segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

CORPO INDECENTE



Alguém já disse por aí que “quem não tem essência vive de aparência”. E é disso que vivem alunos de faculdades que plagiam e compram monografias e teses para receberem seus diplomas. Continuam analfabetos e despreparados depois de formados, mas para eles o que importa é o ter.

Quem vende esses trabalhos já prontos pela Internet é um “corpo indecente”, nojento e criminoso formado, na maioria dos casos, pelo corpo docente das escolas de “ensino superior”. O corpo dicente vai pelo caminho mais fácil da tecnologia e nem quer saber do futuro nada promissor em suas vidas.

São esses mesmos professores e alunos, comendo na mesma cuia, que em salas de aulas esbravejam e metem o pau nos políticos ladrões que aumentam seus salários e arrombam os cofres públicos. É tudo festivo e hipocrisia. Fazem parte da mesma lama que cobre este país de vergonha.

Ninguém se importa mais com as sujeiras dos políticos, e a grande maioria até apóia porque com aquela lei de levar vantagem em tudo sabe que faz igual ou pior. “Ser ou não ser”, ou parecer ser. Eis a questão dos nossos tempos alienados de trevas na cultura e no conhecimento.

Chegamos ao ponto mais alto da indecência onde hoje a pirataria digital virou coisa normal e não se julga mais como prática antiética. A ética passou a ter outros conceitos, e professores e pessoas inescrupulosas vendem trabalhos acadêmicos na maior naturalidade.

Por sua vez, tem muito professor que não se dá mais ao trabalho de reprovar ou condenar as atividades acadêmicas plagiadas da Internet. Com isso, esses “mestres” estimulam o crescimento dos falsários da geração Control C, Control V.

Não estão nem aí se contribuem para a decadência do conhecimento. Não pensam mais nos seus filhos e netos. Que se dane o futuro do país. O negócio é fazer valer suas “espertezas e astúcias”, mesmo que uns trocados a mais apurados no final do mês sejam conquistados de forma criminosa.

O mais assustador é que uma pesquisa constatou que mais de 70% dos alunos já admitiram ter praticado alguma forma de trapaça nas salas de aulas como plagiar trabalhos ou colar, com a conivência de muitos professores. A coisa é tão séria que muita gente hoje acha que plagiar não é uma questão “séria”. A tecnologia digital passou a criar uma geração de ladrões do recorta e cola.
Essa prática não está somente disseminada entre escolas e faculdades, mas também nos meios eletrônicos de comunicação, como blogs e sites. È um tal recorta e cola que nem citam mais as fontes, nem dão crédito aos autores dos trabalhos. É como se fosse uma coisa natural e legal.

O direito autoral foi para o “beleléu”, para o espaço. Não há nenhum respeito dessa gente, de ao menos consultar o autor se pode ou não divulgar seu texto. Todo conteúdo na Internet virou uma propriedade comum; um mundo de ninguém; um faroeste de bandidos.

O gato comeu o debate jurídico e ético de citar, dar crédito e mencionar o verdadeiro autor. Se já existem sites que vendem artigos prontos, monografias, dissertações e teses sobre qualquer tema, para que o aluno vai se esforçar e queimar as pestanas para escrever um trabalho acadêmico? Assim ele segue praticando todo tipo de assalto aos direitos dos outros, vivendo sempre da aparência e roubando descaradamente.

Por outro lado, instituições particulares fazem “milagres” para não reprovar o aluno-cliente. O advogado Rodrigues Moraes escreveu um artigo no jornal A Tarde dizendo que ao lado do corpo docente e discente vem surgindo nas universidades brasileiras um perigoso “corpo indecente”, formado por professores e alunos plagiadores.

É verdade que a Internet potencializa esses tipos de crimes, mas o maior responsável por tudo isso é o ser humano que se degradou; se deixou ser consumido e tragado pelo sistema capitalista do ter. O comércio de monografias e teses, de acordo com o advogado, é um problema de ordem ética. Só que houve uma inversão de valores e o que era ilegal e anormal se tornou normal e legal.

É lamentável, mas está triunfando a imoralidade, a desonestidade intelectual, sem nenhum pejo. Essa prática do comércio de trabalhos acadêmicos por professores que se transformaram em “empresários” não está somente nos grandes centros. Está aqui também em Conquista e tem equipes formadas só para isso, com sites e tudo. O campo é aberto e ninguém condena mais.

Bem, passando de um campo ao outro, mas no mesmo pólo, queria passar alguns dados sobre a educação na Bahia e no Brasil que refletem a decadência do nosso ser atual e nas gerações futuras.

Segundo pesquisas, quase 200 mil alunos no Estado da Bahia deixaram a escola pública em 2010. O número de matrículas caiu de 2,9 milhões para 2,7 milhões. A diferença está procurando colégios particulares.

No país, dos 51 milhões de estudantes em geral, 43 milhões são ainda do Estado. No período de 2007/10 houve aumento de 1,1 milhões a mais de matrículas no setor privado. Na pública houve um decréscimo de 2,6 milhões de matrículas. Em 2010, o sistema público encolheu 6% e o privado aumentou 18%. Só 4,5% do PIB são aplicados na educação quando a meta deveria ser de pelo menos 10%.

E por que tanto descrédito na educação pública? É fácil de responder. É só somar a violência, drogas, menos tempo de estudos, salários baixos dos professores e baixa autoestima nas escolas públicas e se chegará ao resultado da resposta.

Com tudo isso e mais a venda dos trabalhos acadêmicos e plágios nas faculdades temos uma mistura venenosa num caldeirão fervente que está transformando essa nova geração do corta e cola, das baladas, dos carnavais e shows de músicas de letras de péssimo nível, para que não dizer porcarias, em simples nanicos e anões do saber intelectual.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

A REVOLTA DA NATUREZA



Nem é preciso ser profeta para se saber que neste ano como foi em 2010 seria marcado por tragédias naturais, talvez que não fossem de proporções tão alarmantes e destruidoras assim. A natureza é impiedosa e não perdoa quem a agride. Enquanto os pobres derramam suas lágrimas com perdas materiais e de vidas humanas, os verdadeiros culpados continuam impunes dando o ar de cinismo com falsas ações reparadoras.



Os mais atingidos ainda são as camadas mais carentes, mas os ricos começam a sofrer também a ira dos deslizamentos de terras e das enchentes dos rios e riachos provenientes das chuvas torrenciais, como aconteceu no início do ano passado em Angra dos Reis.



Não se trata apenas da constituição geológica dos solos naquela região serrana do Rio de Janeiro, mas da ocupação desordenada das habitações, sem nenhum controle dos governos passados desde os tempos do Brasil Império.



Sobre as irregularidades habitacionais não é preciso ir muito longe. A Serra do Periperi onde suas encostas foram invadidas ao longo dos anos é um exemplo flagrante do desrespeito do homem e da falta de presença dos poderes públicos para coibir a destruição. Alías, aqui o poder público sempre foi o maior culpado pela delapidação da Serra que pode provocar uma tragédia.



Os ricos avançam as encostas por ganância, instalando suas mansões luxuosas e confortáveis. Já os pobres constroem por necessidade. Ocorre que quando o rico sobrevive às tragédias não fica desalojado porque possui imóveis e bens na capital (Rio de Janeiro no caso específico) ou em outros lugares mais seguros.



Os pobres se amontoam nos ginásios de esportes ou colégios das cidades arrasadas pelos desastres. O rico não vai para alojamentos coletivos ou fica na desgraça com uma mão na frente e outra atrás. Muitas vezes ainda se beneficia dos seguros. Os ricos enterraram seus mortos em cemitérios do Rio.



Há pouco tempo estive naquela região serrana do Rio de Janeiro e fiquei observando o perigo a que estão expostas as pessoas penduradas no alto dos morros de onde escorre água diariamente em forma de cachoeiras. Hotéis, casas de veraneios e prédios invadem as florestas.



Os poderes públicos fazem vistas grosas e ainda realizam e permitem edificações nas encostas, inclusive obras de embelezamento para atrair mais turistas e visitantes. Em Nova Friburgo, por exemplo, toda beleza artificial feita pelo homem foi simplesmente desmanchada pela fúria da natureza.



Bem, os fatos e as causas da maior tragédia natural da história do Brasil, tendo o homem como o protagonista do mal, já foram largamente divulgados pela mídia, especialmente a televisiva, que mais uma vez aproveitou para arrancar mais pontos em suas audiências.



É o chamado espetáculo da desgraça humana onde os “milagres” e os sofrimentos são computados e estampados por diversas vezes nas telas. Os vilões da história agradecem porque quase não são citados como responsáveis e culpados. Ainda roubam algumas cenas para aparecerem como salvadores, prometendo milhões e soluções mentirosas.



A solidariedade das tragédias cuida de unir mortos e vivos e consolar os desamparados, soprando as dores. O governo anuncia verbas; um dinheirinho para o chamado aluguel social; e uma quantia irrisória de R$4.500,00 do Fundo de Garantia para quem trabalha e tem carteira assinada. As doações brotam de todas as partes e as pessoas agradecem chorando com bênçãos dos céus. Os enviados viram deuses até tudo cair no esquecimento.



Muita comoção, muitas lágrimas derramadas, muitas personagens “heróis” que salvam vidas, muita destruição por todos os lados e doações por terra e ar que irão logo se repetir em outros lugares do país com as mesmas intensidades e sentimentos de perdas e horror.



A mídia vai estar lá e vamos assistir aos mesmos filmes de sempre sentados em nossas poltronas, ou ler as manchetes dos jornais e as notícias da internet através dos modernos smartphones. Os governos vão aparecer para anunciar os milhões que se dissolvem com sonrisal no meio dos caminhos.



É essa a cara do Brasil que disputa a tapa nos fóruns internacionais um lugar de destaque como potência econômica, mas não sabe cuidar e proteger sua própria casa, nem tem a mínima estrutura para prevenir e avisar o surgimento de possíveis tragédias da natureza.



Eles não são nossos legítimos representantes. São impostores querendo aparecer e tirar proveito da miséria e da ignorância de um povo conformado demais com os desmandos. É um povo sem guia, sem um verdadeiro líder.



E isso aí meu amigo e escritor Edmilson Santos Silva que, como muitos outros, não suporta mais tanta superficialidade, contradição e alienação juntas e está recolhendo seu cajado para outros embates em campos diferentes. Para mim é um prazer nos encontramos para uma Agora com outros companheiros ou camaradas de lutas e de idéias polêmicas.



Queria aqui fazer um apanhado dos fatos e acontecimentos do ano passado, marcado por violências e tragédias naturais que vão se repetir ao longo de 2011 porque o homem não pensa em mudar seu comportamento individual. Alguém já disse por aí que individualmente o Brasil vai bem, mas vai mal no âmbito coletivo.



Para terminar, a degradação e a negligência ao meio ambiente estão aqui bem perto de nós. É só dar uma olhada para a Serra do Periperi por tantos anos agredida e invadida pelo homem. Os casebres estão nas encostas, construídos sem nenhuma infraestrutura e fiscalização do poder público, aliás, o maior culpado pela destruição da área.



A sorte é que as características do solo são diferentes, e a Serra não é tão alta assim. Os riscos de deslizamentos de terras podem ser menores, mas todas as vezes que chove areais e pedras são despejadas nas ruas da cidade, entupindo bueiros e redes de esgotos. Não estamos livres de uma tragédia.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

CONQUISTA NA MIRA


Confesso ser chato fazer retrospectiva do ano que se passou porque parece que os fatos se repetem, com algumas tragédias e catástrofes a mais da natureza. Quem é o maior culpado por tudo? Existem pontos positivos também. Fazia muito isso quando atuava na Editoria de Economia do jornal A Tarde. Em economia era mais chato ainda.

Mas, vamos deixar de “bolodoro”, de “nariz de cera” para irmos diretos ao que interessa. Aqui em Vitória da Conquista, o mais chocante (para alguns não) foi a chacina praticada por policiais no bairro Alto da Conquista, podendo ser denominada de “Chacina do Alto da Conquista”. Não dá para esquecer.

Naquela madrugada de 28 de janeiro de 2010 o terror deixou os moradores apavorados com a invasão dos policiais e a matança de 11 pessoas. Até hoje três adolescentes, inclusive a menina Vanessa Morais, de 14 anos, continuam desaparecidos. As marcas não se apagam jamais. O pior é que não houve justiça e não se falam mais nisso.

Tudo leva a crer que foi um crime de extermínio em retaliação ao assassinato do PM Marcelo Márcio Lima. O mais lamentável é que pessoas que se dizem representantes de classe deram apoio às execuções sob o argumento mesquinho de que foi um ato de limpeza da polícia contra os bandidos. O que foi feito para punir os culpados pela arbitrariedade?

Na área da saúde, o crescimento e as melhorias realizadas a partir do Governo do PT em 1998 emperraram e muitas pessoas estão amargando longas esperas de meses para conseguir uma consulta médica. A pergunta que se faz é o que aconteceu com a saúde? Os recursos não evoluíram? A estrutura não está dando mais conta da demanda que cresceu? É preciso que haja maior entendimento entre setor público e privado para que as coisas funcionem.

A educação de qualidade e de tempo integral ainda está muito distante em Conquista como no resto da Bahia e no Brasil. Os professores penam para desempenhar suas funções, principalmente na zona rural. O teto salarial de R$900,00 (uma porcaria) no ensino fundamental ainda não chegou a Conquista. É verdade que a Prefeitura reformou e ampliou escolas, oferecendo mais vagas, mas a qualidade ainda está longe do ideal.

Em 2010 a Prefeitura Municipal realizou algumas obras de infraestrutura, saneamento e pavimentação de ruas nos bairros Petrópolis, Santa Cecília e no Cristo da Serra do Periperi, mas continua empacado o projeto do Poço Escuro. As praças necessitam de melhor tratamento e urbanização. Não existe só a Tancredo Neves.

O comércio, um dos maiores da Bahia, recebeu novos grandes estabelecimentos como o Atacadão, Comercial Ramos, o G Barbosa, ampliação do Shopping Conquista com mais lojas, entre outros. Em termos econômicos é inegável o avanço do município, gerando mais empregos. A construção civil continua bombando, com índices de crescimento superiores ao nacional (mais de 10%). Vitória da Conquista hoje é a sexta maior economia do Estado, com perspectivas de se desenvolver mais ainda.

No entanto, o comércio continua confuso, travado e feio, principalmente devido a poluição sonora e visual. O Shopping a Céu Aberto prometido há nos e discutido em 2010 na Câmara de Vereadores com CDl, Sebrae e outras entidades ainda não saiu do papel. Alegam que não existem recursos para concretizar o projeto.

Para ser mais realista e dizer a verdade nossa representação parlamentar é fraca para o tamanho da cidade. As entidades de classe são frágeis também e carecem melhorar suas estruturas. A mobilização e a articulação deixam muito a desejar. Está faltando mais diálogo entre poder público e privado. O executivo precisa ser mais flexível e dialogar mais com a sociedade em geral.

Esperamos que os deputados eleitos Waldenor Pereira (federal) e José Raimundo (estadual) melhorem está situação e tragam mais recursos e projetos para Conquista a partir deste ano. Pelo porte da cidade, podíamos ter mais representantes, com compromissos sérios para trabalhar.

Não é preciso ir muito longe para dizer que se nos próximos anos Conquista não for contemplada com grandes obras de infraestrutura, especialmente nas áreas de transporte e saneamento, haverá uma paralisia nas atividades mais essenciais ao seu desenvolvimento. Como conseqüência haverá também um freio nos investimentos de empresas locais e de fora.

É só olhar e analisar a situação do tráfego de Conquista. As vias principais não estão mais comportando tantos veículos, inclusive que entram da região. O aeroporto, cujo projeto ainda não saiu do papel (tanto discutido em 2010) é uma vergonha para a cidade. Somente agora estão dizendo que o local foi escolhido. Faltam mais mobilização e pressão junto aos governos estadual e federal. É preciso que todos os segmentos da sociedade cheguem juntos, unindo capital e trabalho.

Na política, o candidato a presidente da República pela oposição (PSDB) José Serra ganhou no primeiro e segundo turnos na terra do PT. Houve um fortalecimento da oposição no município e o PT vive o drama da divisão. É preciso maior reflexão por parte do comando para o bem da comunidade. Na próxima eleição para prefeito, em 2012, vamos ter mais candidatos, inclusive da base aliada, com direito a segundo turno.

Estou me estendendo muito, mas tinha mais coisa a comentar, embora nem todos concordem. É natural. Na área da cultural houve avanços com a implantação do São João tradicional e do Natal da Cidade. No entanto, outras linguagens como a literatura, o teatro e as artes plásticas, ou visuais, como queiram, estão esquecidos e são menosprezados. O Festival de Cinema precisa ser ampliado e mais estruturado.

Nos últimos dez anos Conquista deu um pulo com o avanço do ensino superior com novas faculdades e na saúde pública e privada, aquecendo a economia como um todo. Esses segmentos parecem estagnados e caminham num ritmo mais lento. Isso não é bom.

Bem, ia fazer uma rápida retrospectiva sobre os principais fatos marcantes na Bahia e no Brasil no ano passado, mas terminei me concentrando em Conquista. Fica para o nosso próximo encontro.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

CHEIO DA MESMICE


Todo final de ano e início do outro é sempre aquela mesmice pasmaceira, alienada e enfadonha. Os consumistas espantam um pouco o tédio, mas depois entram em depressão e cansaço. Os corações “caridosos e sensíveis” logo ficam endurecidos e suas mentes com ímpeto solidário voltam ao aconchego do individualismo.

Balanço da vida de final de ano parece mais coisa de loja de varejo que depois das vendas faz sua contabilidade e coloca o que sobrou em liquidação por preços mais baratos. Só que com gente é diferente, mas, infelizmente, sempre está sendo tratada como mercadoria e objeto.

A tecnologia não tem mais tantas novidades assim para nos deixar eufóricos e esperançosos. No entanto, os trambolhos eletrônicos dos minúsculos PCs e os monstrinhos irritantes dos celulares são adorados e venerados como deuses mágicos pelos colecionadores de plantão. Dão suas vidas por eles.

As descobertas científicas de curas na saúde só fazem a morte recuar um pouco para os afortunados, enquanto os bilhões de excluídos ficam de olhos arregalados, achando que também serão beneficiados e se transformarão em imortais.

Toda essa parafernália tecnológica tornou o homem mais monstro e angustiado, se refugiando e se agarrando aos símbolos, slogans e marcas falsas e enganosas. É uma busca desenfreada pelo sentido da vida a qualquer custo e sacrifício. As religiões vendem suas promessas de salvação.
A existência toma a forma e aparência deslumbrantes nos presentes, nas pedras preciosas, nas roupas coloridas, nos fogos, nas mansões, nas estéticas, nas plásticas corporais, nas bebidas e orgias dos prazeres. A alma continua perturbada e devoradora.

Os jornais, as televisões, os rádios e os sites trazem todos os finais de ano um monte de baboseiras sem fim com previsões óbvias, enganosas e estalionatárias de pais-de-santo, babalorixas, umbandas, tarólogos, numerólogos, astrólogos, bruxos e outros adivinhos dos búzios, das cartas e dos astros para falarem que assim caminha a humanidade. É o jogo das generalidades e probabilidades dos acertos.
SEM QUESTIONAR O ROTEIRO

A imprensa não importa mais com conteúdo e qualidade e nos enche o saco de mesmices porque sabe que aceitamos automaticamente sem questionar esse roteiro traçado para todo final de ano. É com essa mesmice das antigas festas pagãs dos celtas e romanos que as pessoas se sentem realizadas, alegres, saciadas e satisfeitas, pelo menos nesse curto período de ilusões. Está no pacote também a depressão depois de cumprida a obrigação da mesmice.

Mudanças só serão bem vindas e aceitas para os casos dos tablets com o sucesso do IPAD, smartphones, as redes “sociais” do Facebook, do Orkut, do Twitter e os rastros que os GPS fazem encantando nossos passos.

Nas ruas, os “estudantes tarifeiros” saem com cartazes em defesa de passagens mais baratas, mas pouco se importam com a corrupção endêmica e o aumento canibal dos políticos do Congresso que é o pior mal do Brasil. Não se pensa mais no coletivo. Aliás, foram cooptados e abduzidos por discos voadores do além.

O melhor mesmo é continuar na mesmice e nas promessas de mudanças de todos finais de ano. Já é um método prazeroso de nossas realizações. Não podemos mais passar sem esse roteiro e nos agarramos como se fosse uma bóia que nos salva do naufrágio. Gostamos mesmo de nos enganar e seguir a trilha da mesmice.

Por que mudar só na passagem de ano que nada mais é que um calendário cristão, criado pelo papa Gregório XXIII? Poderíamos estar no ano 5.771, conforme a contagem lunar dos judeus, ou no ano 1.432 do islamismo. Não importa, o tempo é relativo. Se a pessoa quer e tem força pode mudar sua vida a qualquer hora ou dia do ano. Você faz o seu tempo.
A DITADURA DA COMPETIÇÃO

Nas festas de final de ano e nas badaladas do outro, as pessoas fazem coisas e praticam atos como máquinas programadas pelo capitalismo. Elas ficam mais dóceis e imunes a agirem de forma contrária do que está escrito no roteiro. O diretor da peça é duro, rígido, cobrador e não admite de forma alguma qualquer atitude inovadora ou rebelde. Contentamos-nos com nossas personagens, mesmo sendo coadjuvantes, fracassadas ou frustrantes.

O ano entra e nos consideramos civilizados demais e evoluídos como parte das engrenagens tecnológicas. Continuamos correndo na disputa desvairada desumana e individualista por um lugar no espaço, sem olhar para os lados. Na conquista por este pequeno pedaço capitalista malvado seguimos cegamente a ordem de pisar e dar a rasteira em quem estiver pela frente.

Pela ditadura da competição a qualquer preço as pessoas hoje estão se acostumando com o assédio moral nas empresas, se sujeitando a humilhações dos bárbaros que berram e xingam. Vive-se hoje num regime nazifascista em nome de uma competitividade que só olha números e produção. O humano e as relações de colaboração e solidariedade foram desprezados, tudo pela disputa do ouro de tolo como já falava o poeta cantor Raul Seixas.

No próximo encontro vamos mais falar sobre esse caminho desumano e os principais acontecimentos do ano que se passou, marcado pelas catástrofes e tragédias provocadas pela natureza que não suporta mais a insensibilidade do ser humano.