O som eletrônico no rebolado sensual das garotas de shorts curtos, coxas e bumbuns malhados hipnotiza as multidões e vai devorando a nossa tradição junina como praga daninha na plantação, tal qual os gafanhotos que infernizaram a vida dos faraós no Egito. Com letras de apelação e duplo sentido, na base do “beber até cair”, ou “ticomo”, as músicas nas batidas das guitarras elétricas do axé, da gafieira e outras misturas de ritmos de péssimo gosto, vão deletando aos poucos o autêntico forró nordestino, construído ao longo de muitos anos pelo mestre “Gonzagão”. Se o rei do Baião vivo fosse, teria abandonado sua sanfona e estaria morrendo de desgosto.
O São João é uma festa considerada pagã que teve sua origem bem antes de Cristo, celebrada pelos romanos e celtas para comemorar a chegada do verão. Era um evento solsticial para marcar o apogeu do curso solar. Com os tempos, a Igreja Católica introduziu símbolos cristãos, como a fogueira para anunciar o nascimento de João Batista, primo de Jesus. Os rituais ibéricos, as simpatias, o folclore e os costumes até hoje festejados com muita pompa e tradição na região do Porto(norte de Portugal) foram aqui disseminados pelos colonizadores portugueses. As quadrilhas vieram da França, daí as regências que marcam seus passos levarem os termos “anarrié”, “alonvonté”, “travesser”.
Em nome de uma falsa evolução que ilude e faz rebolar belas pernas em shows comerciais, assassinam a nossa tradição cultural de séculos e ainda fazem do São João uma caixa preta com o dinheiro público. Não bastassem as farras dos contratos milionários de artistas famosos, muitos dos quais sem nenhuma afinidade com a festa, renegando os talentos da terra que ficam com as migalhas, tudo é feito, na maioria das prefeituras, sem revelar as quantias negociadas. Nas conversas de arrumação dos delegados coordenadores, sempre tem o por fora e, muitas vezes, a banda pede um preço e recebe um pagamento menor. A terceirização corre solta, sem transparência nos números. Na mídia, não se divulga os custos das festas, mas as atrações a peso de ouro, e isto em municípios pobres, carentes em educação e saúde.
A festa mais popular do país, especialmente no Nordeste, está sendo desfigurada, atravessada e desafinada pelos sons e ritmos eletrônicos de bandas e músicos que não têm nada a ver com o legitimo forró pé-de-serra do triângulo, da sanfona e do bumbo. Trios elétricos e camarotes em alguns municípios vão invadindo os espaços da festa junina, subtraindo seus valores e afastando aos poucos a participação das pessoas mais ligadas aos costumes e às origens do evento.
Em alguns locais, até o amendoim e os produtos derivados do milho e da mandioca, carros-chefes da gastronomia do São João, estão cedendo seus lugares para comidas industrializadas. O licor e o quentão não são mais as vedetes das bebidas. As barracas preferem comercializar as batidas de cachaça e os “capetas” que são mais consumidos para acompanhar o ritmo alucinante das músicas de duplo sentido e do “beber até cair”. As danças mais parecem gafieiras, embaladas pelo “Calcinha Preta”, pelo “Calypso”, pelo azedume do axé music e as duplas sertanejas(românticas). É, se dão lucro aos promotores dos eventos, que se dane a tradição.
As prefeituras caem dentro e vale quem mais colocar atrações famosas nacionais que cobram de R$20 a R$50 mil por shows. Músicos de outros ritmos, inclusive do rock, viram “forrozeiros” temporários e montam seus espetáculos com belas morenas e loiras para rebolar seus bumbuns” e pernas. São produtos comerciais e descartáveis, mas com marketing bem trabalhado para impressionar nosso público de pouca cultura.
As bandas e os artistas da terra ficam com o refugo, e mais servem para tapar buracos, isto quando são contratados. Seus cachês são baixos e ainda só recebem com meses de atraso. Uma falta de respeito total. Geralmente, o povo já recebe o pacote fechado e pronto de gastos exagerados, sem reclamação. A transparência não faz parte do ritual das administrações, e a festa é uma caixa preta de muitos rebolados.
Entre outros casos de extravagância, veja as atrações do São João do município de São Francisco do Conde, que ultrapassa os limites do bom senso. Lá, festa é de arromba nos sete dias com estrelas de primeira grandeza, como Zezé di Camargo e Luciano, Bruno e Marrone, Calypso, Calcinha Preta, Aviões do Forró, Adelmário Coelho e Frank Aguiar. Enquanto isso, os funcionários estão com dois meses de salários atrasados.
Já em Vitória da Conquista, os governos nunca deram importância para a festa mais popular do Nordeste que reúne crianças, jovens, adultos, pobres e ricos, sem distinção de cor. Todos os anos, a cidade fica praticamente vazia, pois os moradores com mais condições viajam para outros municípios da região e do interior baiano. Além de deixar de atrair recursos de fora, o dinheiro que poderia ficar aqui é gasto em outros municípios. Conquista, com 308 mil habitantes, possui estrutura física, talentos musicais, grupos folclóricos e clima propícios para realizar o maior, ou um dos maiores São João da Bahia.


