

Os deuses do Olimpo da Grécia antiga dos filósofos Sócrates e Platão certamente lançariam sua ira contra os homens que abandonassem a arte ao peso do próprio tempo, debaixo de sol e chuva. Principalmente se foi um artista que procurou um ponto do Olimpo para se refugiar e dedicar sua vida a fazer esculturas em homenagem a personalidades históricas.
Pois é, do alto da Serra do Periperi, em Vitória da Conquista, distante 500 quilômetros de Salvador, entre as marcas dos escombros e depredação deixadas pelas agressões dos homens ao longo dos anos contra a natureza, um conjunto de esculturas de 150 a 200 peças do artista Aurino Cajáiba da Silva, o “Cajaiba”, denominadas de “Vultos Históricos”, está no mato e se deteriorando com o tempo. Ninguém vê, ninguém liga. Nem o poder público, nem as empresas privadas e outras instituições se sensibilizem para recuperar e salvar as obras, criando um museu como era o maior sonho do mestre falecido em 1997. Quem conheceu de perto o artista e visitava suas esculturas no alto da Serra, ao lado da torre da Telemar, às margens da BR-116(Rio-Bahia), fica sem acreditar no que está acontecendo na terra de Glauber Rocha e Elomar. Simplesmente, todo um trabalho artístico de 40 anos está se perdendo por falta de um local com estrutura para proteger as esculturas.
Já dura dez anos a luta da viúva Getrudes Francelina Oliveira, de 73 anos, e de seus oito filhos(o Antônio fazia esculturas, mas desistiu da arte) para que a obra de “Cajáiba” não se acabe e seja implantado um museu aberto á visitação pública dos moradores e turistas. O filho que está à frente desta empreitada, Edivaldo Cajaíba, se mostra cansado e desiludido na busca de apoio, mas disposto a sacrificar suas poucas economias para, pelo menos, restaurar a obra e montar uma pequena estrutura no alto da Serra onde mora com sua família. Lembra que por volta de 1998, logo após a morte de seu pai, procurou o prefeito municipal, hoje deputado federal Guilherme Menezes, solicitando ajuda para proteger as peças. “O prefeito recomendou que eu entrasse em contato como o Ministério da Cultura” – declarou Edivaldo.
“Morreu revoltado e a míngua”
Durante quase 40 anos, o velho e incansável “Cajáiba”, também músico, poeta e fotógrafo, retratou diversas personalidades históricas nacionais e internacionais com suas esculturas de cimento, ferro e areia, em forma de bustos e estátuas de tamanhos naturais. Além do seu auto-retrato, esculpiu com perfeição os bustos de Juscelino Kubischek, os ex-presidente Médici, Castelo Branco, Tancredo Neves e Getúlio Vargas, o cantor Roberto Carlos, Maria Quitéria, Joana D’Arc, cenas do Cristo curando um doente, presidente John Kenned, escritores renomados, a evolução do homem desde o pré-histórico, a camponesa e o camponês, o vaqueiro, o caminhoneiro, um Cristo de tamanho natural de braços abertos, estátua de uma mulher nua em estilo greco-romano(braço está cortado), Castro Alves, Rui Barbosa, dentre muitos outros vultos da nossa história. Em frente do Tiro de Guerra, “Cajaíba” ergueu um monumento em homenagem aos combatentes brasileiros da Segunda Guerra Mundial.
A maior parte das suas obras foi realizada com muito sacrifício durante a noite e, às vezes varava a madrugada com a luz de um fifo que sua esposa, dona Getrudes Francelina segurava. “Eu ficava cansada vendo ele fazer as esculturas e só parávamos quando o pavio, ou o gás do fifó acabava – conta dona Getrudes, lembrando ainda que “Cajaíba” acreditava que se fizesse as esculturas de Castro Alves e Rui Barbosa, construiria seu museu de que tanto falava em vida. Mas, nada disso adiantou. Não vendo seu maior sonho ser concretizado, sua esposa afirmou que o mestre morreu revoltado pela falta de apoio dos poderes públicos e da comunidade conquistense. Seu filho, Edivaldo Cajaíba reforça as palavras da mãe, dizendo que seu pai morreu à mingua. De fato, o artista que costumava passear todos os dias(vestia branco nas sextas-feiras) pelas principais ruas de Conquista com a sua tradicional boina, expressava sua dor com os amigos por ver sua obra sendo perdida por falta de reconhecimento. Num certo dia do ano 1997, Cajaíba se sentiu mal em frente da Farmácia 24 Horas, vindo logo após a falecer aos 80 anos. Morreu pobre, recebendo um pequeno salário da Prefeitura Municipal.
Mas, “Cajaíba” já teve seus momentos de glória na Bahia, no Brasil e no exterior através de sua arte. Viveu bons momentos, inclusive quando foi convidado a dar entrevistas no programa da apresentadora Hebe Camargo. Chegou a ser convidado para trabalhar e expor suas esculturas em São Paulo e Brasília. No exterior, a crítica francesa o considerou fenômeno mundial. Preferiu ficar em Conquista e, a partir dos anos 60, se refugiou no topo da Serra do Periperi, nas proximidades do Cruzeiro onde instalou seu atelier a céu aberto. Do alto, tinha uma vista privilegiada de Conquista e era muito visitado por turistas, artistas e intelectuais. Uma vez, Cajaíba pediu para fazer um Cristo Vivo na Serra onde hoje tem a escultura de Mário Cravo, mas os poderes públicos não atenderem seu desejo. Lá no alto, além das esculturas, está sua casa de cimento onde passou o resto de sua vida e que ainda guarda seus objetos pessoais, como dois relógios de despertar, máquina de costura, um painel de um violão na parede, plaina, o fifó que lhe ajudou a fazer suas esculturas, sua cama, uma máquina fotográfica antiga(Cajaíba também era fotógrafo), entre outros utensílios.
“Cajaíba” nasceu em 19 de novembro de 1917 no município de Itaquara, distante pouco mais de 300 quilômetros de Salvador e próximo a Jaguaquara. Quando menino, passava o tempo fazendo pequenas esculturas e tinha vocação para a arte, mas seus pais não gostavam do seu trabalho e tentaram dissuadi-lo do ofício. Se mudou para Vitória da Conquista em 1950 depois de passar por municípios do sul da Bahia.