É final de ano e o começo do outro. É tempo dos clichês e dos bordões, comandados pela mídia que só faz repetir as mesmas coisas de sempre. Os termos mudanças, balanço, retrospectiva e perspectivas são os mais usados, sem falar do aparecimento de novas tecnologias que vão mudar a vida das pessoas, democratizar e incluir socialmente. Ah, tem ainda as "profecias" e previsões dos babalorixás, videntes, cartomantes, búzios, pais-de-santo e mais um monte de babozeiras de periferia, para enganar os leitores, os telespectadores, ouvintes e internautas de plantão.
Não suporto o papo de que as novas tecnologias vão mudar sua vida. Só sei que as novas tecnologias estão aí para aguçar o consumismo desenfreado, e levar todo mundo para a mesma vala. As pautas são as mesmas e as matérias enfadonhas, com análises e perspectivas auspiciosos. Os acadêmicos, sociólogos, antropólogos, filósofos e cientistas dão suas opiniões e levantam teorias para impressionar. Cada um arrota mais sabedoria que o outro. As linguagens são confusas e poucos entendem o que dizem.
Os políticos e governantes contam vantagens e fazem suas promessas encantadoras. Falam sempre em mudanças como se dependessem de uma simples passagem de ano. Como se tudo fosse uma mágica. Não é o ano novo que faz mudar as coisas. A cada dia, cada um tem que fazer sua mudança interior. Mas, paciência, vivemos no faz de conta, comendo clichês e acreditando em tudo.
Na análise do cenário econômico e político, talvez o "guru" dos tempos da ditadura militar, Delfim Neto, tenha dito algo interessante quando avaliou que "Lula está salvando o capitalismo". Uma cientista-política manda que esperemos dez anos para que novos valores se imponham. Já vi gente falar em 20. E o povo brasileiro continua esperando.
O antropólogo Alberto Albergaria confessa que não vê mudanças. Para ele, o que existe é uma continuidade de longa duração do que já havia sido modificado. Na Bahia, segundo Albergaria, as mudanças demoram mais tempo.
O sociólogo Gey Espinheira acredita que a TV Digital e a TV Pública vão influenciar as programações das TVs abertas. Acha que seremos afetados, inclusive com a possibilidade de quebra de hegemonia da Rede Globo. Conversa, TV Digital é só o nome. TV Pública é uma incógnita e não passa de mais uma estatal. Nada adianta tudo isso se não houver conteúdo nas programações. Não existe mídia democrática e universal.
O publicitário baiano Alexandre Augusto acertou em cheio quando afirmou que não dá mais para tolerar os clichês que se repetem a cada entrevista. Quer ver um clichê bonito: "O mundo está mudando numa velocidade vertiginosa". Alguma coisa tem que ser feita para quebrar a torturante monotonia de final de ano. Lembro agora da história contada pelo escritor e jornalista Heitor Cony sobre o vidente cego de Londres. Ele só dava entrevista a um único jornalista e fazia questão de que suas previsões ficassem no terreno da periferia, sem denominações, como pão-pão, queijo-queijo. Aquela coisa de dizer que um grande escritor vai morrer neste ano.
Agarrados aos símbolos, vivemos o tempo todo acreditando nas cores das roupas, tomar banho de mar na entrada de no novo, comer determinadas frutas e mais num monte de baboseiras. Acredite só em você e no Deus Supremo. Livre-se dos clichês, dessa propaganda enganosa, e condene a mídia burguesa repetitiva. Introduzem tecnologias "avançadas", novos visuais de artes coloridas, mas sem imaginação e criatividade nas mensagens.


















