segunda-feira, 24 de maio de 2010

AUDIÊNCIA DAS ÁGUAS CANCELADA



O Conselho Estadual de Recursos Hídricos-Conerh ainda não definiu a nova data e local da próxima Audiência Pública que estava prevista para ser realizada em Lagoa Real no último dia 22 (sábado) e foi cancelada a pedido da Associação Movimento Paulo Jackson e acatado pelo Ministério Público Federal. A Audiência visava discutir a qualidade das águas no município e região.

Possivelmente, uma nova data será divulgada nesta quinta-feira (dia 27) durante a 16a Reunião Ordinária do Conselho, na sede do Ingá- Instituto de Gestão das Águas e Clima da Bahia, em Salvador, conforme informou o diretor do órgão e secretário do Conselho, Vanderley Matos.


Surpresa e frustração


O cancelamento da Audiência pegou muita gente de surpresa que foi a Lagoa Real no dia marcado, às 9h30min, no Centro de Treinamento, inclusive a imprensa e representantes das prefeituras e de povoados de Lagoa Real, Caetité e Nossa Senhora do Livramento.

A Audiência Pública que iria debater e esclarecer a qualidade da água nesses municípios deixou o vice-prefeito de Lagoa Real, Francisco José Cardoso de Freitas frustrado porque, segundo ele, o evento era de grande importância para solucionar o problema de abastecimento de água nos povoados de Lagoa Grande e Goiabeira.

Representante da prefeitura na Audiência Pública, o vice-prefeito vem acompanhando a situação há muito tempo e fez questão de deixar claro que a interdição dos poços de Lagoa Grande e Goiabeira pelo Ingá não tem nada a ver com a Unidade de Urânio das Indústrias Nucleares do Brasil-INB, “mesmo porque as distâncias entre os poços e a fábrica variam entre 10 e 40 quilômetros”.

Os técnicos da INB, por sua vez, garantem que a unidade industrial de Caetité segue rigorosamente todos os procedimentos utilizados nas etapas da mineração, não oferecendo risco à saúde e ao meio ambiente. Todo trabalho é feito dentro das normas de segurança estabelecidas pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), pelo Ibama e pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) que já deram pareceres favoráveis, inclusive a respeito da qualidade da água na área.

Enquanto isso, 700 pessoas, inclusive 500 alunos de Lagoa Real, estão dependendo da água de carros-pipa colocados pela prefeitura três vezes por semana. O vice-prefeito disse que a interdição dos poços em razão de possível contaminação por urânio foi feita em dezembro passado e que, de lá para cá, a comunidade espera ansiosa pelos resultados da contraprova realizada pelo Ingá. “A contraprova pode corrigir possíveis erros de análises da água”

Francisco Cardoso destacou que o teor de urânio encontrado foi baixo e tolerável pela Organização Mundial de Saúde, acrescentando que a Audiência seria fundamental para tirar as dúvidas da população que não suporta mais a situação de falta de água.


“Nada tem a ver com a INB”


O diretor Geral do Ingá e secretário-executivo do Conselho Estadual de Recursos Hídricos-Conerh, Vanderley Matos, esclareceu que o Movimento Paulo Jackson acionou o Ministério Público Federal (MPF), pedindo o cancelamento da Audiência Pública de Lagoa Real, sob o argumento de que o evento teria que ser feito no município de Caetité onde estão as instalações da INB e que não podia ser realizada num sábado como estava prevista (dia 22 de maio). Apesar de não ver sentido nisso porque a questão da água envolve os três municípios, Vanderley afirmou que a Câmara Técnica acatou o parecer do MPF. Disse também que a Audiência nada tinha a ver com a Unidade de Urânio da INB.

No parecer, a procuradora da República Carolina Rocha Queiroz acatou o pedido do Movimento Jackson visando uma maior participação da população e representantes da sociedade civil.

O secretário do Conselho entende, no entanto, que a Audiência deve ser realizada em qualquer um dos municípios envolvidos. A Audiência marcada para um sábado, em Lagoa Real, segundo ele, teve justamente a intenção de coincidir com um dia de feira quando a população da zona rural vai á cidade.

Vanderley Matos frisou que desta vez a Câmara Técnica do Conselho vai solicitar que o MPF se pronuncie sobre a nova data e o local da Audiência a fim de que não haja contestações. Ele enfatizou, mais uma vez, que o tema não é INB, mas qualidade das águas.

O Conselho de Recursos Hídricos que convoca a Audiência Pública é composto de diversos órgãos do Estado, prefeituras, representantes das entidades civis e sindicatos. Para as audiências são convocados o Conselho Nacional de Energia Nuclear, Indústrias Nucleares do Brasil, órgãos governamentais e a comunidade em geral.

Na ocasião, informou que até o final deste mês, o Governo do Estado, através do Ingá, estará instalando um equipamento de dessalinização no poço do distrito de Maniaçu, em Caetité, para garantir que o consumo de água não cause riscos à saúde da população.

Desde 2008, o Ingá, órgão da Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos, realiza coletas e análises laboratoriais de amostras de águas e subterrâneas em todos os 15 pontos utilizados para abastecimento humano nos três municípios com enfoque no elemento químico urânio.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

EXCLUSÃO NA UESB


Sempre tenho dito que no Brasil o povo paga o máximo, mas recebe o mínimo. É só avaliar a questão dos impostos cobrados, um dos maiores do mundo, mas o dinheiro escorre pelo ralo, nos desperdícios e desaparece na corrupção. Os setores da educação e da saúde, principalmente, padecem de investimentos, sem contar que na maioria dos órgãos públicos, o povo é excluído das decisões.

Aqui bem próximo de nós temos o caso da Universidade Estadual do Sudoeste-Uesb onde as eleições para reitor que serão realizadas no dia 20 (nesta quinta-feira) não contam com a participação da comunidade, embora reze seu estatuto que segmentos representativos da sociedade sejam convocados para votar e participar do pleito.

No entanto, tudo é manobrado para que o povo não participe e fique de fora, inclusive os meios de comunicação de Vitória da Conquista e região que, conforme regulamento da campanha eleitoral, não podem ser utilizados pelos candidatos para apresentar seus programas e suas propostas de trabalho.

De acordo com as regras emanadas do Conselho Universitário, (Consu), Artigo 14, da Comissão Eleitoral, a divulgação só pode ser feita internamente nos campi de Conquista, Jequié e Itapetinga, o que significa que o povo que paga a Uesb fica excluído das decisões e pouca gente sabe quem são os candidatos. Não se ouve falar nas ruas sobre as eleições de reitor.

Mesmo internamente existem restrições que atropelam o exercício da democracia, criada pela civilização grega para oferecer transparência na forma de escolha dos representantes do povo. Ainda o Artigo 14 veda a utilização dos meios de comunicação para veiculação de matéria paga; promover pichações que causem danos à instituição; utilizar materiais de consumo da universidade; afixar faixas, cartazes, outdoors, adesivos nos carros e camisetas. Até aí, tudo bem. São critérios que são compreensíveis.

A norma diz, porém, que só é permitido usar botons, adesivos, boletins, informativos, internet e outras propagandas similares somente nas dependências da Uesb. É liberada a divulgação de entrevista de caráter jornalístico, através de órgão de comunicação de massa, com espaços iguais aos candidatos, desde que tenha autorização da Comissão Eleitoral.

Sobre a autonomia e ação da instituição, o estatuto diz que a natureza pública dos serviços prestados pela universidade deve exigir acompanhamento e avaliação do Estado e da sociedade, sem representar ingerência administrativa com controle político-partidário. Porém, nos últimos anos, a Uesb vem sofrendo por ser utilizada como trampolim para interesses carreiristas.

Outra questão muito delicada e que merece crítica é quanto ao voto universal. Fala-se tanto de igualdade e de direitos para todos, mas na prática é outra coisa. Na eleição para reitor, o voto não é universal. O voto do professor pesa mais na contagem do que o do estudante e o do funcionário. E isso ainda ocorre no Brasil dentro de uma comunidade acadêmica que fala e prega tanto conhecimento teórico, mas peca na prática. São ações totalmente contraditórias com a verdadeira democracia.

Mais uma vez, o que aconteceu neste pleito foi a ausência total de representantes da comunidade regional nas reuniões do Conselho. Essas questões prejudicam a credibilidade, a transparência e a imparcialidade do processo.

O que está ocorrendo, mais uma vez, é a transgressão e o desrespeito à representatividade popular O Consu descumpriu, arbitrariamente, a norma estatutária e o regimento da Uesb.
Não estou falando apenas como jornalista, mas, sobretudo, como cidadão que gostaria de ter representantes votando e discutindo sobre decisões da universidade que é paga por todos nós baianos e brasileiros. Lamentavelmente, a nossa universidade continua ainda muito distante da comunidade.

Só nos resta esperar que seja eleito e indicado pelo governador do Estado o nome mais sério e competente que faça as mudanças e as reformas necessárias na direção da abertura da universidade para que a comunidade também participe das decisões como esta agora da eleição para reitor.

Só nos resta esperar que na próxima eleição o voto seja universal e a sociedade tenha representantes votando nos candidatos. Que os meios de comunicação sejam livres para divulgar os programas e as propostas dos postulantes ao cargo de reitor.




terça-feira, 18 de maio de 2010

MOÇÃO DE APOIO



A ASSOCIAÇÃO BAHIANA DE IMPRENSA (ABI), por sua diretoria geral em Salvador, e através do jornalista Jeremias Macário, seu diretor seccional, diante de acontecimentos que se estão registrando em relação à violência no Município de Vitória da Conquista, vem declarar publicamente seu apoio ao Ministério Público do Estado da Bahia, especialmente à promotora GENÍSIA OLIVEIRA, assim como ao Dr. RENO VIANA SOARES, juiz de direito titular da Vara do Júri daquela Comarca, os quais, pelo estrito cumprimento do dever legal, passam o risco de sofrer ameaças difusas.


Os fatos referem-se à onda de violência, com o assassinato de 11 pessoas e mais o desaparecimento de três outras, iniciados após a morte do policial Marcelo Márcio Lima Silva, dia 28 de janeiro de 2010, em bairro periférico de Vitória da Conquista.


Com a Justiça tendo decretado a prisão preventiva de policiais supostamente envolvidos nos assassinatos e no desaparecimento de pessoas, em atendimento a pedido do Ministério Público, o clima está se tornando bastante tenso, havendo ameaças anônimas, o que exige equilíbrio e ações firmes de todos, mas, sobretudo, medidas adequadas de órgãos e autoridades do Estado e do Poder Judiciário.


Entende a ABI que as instâncias competentes, tanto do poder estatal quanto do Poder Judiciário, ao adotarem procedimentos legais que a situação requer, devem agir inteiramente livres de ameaças, sendo inadmissível que isso possa partir de agentes que, em outras circunstâncias, são responsáveis pela manutenção da ordem pública.


Dessa forma, como entidade que congrega profissionais e empresas de comunicação social, notadamente jornal, televisão e rádio, a ABI, ao tempo em que oferece o seu apoio para colaborar no que for possível, conclama outros segmentos organizados da sociedade, entidades, associações e pessoas em geral a também se manifestarem, nesse caso, em defesa da ordem e do cumprimento da lei.


Salvador, 12 de maio de 2010


Samuel Celestino
Presidente da ABI

segunda-feira, 10 de maio de 2010

MUTIRÃO EM CONQUISTA



No primeiro dia do mutirão pela legalização do empreendedor individual em Vitória da Conquista, a terceira maior cidade da Bahia com mais de 300 mil habitantes, o escritório regional do Sebrae, na rua Sete de Setembro, esteve bastante movimentado e atendeu cerca de 40 pessoas como dona Elenilza Moreira Amaral, do bairro Kadiza, que depois de alguns minutos saiu com seu cadastro pronto como empresária do ramo de confecções.

Assim como dona Elenilza, o morador no bairro Jurema, o sr. Alex Ferreira Lima também aderiu à mobilização e fez seu registro como trabalhador autônomo na área do artesanato. Além do escritório do Sebrae, o empreendedor individual também foi atendido nos pontos do Banco do Brasil, na praça Barão do Rio Branco e na Agência de Desenvolvimento, Trabalho e Renda (ADRT), na avenida Bartolomeu de Gusmão.

Como em Conquista, a mobilização com a distribuição de panfletos, cartazes, carros de som e propaganda na mídia prossegue até o próximo dia 15 em toda região sudoeste nas cidades de Itapetinga, Ipiaú, Brumado, Jequié e Guanambi, contando com acompanhamento de contadores para tirar as dúvidas dos interessados em se legalizar. De acordo com o Sindicato dos Contadores de Conquista, o movimento superou todas as expectativas.


Satisfeita com os benefícios


A nova empresária formalizada Elenilza Moreira já atua há seis anos comercializando confecções femininas no bairro do Kadija.. Ela deixou o escritório do Sebrae satisfeita com o atendimento, dizendo que a partir dali já se sentia legalizada, com direito aos benefícios da Previdência Social; ter nota fiscal de suas mercadorias; e poder contar com crédito bancário como pessoa jurídica.

Alex Ferreira está iniciando agora sua atividade na venda de produtos artesanais e resolveu como autônomo se cadastrar depois de ter sido orientado por um contador. A propaganda do carro de som estimulou também seu Alex a procurar o escritório do Sebrae logo no primeiro dia, afirmando que quer começar seu trabalho dentro da lei.

O entregador de gás de cozinha, Fábio Farias Ferreira, de 40 anos, residente no bairro Urbis, 5, Caminho 11 – Casa 6, teve a indicação de seus colegas e logo cedo já estava no Sebrae para se formalizar. Disse que as empresas estavam exigindo nota fiscal de sua empresa

Há oito anos na atividade, na avenida Juracy Magalhães, Fábio Farias contou as dificuldades que vinha enfrentando no seu ramo como informal e não quis mais adiar seu cadastramento para outro dia. “As empresas hoje só querem vender para quem tem CNPJ e agora já posso trabalhar sossegado”.

Ele tem um automóvel que faz a distribuição de botijões e pretende ampliar seus serviços já que conta com nota fiscal e outros benefícios concedidos pela lei.

O Sindicato dos Contadores de Vitória da Conquista é um dos parceiros do Sebrae ao lado das prefeituras municipais, Câmaras de Dirigentes Lojistas, associações comerciais e os bancos do Brasil e do Nordeste. O presidente do Sindicato, Amauri Soares está participando do mutirão e falou da relevância da parceria, uma vez que a classe dos contadores foi chamada pelo governo federal a se engajar nessa forma de inclusão social.

Informou que todos os escritórios de contabilidade que estão inscritos no Simples Nacional vão prestar serviços gratuitamente de registro dos empreendedores individuais.

Em Conquista 32 contadores são optantes do Simples Nacional e estão apoiando a iniciativa de forma gratuita, mas Amauri adiantou que existem outros profissionais atuando na cidade de forma voluntária. Afirmou que o primeiro dia de mobilização em Conquista superou as expectativas, lembrando que a Bahia pretende formalizar 70 mil empreendedores e já existem 13 mil.

Somente hoje, segundo ele, o número de 30 a 40 inscrições ultrapassou o de outros dias desde quando se iniciou a formalização em fevereiro. O setor de serviços (salão de beleza, confecções, verdureiros, feirantes em geral) até o momento é o maior destaque em termos de legalização do empreendedor individual em Vitória da Conquista.




domingo, 9 de maio de 2010

A FORÇA DA PROMOTORIA



Confesso que errei no julgamento sobre o trabalho da força-tarefa do Ministério Público Estadual com relação às investigações da chacina no bairro Alto da Conquista, praticada por policiais embrutecidos entre os dias 28 e 29 de janeiro quando 11 pessoas foram barbaramente mortas e três adolescentes desaparecidos. Foi bom assim que eu tenha me enganado como muitos de nós que também não acreditaram em punição.

Diante de tanta impunidade neste nosso país, ficamos descrentes, principalmente diante de crimes que contam com a blindagem e a couraça do corporativismo. Sem rodeios, quero aqui elogiar a posição firme e corajosa da promotora Genísia Oliveira que tocou as apurações, mesmo diante de forte pressão. Isso nos faz acreditar que nem tudo está perdido neste país de tantas corrupções, desmandos e injustiças.

No exercício da minha profissão de quase quarenta anos, sei o que é sofrer ameaças quando você tem consciência de que está no caminho certo e não pode trair sua formação e seus princípios. O Ministério Público ainda é uma instituição que nos faz crer no sonho da esperança.

Critiquei aqui a morosidade, o sigilo e a sonolência das investigações, bem como o papel da imprensa que, sem informações, só registrava o factual. Agora o trabalho fluiu e a sociedade está tendo uma resposta mais concreta. No entanto, a prisão provisória de 10 policiais bandidos não é tudo porque sabemos que mais de 30 (fala-se em 35, 37 e até 50) subiram à Serra para invadir as casas, espancar, torturar e atirar friamente, como se tivessem permissão da rainha da Inglaterra para matar.

Por outro lado, esses policiais cometeram assassinatos e deviam ser julgados pela justiça comum, principalmente porque eles são funcionários públicos fardados incumbidos de proteger os cidadãos, respeitar as leis e não transgredir. Não é ainda tudo, mas a posição do Ministério Público, na pessoa da promotora Genísio Oliveira merece todo apoio da sociedade, como também o juiz que determinou a prisão.

Está na hora dos segmentos sociais, da turma dos intelectuais, dos sindicatos, da Igreja Católica, dos estudantes, dos partidos ditos de esquerda e das pessoas de bem em geral se levantarem para apoiar, sem pieguices, a ação corajosa da força-tarefa do Ministério Público. Conquista vai ficar calada?

O que mais incomoda e preocupa, neste momento, é o silêncio dos bons. Nada de “caminhada pela paz”, mas manifestação de solidariedade à promotora e contra a tortura que, infelizmente, não se acabou nos quartéis e nas cadeias com o fim da ditadura. Os policiais que invadiram as casas e usaram da força brutal sem respeitar as leis são bandidos. Somando à chacina do Pero Vaz em Salvador, a imagem da polícia só fez piorar.

Sou um cidadão que sempre cumpri com meus deveres, mas não sei o que é pior na situação atual, se um marginal apontando uma arma para mim ou um policial embrutecido me revistando com uma metralhadora, me chamando de bandido, sem que eu possa explicar e cobrar meus direitos. Esse comportamento precisa mudar urgentemente. Isso só é possível através de uma revisão no processo de treinamento da polícia.

Não basta ter hierarquia; aprender a marchar; e seguir normas rigorosas de disciplina. Na sua preparação, o policial precisa ter mais tempo para treinamento pessoal; receber aulas de formação humana, de relações públicas e conhecimentos gerais sobre como lidar com o público. Como está, parece que o policial recebe uma bronca do comandante e depois termina descontando no cidadão. Não se trata, especificamente, de questão salarial.

Essa discussão precisa ser mais aprofundada e analisada pelo Estado e pela sociedade. Sobre a chacina de Conquista ocorrida entre os dias 28 e 29 de janeiro, e não 29 de fevereiro como insiste o jornal A Tarde em suas últimas edições (não teve 29 de fevereiro neste ano como cita o repórter), existe muita coisa ainda a ser esclarecida e não foram somente 10 policiais responsáveis pela chacina.

Ainda não foi revelada a investigação propriamente dita sobre o policial assassinado Marcelo Marcio Silva e o que ele e seu colega estavam fazendo naquela noite de 28 de janeiro, subindo o Alto da Conquista. Simplesmente foram visitar um colega? E os traficantes foram ouvidos? As famílias que tiveram suas casas invadidas sem mandado judicial vão ser indenizadas pelo Estado?

Pelos fatos apurados até agora e pelo testemunho das vítimas, o mínimo que se espera é que esses policiais sejam punidos exemplarmente, e que a chacina de Conquista sirva de exemplo para que não se cometa mais matanças, invasão de casas e torturas. Foi uma noite de terror, e nem imagino estar no lugar daquelas famílias.

O atentado ao carro da promotora é mais uma prova de estupidez e insensatez que se somam à chacina e á violência generalizada em nosso meio. Nesta semana ouvi comentário de um cidadão dizendo que o Ministério Público havia desfalcado nossa segurança com a prisão de 10 soldados, tendo em vista que já temos pouco policiamento. Entendo, porém, que foi um benefício para a sociedade e para a corporação.

Infelizmente, nossa sociedade ainda imagina a polícia como uma força armada que chega em qualquer lugar batendo forte, espancando e torturando. Enquanto esse conceito não for mudado e não se fizer uma revisão na formação da polícia, inclusive no aspecto da seleção (sem apadrinhamento), a violência vai continuar e aumentar. É claro que junto a outros fatores econômicos e sociais, o Estado tem que oferecer educação de qualidade para todos.

domingo, 2 de maio de 2010

A AGONIA DA SAÚDE



O título deste texto deveria ser Propaganda Enganosa ou Saúde no Corredor da Morte, mas resolvi mostrar o acintoso contraste entre a propaganda dos nossos governantes, diga-se de passagem, feita com nosso suado dinheiro, e a realidade nua e crua da saúde pública. Vou contar um fato que ocorreu comigo na clínica Eco-Center, em Conquista. ENTRE A PROPAGANDA E A REALIDADE.

Dói-me muito e fico revoltado com a degradante resignação masoquista do brasileiro. Está no sangue da nossa cultura e na formação étnica herdada dos tempos coloniais. Trazemos o ferro da submissão e a muleta de aceitar tudo calado. Parece que já nos acostumamos com o pelourinho e nos acomodamos com a chibata cortando nossos lombos.

Estou fazendo esse “nariz de cera” como se diz no jargão jornalístico, para expressar toda minha ira contra a propaganda bonitinha e doce que o governo faz sobre a saúde pública quando a realidade é totalmente diferente. O sistema é perverso e cruel em todo país, e Vitória da Conquista não poderia ficar de fora. Nosso povo está sendo lentamente aniquilado nas portas dos hospitais.

Estaria traindo meus princípios não citar situações de desrespeito que acontecem sempre conosco aqui na nossa terra, inclusive comigo, recentemente, na clínica Eco-Center. Antes disso, porém, só queria que o leitor mirasse bem nas propagandas do governo na mídia quando sempre recomenda que as pessoas façam regularmente seu checape (check-up) para detectar possíveis doenças e realizar o tratamento.

Na televisão, principalmente, está lá a orientação para que não deixe de fazer seu exame de próstata, pressão, sua mamografia, seu checape do coração, seus testes de laboratórios, sua ultra-sonografia e assim por diante. Aí o mortal, coitado, acredita e parte para a batalha.

Guiado pela propaganda o indivíduo decide encarar a realidade. É quando descobre que não é assim que funciona, ou melhor, não funciona. Até chegar ao médico é um longo penar. Mas, a tortura só está começando. Os exames clínicos são marcados para depois de meses e até mais de um ano. Existem casos em que o “paciente” espera até dois anos.

E o tratamento de choque dado pelas clínicas conveniadas aos “pacientes” do SUS! É marcação pesada, meu amigo. Senti isso na carne quando fui fazer uma ultra-sonografia do abdômen na Eco-Center, rua Góes Calmon, na semana passada. Primeiro, esperei dois meses pela marcação do exame. No dia determinado, de acordo com as recomendações, cheguei lá às 7h30min, em jejum.

Muita gente já estava na sala, umas 30 a 40 pessoas, mas aquilo não me assustou. Pacientemente, me enquadrei no quadro da espera para ser chamado. Mais gente foi chegando e o tempo foi passando. A fome danada apertou, avisando que aquilo não era tarefa para minha idade de 63 anos, mas para jovens com muita saúde.

Lá pelas 10 horas, passei a observar que outras pessoas que chegaram depois de mim, inclusive na mesma idade ou mais novas, iam sendo chamadas para fazer o mesmo exame que o meu. Apelei ao autocontrole para não abalar meu estado emocional, mas tudo tem seu limite.

Como não tenho nervos de aço e coração de ferro, por volta das 10h45min, me aproximei do balcão e indaguei das atendentes qual o critério de atendimento. A resposta de que era por ordem de chegada era lógica, mas só que não era isso que estava acontecendo. Contestei a mentira e pedi explicações do porquê “pacientes” que chegaram depois de mim estavam sendo atendidos.

As funcionárias simplesmente me disseram que não podiam fazer nada e que não tinham culpa. Realmente, não são elas as responsáveis pelo desrespeito e massacre contra o pobre cidadão que precisa fazer um exame pelo SUS. Como se diz: o sistema é bruto. Não estava ali querendo tratamento diferenciado, mas apenas respeito e consideração.

Sempre defendi e lutei pela justiça social e que as pessoas sejam tratadas com dignidade. Não podia mais ficar ali sendo humilhado. Como disse antes, não consigo decifrar donde vem tanta resignação do brasileiro para suportar tantas afrontas e humilhações. Não me sentindo bem, pedi minha requisição de exame e deixei a Eco-Center, pensando nas injúrias que sofremos depois de tanto trabalho prestado à nação.

Não me deram respostas, mas o que se sabe é que nas clínicas conveniadas do SUS, primeiro são atendidos os que pagam em dinheiro, depois os que têm plano de saúde. O paciente do SUS é o resto de tudo, meu camarada. Será que a Secretaria Municipal de Saúde pode responder a esta questão?

Tenho uma irmã hipertensa com três AVCs e sei quanto ela sofre para encontrar uma vaga num hospital ou clínica para ser medicada e tratada. No lugar dos hospitais, faça sexo. Ao lado do futebol e do carnaval, sexo é uma das prioridades. Para os hipertensos, sexo, como recomenda o ministro da Saúde. “Goze e relaxe”.

No geral, a situação é caótica. Não acho que a culpa disso tudo é apenas do prefeito. Conheço o caso de uma pessoa em Conquista que não vou aqui citar o nome por que não tenho autorização para isso, que esperou dois anos para ser chamada para fazer um exame de mamografia. Esse assunto é inesgotável e não vou ficar aqui enchendo o saco do leitor.

Só para terminar, na semana passada, a revista Time destacou o presidente Lula como um dos líderes mais influentes do mundo (vivemos no buraco negro das lideranças), e o cineasta norte-americano, Michael Moore, apresentou seu perfil. Disse que Lula espantou “os barões do roubo”. Na sua historinha, contou que aos 25 anos Lula viu Maria, sua mulher, morrer aos oito meses de gravidez (o bebê também) porque não podia pagar atendimento médico.

Na sua suposição e interpretação ingênua, isso teria levado Lula a ser presidente da República e criticava os Estados Unidos por não estenderem a saúde para todos. No seu parco desconhecimento da realidade, deixou transparecer que a saúde no Brasil de agora é uma maravilha.

Mal sabe ele que centenas de pessoas que não têm dinheiro para pagar uma consulta ou exame continuam morrendo todos os dias no Brasil por falta de atendimento médico, nos corredores sujos dos hospitais e por negligência dos agentes de saúde e dos nossos governantes.

A maior parte das personalidades de fora desconhece totalmente a realidade interna do nosso país e fica de lá falando um monte de baboseiras. Os brasileiros se contentam com as poucas migalhas que recebem. Não basta só essa democracia elitista e burguesa. Não é essa a que queremos. A que temos direito de ter é a da justiça e da igualdade, com cara socialista.

Enquanto isso, as centrais sindicais só conseguem arrastar trabalhadores com seus shows sertanejos e distribuição de prêmios. Cadê a voz dos operários e estudantes no início dos anos 60 que ecoavam e bradavam nas praças e ruas clamando e lutando com seus punhos por direitos para todos, dignidade, igualdade e reformas socialistas de verdade?