sexta-feira, 20 de junho de 2008

REBOLADO CAIXA PRETA

O som eletrônico no rebolado sensual das garotas de shorts curtos, coxas e bumbuns malhados hipnotiza as multidões e vai devorando a nossa tradição junina como praga daninha na plantação, tal qual os gafanhotos que infernizaram a vida dos faraós no Egito. Com letras de apelação e duplo sentido, na base do “beber até cair”, ou “ticomo”, as músicas nas batidas das guitarras elétricas do axé, da gafieira e outras misturas de ritmos de péssimo gosto, vão deletando aos poucos o autêntico forró nordestino, construído ao longo de muitos anos pelo mestre “Gonzagão”. Se o rei do Baião vivo fosse, teria abandonado sua sanfona e estaria morrendo de desgosto.

O São João é uma festa considerada pagã que teve sua origem bem antes de Cristo, celebrada pelos romanos e celtas para comemorar a chegada do verão. Era um evento solsticial para marcar o apogeu do curso solar. Com os tempos, a Igreja Católica introduziu símbolos cristãos, como a fogueira para anunciar o nascimento de João Batista, primo de Jesus. Os rituais ibéricos, as simpatias, o folclore e os costumes até hoje festejados com muita pompa e tradição na região do Porto(norte de Portugal) foram aqui disseminados pelos colonizadores portugueses. As quadrilhas vieram da França, daí as regências que marcam seus passos levarem os termos “anarrié”, “alonvonté”, “travesser”.

Em nome de uma falsa evolução que ilude e faz rebolar belas pernas em shows comerciais, assassinam a nossa tradição cultural de séculos e ainda fazem do São João uma caixa preta com o dinheiro público. Não bastassem as farras dos contratos milionários de artistas famosos, muitos dos quais sem nenhuma afinidade com a festa, renegando os talentos da terra que ficam com as migalhas, tudo é feito, na maioria das prefeituras, sem revelar as quantias negociadas. Nas conversas de arrumação dos delegados coordenadores, sempre tem o por fora e, muitas vezes, a banda pede um preço e recebe um pagamento menor. A terceirização corre solta, sem transparência nos números. Na mídia, não se divulga os custos das festas, mas as atrações a peso de ouro, e isto em municípios pobres, carentes em educação e saúde.

A festa mais popular do país, especialmente no Nordeste, está sendo desfigurada, atravessada e desafinada pelos sons e ritmos eletrônicos de bandas e músicos que não têm nada a ver com o legitimo forró pé-de-serra do triângulo, da sanfona e do bumbo. Trios elétricos e camarotes em alguns municípios vão invadindo os espaços da festa junina, subtraindo seus valores e afastando aos poucos a participação das pessoas mais ligadas aos costumes e às origens do evento.

Em alguns locais, até o amendoim e os produtos derivados do milho e da mandioca, carros-chefes da gastronomia do São João, estão cedendo seus lugares para comidas industrializadas. O licor e o quentão não são mais as vedetes das bebidas. As barracas preferem comercializar as batidas de cachaça e os “capetas” que são mais consumidos para acompanhar o ritmo alucinante das músicas de duplo sentido e do “beber até cair”. As danças mais parecem gafieiras, embaladas pelo “Calcinha Preta”, pelo “Calypso”, pelo azedume do axé music e as duplas sertanejas(românticas). É, se dão lucro aos promotores dos eventos, que se dane a tradição.

As prefeituras caem dentro e vale quem mais colocar atrações famosas nacionais que cobram de R$20 a R$50 mil por shows. Músicos de outros ritmos, inclusive do rock, viram “forrozeiros” temporários e montam seus espetáculos com belas morenas e loiras para rebolar seus bumbuns” e pernas. São produtos comerciais e descartáveis, mas com marketing bem trabalhado para impressionar nosso público de pouca cultura.

As bandas e os artistas da terra ficam com o refugo, e mais servem para tapar buracos, isto quando são contratados. Seus cachês são baixos e ainda só recebem com meses de atraso. Uma falta de respeito total. Geralmente, o povo já recebe o pacote fechado e pronto de gastos exagerados, sem reclamação. A transparência não faz parte do ritual das administrações, e a festa é uma caixa preta de muitos rebolados.

Entre outros casos de extravagância, veja as atrações do São João do município de São Francisco do Conde, que ultrapassa os limites do bom senso. Lá, festa é de arromba nos sete dias com estrelas de primeira grandeza, como Zezé di Camargo e Luciano, Bruno e Marrone, Calypso, Calcinha Preta, Aviões do Forró, Adelmário Coelho e Frank Aguiar. Enquanto isso, os funcionários estão com dois meses de salários atrasados.

Já em Vitória da Conquista, os governos nunca deram importância para a festa mais popular do Nordeste que reúne crianças, jovens, adultos, pobres e ricos, sem distinção de cor. Todos os anos, a cidade fica praticamente vazia, pois os moradores com mais condições viajam para outros municípios da região e do interior baiano. Além de deixar de atrair recursos de fora, o dinheiro que poderia ficar aqui é gasto em outros municípios. Conquista, com 308 mil habitantes, possui estrutura física, talentos musicais, grupos folclóricos e clima propícios para realizar o maior, ou um dos maiores São João da Bahia.

sábado, 7 de junho de 2008

ESCRITORES SEM EDITORAS

A nossa cultura de hoje se resume num amontoado de acadêmicos vaidosamente considerados intelectuais, falando uma linguagem entre si e que nem eles mesmos se entendem. Reúnem-se em academias fechadas para discutir o sexo dos anjos, formas, estilos e teorias literárias de autores consagrados, sem uma auto-reflexão sobre o nosso meio literário que vive em decadência. Em se falando especificamente de literatura, precisamos de discussões práticas que incentivem e ajudem nossos escritores sem editoras a elaborar, divulgar e distribuir suas obras. Não podemos ficar dependentes dos editais e dos parcos recursos do governo, especialmente a literatura que é a prima pobre das expressões artísticas.

Como nos setores produtivos da economia que se organizam em grupos para se fortalecer, os escritores precisam se conscientizar; colocar os pés no chão e se unir em cooperativas para produzir suas obras e comercializá-las, no bom sentido. Precisamos deixar de lado essa vaidade de intelectuais, que não enche barriga de ninguém, e nos tocar de que também somos operários da escrita e das idéias. Na verdade, precisamos de editoras para publicar nossos trabalhos. E, somente os escritores unidos podem concretizar tal empreendimento, e sairmos desse marasmo em que vivemos. Como se trata de um investimento de risco, empresário nenhum vai criar uma editora. Somos nós que temos que decidir.

Na verdade, somos escritores sem editoras e, para mostrar nossa obra para o público, temos que meter a mão no bolso, com altos prejuízos, isso para quem tem condições financeiras. Mesmo assim, não somos reconhecidos pela sociedade, e os talentos ficam mofando nas gavetas. Ao invés de ficarmos discutindo teorias literárias, devíamos estar procurando uma forma de nos ajudar e, com isso, promover a cultura, disseminando e estimulando a literatura, especialmente entre a juventude. Estou falando de prática no lugar de teorias. A idéia é criar um Fundo conjunto, e daí uma editora para imprimir escritores, bem como resgatar autores importantes da nossa região.

Mas, se preferirmos ficar esperando pelos editais, no dia 10 de junho, a Fundação Pedro Calmon, através da Secretaria de Cultura do Estado, está lançando três editais, totalizando R$422 mil. Os editais visam a edição de obras inéditas, contemplando romances, contos, poesia, cordel e infanto-juvenil. Para o primeiro edital, “Pedro Calmon”, serão destinados R$250 mil. O segundo, é o “Lúcia Alcoforado”, de apoio à edição de folhetos de cordel, e conta com R$22 mil. O terceiro edital é de apoio às editoras baianas para edição de livros de autores baianos, com montante de R$10 mil, para distribuir entre oito projetos.

No entanto, o esforço coletivo é tudo para se abrir espaço no panorama literário. É difícil fazer livros sem editoras. Na Bahia, esse problema é antigo, e os caminhos para se publicar um livro são árduos. Mesmo com sua decantada efervescência cultural, o Estado não conta com uma editora comercial de ponta que produza, distribua e venda as publicações. É decepcionante como a Bahia não tenha conseguido desenvolver seu parque editorial. Aqui só temos editoras institucionais.

Ate hoje, as pessoas amantes das letras são obrigadas a tomar suas próprias iniciativas, como a Quarteto Editora, a Kalango e Edições K. Esse número dá idéia da demanda reprimida que há na Bahia. Além do mais, se visa muito o lucro com publicações de obras comerciais, de espiritualidade e de auto-ajuda. Por isso mesmo, é que temos que nos unir em cooperativas e formar nosso próprio negócio, visando valorizar e prestigiar nossos autores locais.

Talvez por vaidade, para massagearmos nosso ego, ficamos estacionados no campo da cultura erudita, tentando decifrar uma língua que não é nossa. Damos às costas para a cultura popular, para nossas tradições e costumes. Em Vitória da Conquista e região, por exemplo, as academias de letras, como as similares em todo país, nada mais são que clubes fechados que se reúnem para exibições do saber onde cada um procura mostrar seus conhecimentos mais que o outro.

Pouco adianta o aprender e o produzir se não for compartilhado com a comunidade. É o único caminho para a realização individual. E isso só é possível quando sua obra e seu trabalho chegam aos outros. No caso específico dos escritores, o limite está na individualidade, na falta de uma união entre os autores para fazer acontecer. Não temos uma representação forte do gênero literário para fazer crescer. Somos escritores sem editoras, tentando ser independentes, num esforço tremendo para divulgar uma obra que logo cai no esquecimento.

domingo, 1 de junho de 2008

SOS SERTÃO SUDOESTE


Quando se fala que o sertão da caatinga(mata branca) do semi-árido do sudoeste está virando deserto, dizem que é exagero e coisa de ambientalista fanático ou radical. Mas, não é assim. Só não vê quem não quer. Em nome do progresso vão arrasando tudo com fogo e desmatamento para a pecuária e à monocultura, como a do café que deixou um longo cocuruto no Planalto de Conquista. A cultura do café a partir dos anos 70 deixou uma vasta área desmatada nos municípios de Vitória da Conquista, Ribeirão do Largo, Encruzilhada e Barra do Choça, principalmente. A monocultura, especialmente a voltada para a exportação, é uma praga. Antes escorraçaram os índios e depenaram a Mata Atlântica para introduzir a pecuária. Hoje, os maiores latifúndios improdutivos estão na região de Itapetinga. Depois do café, veio a praga do eucalipto.
De acordo com os dados do Atlas da Mata Atlântica, divulgados pela Fundação SOS Mata Atlântica e Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais(Inpe, em São Paulo), Encruzilhada, Conquista e Andaraí estão entre os dez municípios que mais perderam mata atlântica no período de 2000 a 2005. Se a pesquisa voltasse aos anos 70 e 80, seria revelado um rombo ainda maior. Mesmo assim, se detectou que o município de Tremedal, na região sudoeste, foi o quarto do país que mais perdeu cobertura vegetal nativa da Mata Atlântica. Na mesma linha está Bom Jesus da Lapa, com as carvoarias e a agropecuária predatória.

DESMATAMENTO


Em Tremedal, o índice de desmatamento por ano aumentou de 326 para 371 hectares e, na Lapa, de 275 para 314, isto no período de 2000 a 2007. Mas, o arraso começou pelos idos de 70, para não se falar dos últimos 200 anos. Nesses municípios, os desmatamentos contribuíram para que a Bahia ficasse em terceiro lugar no ranking dos Estados com maiores perdas de florestas(36 mil hectares). O campeão é Santa Catarina, com mais de 45 mil hectares de Mata Atlântica, seguido de Minas Gerais. A área de abrangência do bioma mata atlântica envolve 3.406 municípios no país.
Segundo os estudos, os municípios de Conquista e Encruzilhada não puderam ser mais avaliados por causa da presença de nuvens nas imagens de satélite. O mais absurdo, se bem que para nosso país nada mais é absurdo, é que parte dos desmatamentos que colocaram a Bahia em terceiro lugar no ranking que mais perderam cobertura florestal, foi autorizada oficialmente. Até 2006 era o Ibama quem dava as autorizações. De lá para cá entrou em cena a Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Recurso Hídricos.

UM DESERTO


De 2006 até abril deste ano, foram emitidas licenças para supressão de 47 mil hectares de florestas nativas. Os municípios mais críticos com perda de vegetação se encontram na região sudoeste que está virando um deserto. Nesta região, a Mata Atlântica tem fisionomia mais seca(mata de cipó). De acordo com estudiosos, a dificuldade para se entender a mata de cipó como mata atlântica teria favorecida a concessão de tantas licenças. O eucalipto foi outro fator que contribuiu para a perda de florestas na região sudoeste. Fora as licenças, existem ainda os cortes clandestinos e a fiscalização é precária, praticamente não existe. O Ibama, por exemplo, conta com oito fiscais para cobrir 46 municípios.



Nas épocas de seca quando a vegetação que ainda resta na terra fica cinzenta e retorcida, a paisagem desértica fica bem visível. Ai, quando corto esse sertão do meu Deus e dos pobres que teimam em viver nele, sempre me lembro do meu amigo geofísico Rui Bacelar que com sua crítica feroz e certeira, baseada em análises científicas, dizia que esse sertão está virando um deserto estorricado.



Em sua defesa do meio ambiente(ele também bradava contra os políticos corruptos e clamava pela ética), Rui sempre condenou o incentivo exagerado do eucalipto em nossas terras, e descrevia como o café colaborou para a perda da nossa cobertura florestal. Em nome do progresso que passa por cima da fome e visa o lucro, sempre prosperou a degradação e a depredação da natureza. Um bom, ou mau exemplo disso esta na Serra do Periperi que virou um escombro.