de 15,12% em dezembro. O feijão foi outro que deixou muita gente afastada dele. O precioso alimento do brasileiro subiu 68,55% na Região Metropolitana de Salvador, em 2007. No país, a média de reajuste foi de 32% no período. Esses números todos de alta nos preços sufocaram mais os pobres, com renda entre um a seis salários mínimos. Tanto quanto essa camada, ou mais ainda, os aposentados receberam a maior carga. O IPC dos aposentados em 2007 foi de 5,04%, contra 2,26% em 2006. Mais uma vez, o grupo alimentos foi o que mais pesou, sem contar os remédios e os planos de seguro de saúde.

E por falar em aposentados, o governo federal está mesmo tentando exterminá-los, como faz o dragão da inflação. Os salários para quem ganha acima de R$380,00, entre R$1.000,00 a R$2.000,00, estão se achatando e, em pouco tempo vão virar mínimo. Os reajustes são ridículos, e aí o dinheiro vai encolhendo até se igualar ao salário mínimo dado pelo governo todos os anos. Que política é essa defendida pelos ditos socialistas de esquerda? O negócio é enganar com o Bolsa Família assistencialista.

Por outro lado, está aí o estrago nos preços que o etanol do milho está fazendo nos EUA, mas Lula quer empurrar a monocultura da cana-de-açúcar em terras brasis para produzir etanol, provocando a escassez de alimentos e o conseqüente aumento em seus preços, sem falar no desmatamento das florestas.

Não me venham com o papo de que as áreas vão ser zoneadas e as florestas poupadas. Ora, o que estamos vendo é que o governo já não fiscaliza as derrubadas desastradas de nossas árvores, agora imagina quando começar a ganância em ganhar dinheiro com o etanol da cana-de-açúcar? Só em ouvir falar da mina de ouro que vai ser o etanol da cana, as empresas e os magnatas do capital já estão empurrando para bem longe os pequenos proprietários de terras que praticam a agricultura familiar. Vão prosperar os latifúndios.

Que socialistas esquerdistas de plantão visam satisfazer o capitalismo externo, em detrimento dos mais pobres? Nessa Fidel Castro, de Cuba, e Chaves, da Venezuela, estão certos. O interesse dos EUA em apoiar a política do etanol da cana de Lula é outro: sufocar os produtores de petróleo e comprar biocombustíveis bem mais barato dos países subdesenvolvidos e pobres. Conversa de que está preocupado com o meio ambiente. Os americanos sempre foram bonzinhos, para não dizer o contrário.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

JUSTIÇA IMPLACÁVEL

Não acredito nessa conversa de que todos nós somos iguais. Numa sociedade capitalista como a nossa, esse enunciado não passa de papo furado para nos deixar mais aliviados. Que nada, somos diferentes sim e com tratamentos desiguais perante as leis que são iguais, teoricamente, para todos. O que aproxima a igualdade um do outro é o ter, pelo menos nesse bruto sistema. Podemos ser iguais no conceito de ser da doutrina filosófica divina da igreja cristã. Nossa sociedade é dividida em castas e elas identificam as diferenças entre as pessoas. Sempre vão existir os escravocratas e os escravizados. Também não acredito nessa de que o homem tem livre arbítrio. Esse livre arbítrio tem seu limite dentro do sistema em que vivemos e que nos regula.
Tudo isso é tão somente para expressar minha indignação quanto as injustiças sociais praticadas no Brasil. A Justiça é só implacável para os pobres e os “ladrões de galinha”. As leis foram feitas pelas castas maiores dominantes, com a viabilidade de brechas para os poderosos. A todo momento vivenciamos exemplos onde os políticos safados, corruptos e os ladrões de colarinhos brancos não ficam na cadeia. Os mocinhos que mataram o índio Galdino estão soltos, e um deles teve até direito a fazer concurso público. Nenhum preso pelas operações da Polícia Federal está na cadeia. Os políticos dos mensalões nunca vão ser condenados. O trambique iro do Marcos Valério pagou e se livrou do processo. Se fosse citar mais nomes e casos, passaria o dia todo aqui escrevendo e, mesmo assim, não chegaria ao fim da lista.

No Rio do Janeiro, o juiz Joaquim Domingos de Almeida, do 9º Juizado Especial Criminal, proibiu quatro jornais e seis emissoras de televisão de fazer referências aos nomes de dois estudantes, que no dia 4 de novembro de 2007 agrediram um grupo de prostitutas num ponto de ônibus do Rio. É por essas e outras que Che Guevara disse que revolução só se faz com armas. Se fosse o contrário, isto é, as prostitutas que tivessem agredido os estudantes, estariam elas mofando na prisão, sendo espancadas, e seus nomes estampados na mídia. Para completar, a sociedade estaria ávida para fazer o linchamento físico em praça pública. A camada marginal, na maioria das vezes, nem tem advogado, e quando o Estado nomeia um, tudo fica emperrado porque não tem dinheiro e muita grana na jogada.

Mas, as leis foram feitas pelos senhores coronéis, com direito aos melhores advogados para fazer os atalhos e controlar a Justiça. Pobre quando é preso tem logo sua cara estampada na imprensa, sem contar as porradas que leva da polícia. No entanto, quando um Jaleco Branco, Sanguessuga, ou um Navalha é algemado, logo eles dizem que é truculência da polícia. É por essa e outras que digo que não somos iguais.

A Associação Nacional de Jornais(ANJ) condenou a decisão do juiz, considerando como ato de censura. As redes Globo, Bandeirantes, TVE, CNT, Record, Rede TV e os jornais Globo, Extra, Dia e Jornal do Brasil estão proibidos de veicular imagens dos agressores. Quando foram presos, o pai de um deles disse que não era justo fazer aquilo com uma “criança estudante”. Como brasileiro, sinto nojo e vergonha de tudo isso.

A Justiça deveria estar preocupada em proibir os programas televisivos de baixo nível, de violência física, moral e sexual; de agressões de todo tipo, que são exibidos em horários impróprios e invadem lares sem pedir licença às famílias. Vai continuar tudo torto, desigual e injusto enquanto a burguesia e a elite retrógrada deste país continuarem escarrando em nossas caras e descendo a calçada para não topar com os mendigos e as pessoas excluídas da sociedade. Somos todos culpados pelo o que está acontecendo.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS

Não há nada que dê mais repercussão internacional do que mandar os Estados Unidos e seu presidente para o inferno, e dizer que o Busch é o diabo. Mas, Lula não chega a esse ponto. Prefere chamá-lo de amigo e apoiar os rompantes de Hugo Chaves, da Venezuela. Nada de semelhança nisso. Lula teme as bravatas de Chaves e elogia ditaduras africanas. Melhor não ferroar o touro.


Chaves tem formação militar; é disciplinado e tem vocação para ditador, tentando desenterrar o socialismo-totalitário. Ele se aproxima de Cuba e vira amigo de Fidel Castro para irritar os EUA e ter mais notoriedade. Nunca foi esquerdista e eliminaria Che Guevara, se vivo fosse, caso representasse ameaça ao seu poder.


Lula, um metalúrgico, ex-sindicalista, que não gostava de sindicato, nem de política partidária, tornou-se presidente da República. Sua ideologia maior era a boemia dos botequins e bater uma pelada com os companheiros. Convidado pelo irmão, logo tomou gosto pelo sindicalismo e fez sucesso com suas parábolas. Descobriu o dom da negociação e da desenvoltura com as palavras. Nunca gostou de estudar, nem tampouco ler Marx ou Engls. Virou atração como conciliador falando a linguagem do povo, que se encantava e ainda se encanta com suas metáforas.

Os intelectuais acadêmicos, combatentes da ditadura, muitos deles socialistas de esquerda no discurso, mas carregando sempre o manto do capitalismo, viram em Lula a maior representação para propagar as reformas. Beberam da fonte de Maquiavel. Como Chaves, nunca foi esquerdista e comunista. Mas, selaram um cavalo, e deram o PT a Lula, para atrair multidões, com propósitos de esperanças, sem medo.

Diferente de Chaves, nunca teve vocação para ditador, mas ensinaram a ele que os meios justificam os fins para se manter o poder. Condenava o puro assistencialismo de esmolas, mas depois se agarrou a ele como plataforma de sua política. Diferente de Chaves, agrada a todos, do imperialismo americano dos Estados Unidos, ao ditador; do banqueiro ao mendigo. Ao falar, não é mala como o Chaves que recebeu um pito do rei para que ficasse calado.

Os discursos de Lula tocam as populações mais pobres que habitam o chão árido, sem discernimento sobre os fatos. Grande parte dessa gente nem sabe ler televisão, quanto mais um jornal ou livro, para interpretar as intenções e penetrar no ideológico das manipulações políticas. Como o Chaves, o Lula também tem desejo de se perpetuar no poder, mas com outros métodos. Sem Lula, os homens dos cargos não vêem outro representante á sua altura e temem perder seus postos.

Chaves foi mais decisivo nas mudanças, embora também não dispense o tempero do assistencialismo. Peitou mais a burguesia que o nosso Lula, que não chegou a ser um ciclone. Chaves tenta fazer sua revolução bolivariana na base da força, tomando o Congresso e o Judiciário através de referendos e plebiscitos. Seu socialismo-totalitário promete habitação e comida para todos; nacionalizar a propriedade privada; e repartir as terras na base coletivização soviética. Sua revolução atravessa fronteiras e finca domínios de suas idéias na Bolívia, Equador e Nicarágua. Se for para criticar o diabo dos EUA, não importa misturar Cuba com Irã, Rússia e Coréia do Norte na mesma panela. O homem faz pacto até com Kadaf, da Líbia.

Lula adota uma revolução light de agrado a todos, embora diga que o povo excluído seja sua razão de viver e de governar. Tem como Chaves, uma linguagem popular cheia de metáforas, embora aqui as reformas de base e profundas propagadas pelo seu partido, tenham ficado no caminho da perdição das mutreitas. Sua política reza na mesma cartilha do outro FHC, com alguns avanços, como a criação de secretarias e ministérios com nomes pomposos que impressionam os mais teóricos socialistas tupiniquins.

No fundo, é uma cartilha neoliberal a lá brazuca. A reforma agrária empacou e nada de mudanças radicais pregadas antes pelos intelectuais do PT. Os direitos dos cidadãos continuam desiguais, como na saúde e na educação. Nada de reformas profundas, e as castas dos banqueiros, dos intocáveis políticos, do Judiciário, dos chefes executivos e dos magnatas empresários continuam chicoteando seus escravos que trabalham para eles. A classe média se empanturra e se enterra no consumismo. Fica contente em financiar um carro e um pequeno apartamento para pagar em 10 e 20 anos. A periferia vai construindo aos poucos seus barracos em locais irregulares e olhando os artigos de luxo nas vitrines. Anda de ônibus quando tem dinheiro. A periferia da periferia nada tem e vive em barracos feitos de lata e papelão com propagandas capitalistas. Os trabalhadores rurais, como os urbanos, vivem como escravos e ensinam a eles que competição é se subordinar ao patrão, e dar duro além do limite para ganhar o pão.
O esquerdista elogia o socialismo cubano, arrota bordões e chavões decadentes, mas vive em suas mansões tomando uísque importado. Do sertanejo lutador da terra árida e seca que ao amanhecer coloca sua enxada ao, ombro, facão na cintura e uma cabaça de água ao lado com seu chapéu surrado de couro, ao da periferia que cata lixo para vender ou faz algum biscate, as perspectivas e as esperanças de uma vida melhor ficaram nas pálidas reformas sociais.

O capitalismo aniquilou o ser humano que entrou em degradação; o comunismo-socialista não vingou. Os expoentes da Internacional Socialista hoje debatem e quebram a cabeça para encontrar uma fórmula revolucionária para salvar a humanidade, não mais na base da luta de classe. Não existe mais o condomínio internacional entre EUA e a Rússia, dividindo os países sob suas influências. O Estado passou a existir apenas no discurso teórico. A estrutura do próprio partido gerou oligarquias clientelistas independentes. As máfias dentro do poder assombram a sociedade. As estruturas das nações socialistas ficaram podres e foram sendo seduzidas pelos padrões de consumo capitalistas, pelos valores degradantes. No Brasil de FHC e de Lula, o Estado continua sendo negligente com seus cidadãos e com os direitos civis.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

ESCANDALOSO RACISMO

Não dá para engolir essa de racismo praticado pela secretária de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos, Marília Muricy, contra o ex-superintendente do Procon, Sérgio São Bernardo. Dá para acreditar em perseguição, autoritarismo, ou picuinhas políticas dentro do Governo Jaques Wagner, que está sendo minado por intrigas internas nos comandos. No ano passado, as brigas balançaram a Secretaria de Cultura, entre Márcio Meirelles e os que se acham expoentes intelectuais da Bahia, donos da verdade que querem continuar sendo privilegiados e admirados como sábios.

Bem, não sou nenhum defensor e advogado da secretária Marília Muricy, mesmo porque não a conheço. Mas, pela sua luta em prol dos direitos humanos nos últimos anos, é difícil acreditar que tenha agido com racismo contra o ex-superintendente, exonerado por ela. De uma questão pessoal e política, que não significa opção de cor, Sérgio São Bernardo escancarou e apelou para a versão mais pesada, escandalosa e condenatória que é a prática de racismo, justamente por parte de uma secretária de Direitos Humanos. Sinceramente, não entro nessa. A questão está mais para disputa interna.

As denúncias de racismo na Bahia têm sido tão banalizadas que não acredito mais nelas, a não ser com provas incontestáveis. Estão criando a “indústria do racismo”. Se um movimento ou entidade negra é denunciado por irregularidades em suas administrações, aí lá vem a acusação de crime de racismo. Estão ocorrendo exageros, e é preciso ter muito cuidado com essas acusações sem fundamento. Venho sentindo um tipo de ódio declarado e até prática de racismo da parte de determinados movimentos. Por a pessoa ser contra as cotas para negros nas universidades, não quer dizer que essa pessoa seja racista. Ora, não se pode mais pensar, nem dizer a sua opinião? Está se trilhando por um caminho muito perigoso.

O que dá para perceber nessa briga é que o Sérgio Bernardo quis jogar as entidades e os movimentos negros contra a secretária de Direitos Humanos. O que me espanta mais ainda é que somente agora o Movimento Negro Unificado, o Ceafro e outras entidades vieram a público dizer que a secretária tem sido negligente na sua pasta em defesa dos direitos humanos, apontando o caso dos seqüestros de moradores de Maracangalha, em virtude do sumiço do dinheiro(R$5,6 milhões) que se perdeu na queda de um avião naquele povoado. Por que somente agora estão sendo apontados esses descasos da secretária?

O depoimento do diretor do MNU, Hamilton Borges, de que a entidade acompanhou em silêncio o descaso da Secretaria de Justiça, mas que agora está cansada de tudo isso, é uma confissão de negligência, e que a reação nesse caso do ex-superintendente é meramente política. É obrigação da entidade denunciar a Secretaria quando ocorre um fato dessa natureza, e não somente agora. É muito estranho o que vem acontecendo dentro do atual Governo do PT. Está mais parecendo conspiração interna. Tudo isso me faz lembrar o Governo de Waldir Pires.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

OS ABUTRES DA OPERAÇÃO CONDOR

Condor é a maior ave de rapina que habita a Cordilheira dos Andes, conhecida como abutre-do-novo-mundo. Daí veio a denominação Operação Condor, esquematizada pelas ditaduras do Chile, do Paraguai, do Uruguai, Argentina e Brasil durante as décadas de 70 e 80. Eram abutres à caça daqueles que contestavam contra os regimes militares. Eles batiam, espancavam, torturavam e matavam de forma sanguinária qualquer estrangeiro que fosse considerado terrorista-comunista. No Chile, Argentina e Uruguai, muitos deles estão sendo punidos pelo que fizeram, mas no Brasil foram cobertos pelo manto da Anistia e da impunidade, como sempre acontece.

Agora um juiz italiano resolveu emitir mandados de prisão para 140 latino-americanos acusados de envolvimento nas mortes de cidadãos do seu país, sendo 13 brasileiros, entre eles o ex-presidente e general João Figueiredo que já morreu. Alguns ainda estão vivos, mas as autoridades brasileiras já disseram que eles estão protegidos pela Anistia, pela Constituição, e que os crimes já prescreveram. Os crimes de tortura e morte podem prescrever no Brasil, mas nunca para as famílias das vítimas que sofreram atrocidades.

Além dos estrangeiros tidos como subversivos no Brasil, a Operação Condor também funcionou como limpeza da área quando se ensaiava a abertura política rumo à democracia nos finais dos anos 70. Nesse esquema brutal teriam sido jurados de mortes, segundo denúncias de investigadores, os ex-presidentes Juscelino Kubitschek, João Goulart e o ex-governador Carlos Lacerda. Do Chile foram eliminados Orlando Letelier e Carlos Prats. No Uruguai foram mortos em atentados, o ex-senador Zelmar Michelini e o ex-presidente da Câmara, Heitor Gutierrez.

Por duas décadas, órgãos do país atuaram em colaboração com os serviços secretos estrangeiros e se envolveram diretamente na repressão política em toda América Latina, inclusive com ajuda dos Estados Unidos, que derrubaram presidentes como do Chlile, Salvador Allende, em 1973. Através dessa Operação, mais de duas dezenas de cidadãos do Brasil foram presos, torturados e assassinados na Argentina, Chile, Uruguai e Paraguai.

Na Argentina e no Chile, mortos foram reconhecidos, mas no Brasil se desconhece qualquer iniciativa dos governantes, nos últimos 22 anos, com o propósito de promover investigações sobre os desaparecimentos de brasileiros durante a ditadura em países vizinhos. A Corte Suprema da Argentina, por exemplo, solicitou ao Supremo Tribunal Federal do Brasil, informações sobre argentinos presos no Brasil. O presidente Carlos Menem, em 1996, pediu a intervenção do presidente Fernando Henrique para ajudar as famílias com desaparecidos em território brasileiro.

Por iniciativa do Brasil, com acompanhamento dos EUA, foram seqüestrados no Aeroporto do Galeão(Rio de Janeiro), os montoneros Horácio Campiglia e Mônica Binstock. O general João Figueiredo, na época chefe do SNI, foi o personagem mais ativo em cooperação com o Chile e outros países na repressão política. Figueiredo chegou a entregar ao embaixador do Paraguai, uma lista com 13 nomes de paraguaios, muitos deles no Mato Grosso, que tinham ligações com os comunistas brasileiros, dando todos os detalhes.

Após o golpe militar no Chile, em 1973, agentes brasileiros foram enviados àquele país para ajudar na operação de interregatórios, e torturar prisioneiros no Estádio Nacional de Santiago.. O regime militar brasileiro aprimorou métodos de tortura apoiando-se na cooperação estrangeira, especialmente EUA e Inglaterra. Logo depois, a colaboração entre Brasil e Chile tornou-se mais próxima mediante esforços do general Figueiredo e o comandante Manuel Contreras. A colaboração incluiu participação em tentativas de golpe no Peru e até em Portugal.

Os participantes e colaboradores da Operação Condor, no Brasil, negam, como era de se esperar, os crimes praticados. Um deles é o coronel João Osvaldo Leivas, ex-secretário de Segurança do Rio Grande do Sul. O coronel Carlos Alberto Ponzi, também do RGS, disse que não está nem um pouco preocupado, e não deve estar mesmo porque sabe que tudo isso não vai dar em nada, como aconteceu com a queima dos documentos sigilosos na Base Aérea de Salvador.

Dos 13 brasileiros citados pelo juiz italiano, pelos menos estão mortos o general Figueiredo, o ex-ministro Walter Pires e os generais Otávio Aguiar Medeiros e Antônio Bandeira. Quem resgatou toda história “Condor” foi o cineasta Roberto Mader. Segundo ele, não adianta jogar tudo isso embaixo do tapete. O general da reserva, Agnaldo Del Nero afirmou que eles não matavam, e que só faziam prender e entregar os ditos subversivos aos países estrangeiros. Foi o que aconteceu com os ítalo-argentinos, Horácio Domingos Campiglia e Lorenzo Ismael Vinas - disse. “Como a gente não matava, entregava”.

Acredite se quiser. O que se sabe é que muitos foram mortos e outros desapareceram. Mesmo com a Anistia, os familiares podem pedir a investigação dos casos à Justiça italiana. Existem vários ítalo-brasileiros, como Carlos Marighella, em 1969, e o guerrilheiro do Araguaia, Líbero Castiglia(72/74) que foram mortos. Os torturadores nem estão aí e ainda dizem que apenas prendiam e entregavam os presos.

O escritor Heitor Cony, em seu livro o Beijo da Morte e em crônica no jornal A Tarde, lembra a Operação Condor no final dos anos 70 como limpeza da área nos países do Cone Sul. Situa o nascimento da Operação em agosto de 1975, visando o expurgo de elementos que ameaçavam a paz dos regimes totalitários da América do Sul. Foi em agosto, segundo Cony que o coronel da DINA(Serviço de Inteligência do Chile), ou polícia-política, Manuel Contreras enviou correspondência ao general Figueiredo sugerindo a criação da Operação entre os países.

Naquela época, os governos temiam mudanças dos regimes porque o Partido Democrata dos EUA tinha tudo para ganhar as eleições presidenciais. Os Democratas apoiavam Kubitschek, no Brasil, e Letelier, no Chile. Diz Cony, que a Operação não foi mencionada entre as hipóteses que cercaram as mortes de JK, Letelier, João Goulart(1976) e Carlos Lacerda(1977). Juscelino morreu de acidente numa estrada de São Paulo, em agosto de 1976, um dos citados por Manuel Contreras em ofício enviado a ao general Figueiredo. Um mês depois, num atentado a bomba, morria, em Washington, Orlando Letelier, do Chile. O atentado foi apurado nos EUA e incriminou o coronel Contreras. Depois vieram as mortes seguidas de João Goulart e Carlos Lacerda. Eles temiam que esses homens voltassem ao poder, e a idéia era justamente limpar a área no sentido vertical, bem como horizontalmente, caçando aqueles que tinham menor expressão, mas mesmo assim eram perigosos ao regime.

É uma pena que os jovens de hoje pouco sabem sobre o que aconteceu naqueles anos de Chumbo, de terror e matanças cujos protagonistas ficaram impunes no Brasil. Teve gente que chegou a pedir indenização como o traidor cabo Anselmo. Depois da abertura democrática, muitos deles serviram e ainda servem no Governo, principalmente no de Sarney, a partir de 1985.

Considero o ponto de abertura a partir de 1990 quando foi eleito Fernando Collor através do voto direto. Até hoje esses militares resmungam e rosnam fazendo ameaças quando algo causa-lhes incômodo ou desagrado, como ocorreu no lançamento do livro sobre as memórias da ditadura. Acham que não se deve mais bulir nisso, apagar a história. Não se apaga uma história de atrocidades desse tipo. Ao contrário, essa história deve ser revivida todos os dias, especialmente nas escolas, com todos os detalhes.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

O BBB DOS POBRES

Uma casa de alto luxo, esbanjando bacanais e festas paradisíacas com temas internacionais, e uma turma de 14 jovens exibindo a cultura do belo, da aparência e do consumismo, mas com poucos neurônios na cabeça, são mantidas pelos pobres de baixo poder aquisitivo. O prêmio é milionário e o apresentador também. Toda vez que você liga, cai uma moedinha no cofre da casa do seu dono que a programou e a realizou.

Assim é o oitavo BBB - Big Brother Brasil da Rede Globo. Uma imitação do capitalismo americano decadente que teve sucesso no Brasil onde 45 milhões têm que receber o Bolsa Família para não viverem em miséria. A regra fundamental nesse programa é a pessoa do lado de fora, enforcado de dívidas, impostos e prestações, telefonar para decidir quem fica e quem sai da casa.
Sem essa audiência faminta por circo e espetáculo, não tem programa. Os apelos são bem montados com armadilhas, para que a moedinha caia na ratoeira. As pessoas ficam empolgadas com o apresentador, com os clips, com as espiadinhas, pernas, peitos e os bunbuns das moças do lado de fora; com os músculos dos rapazes que só falam besteiras o tempo todo; e enchem a caixinha da emissora, de centavos em centavos.
Ah! a torcida ferve, discute, debate, se descabela e até briga para ver quem no final ganha o prêmio milionário. As transas nos cobertores, ou nos andredons; nas piscinas, ou até debaixo das camas são as maiores atrações e fazem aumentar os telefonemas. Os BBBs são treinados para dizer muitas boubagens, serem ardilosos, e se tiver brigas, melhor ainda.
O domador do circo faz suas artes e malabarismos para divertir a platéia e render muita grana. Senhores! façam suas apostas! Façam suas apostas! Os avisos se sucedem até que é chegada a hora. Na contagem final: milhões de telefonemas, milhões de reais. Todos os dias os pobres têm o direito de dar sua espiadinha, mas quem tem mais dinheiro pode ver coisas explícitas, isto se fizer uma assinatura paga. Tem o BBB aberto e o fechado, mas o que rende mais é o aberto do pobre.
Como o BBB, a maioria dos programas das emissoras de televisão no país são de baixo nível. Cada rede disputa sua audiência, apresentando o sensacionalismo e o espetáculo de exploração dos sentimentos alheios. Todas as concessões foram renovadas automaticamente no final do ano passado, sem discussão pelo Congresso e pela sociedade. Pela Constituição, as emissoras são concessões públicas que devem oferecer cultura, informação e jornalismo de qualidade e conteúdo.
No entanto, as empresas fazem seus jogos de interesse, manipulam a opinião pública ao seu modo e ditam as normas do que entra e sai como notícia. Elas,(as redes) fazem seus próprios regulamentos e basta se falar que tal programa é impróprio para menores de idade, para levantarem pesados ataques de que o Governo está ressuscitando a censura. Os programas mais baixos, a violência e a exploração sexual desmedida entram nos lares sem pedir licença. Se alguém reclamar ou criticar, é encarado como conservador e retrógrado.
A ética jornalística foi banalizada e tem apresentador de programa praticando extorsão contra empresários, como foi denunciado em Salvador. Sobre o assunto, ninguém falou mais nada, e as entidades representativas da classe que têm o papel de proteger a sociedade desses elementos, se calaram. Estamos expostos e vivendo um vale tudo nas redes de televisão.

domingo, 6 de janeiro de 2008

CULTURA DE INTENÇÕES

É o que venho sempre dizendo: Não dá para acreditar na tal democratização dos recursos da Secretaria de Cultura do Estado, anunciada pelo seu secretário Márcio Meirelles. A décima Edição do Encontro Regional de Ternos de Reis de Jequié foi realizada com muitas dificuldades por falta de verbas. Nas conferências regionais realizadas no ano passado se colocou a cultura popular como prioridade. Na verdade, isso só vale para a Capital. Em Jequié, os organizadores e o público tiveram que se contentar com um espetáculo discreto, e olha que o apoio ao Fundo de Cultura foi feito com antecedência.

Também, o projeto de manutenção do Grupo de Reis das Pastorinhas de Jequié, conforme noticiou a Coluna Tempo Presente do jornal A Tarde, foi aprovado há dois meses pela Fundação Cultural, mas não recebeu nenhum centavo. No entanto, a União dos Ternos e Ranchos de Reis, do bairro da Lapinha, recebeu R$30 mil da Fundação. Nada contra os blocos afros do Carnaval, para os quais a Secretaria de Cultura destinou mais de R$2 milhões.

O Festival de Lençóis foi realizado com muitas dificuldades, depois de várias mudanças de datas, justamente devido a falta de apoio do Governo do Estado. Por essas e outras é que tenho minhas dúvidas quanto a promessa de que os recursos para cultura seriam divididos meio a meio entre Salvador e interior.

Você abre os jornais da Capital, liga as emissoras de rádio e televisão e acompanha um monte de eventos, shows, exposições e apresentações de artistas patrocinados pelo Estado. No interior, acontece algum evento cultural esporádico por ano, como a Mostra de Cinema de Vitória da Conquista que contou com mais recursos da iniciativa privada. Do setor público, apenas o nome e o apoio logístico.

Convocam reuniões e conferências para se discutir a cultura, e as pessoas interessadas vão lá dar suas contribuições. Ouve-se discursos políticos rebuscados de citações intelectuais e depois nada acontece. Os participantes dão suas sugestões e fazem suas reivindicações para melhorar a cultura, mas praticamente nada é concretizado.

Estamos cansados de apanhar, de sermos iludidos e enganados. O tempo passa, o povo esquece, e fazem outras reuniões com os mesmos propósitos e intenções. O pior de tudo é que cada um toma seu rumo e não se cobra nada. A democratização dos recursos é para inglês ver. Temos que cobrar essa dívida que nos pertence.

O interior sempre ficou calado, enquanto a turma de Salvador grita nos espaços cedidos pela mídia. Assim aconteceu quando o Teatro XVIII foi fechado e a Casa Jorge Amado e o Museu Costa Pinto ficaram sem dinheiro para os serviços de manutenção. Os grupos carnavalescos e de artistas que sempre se ajoelharam aos pés de ACM continuam recebendo polpudas verbas do Governo.