Não tinha idéia de como iniciar este comentário diante do enchimento de notícias mercenárias da mídia burguesa que todo final de ano repete a passagem voluptuosa e dionisíaca dos deuses sagrados e santificados do consumismo. Meu cérebro começou a ferver e ficou empacado no caso do menino americano-brasileiro Goldman e nos atos de doações a crianças que vivem na penúria, transmitidos incessantemente pelas emissoras de televisão do país.
Já não gosto mesmo da Festa de Natal que se tornou ao longo dos anos numa data enviesada, oblíqua e torta onde o Papai Noel tomou o lugar de Jesus Cristo e as pessoas se matam nas lojas e shoppings para comprar presentes. A mídia segue os passos dos enlouquecidos, e como num jogo de futebol, narra até as paradas nas lojas para carregar as energias com um lanche. Depois segue a corrida desenfreada do Papai Noel.
Talvez por esta aversão, nas noites de Natal sempre acontecem coisas esquisitas e inusitadas comigo que terminam me deixando aborrecido e a indagar se é um carma de outra encarnação. Durante o ano, muitos fazem malvadezas e conspiram, mas quando chega o Natal, falsamente essas pessoas ficam boazinhas e dóceis.
Para completar, as emissoras de televisão caíram de pau no caso do menino Goldman, chupando todo o sangue da criança e do pai, com seus dentes vampiréscos e mortais que deixam qualquer drácula parecido com um anjo dos mais meigos vindo do céu.
O menino vestiu a roupa; está saindo da casa dos parentes; subiu com o pai nas escadas do avião (imagem no ar); chegou aos Estados Unidos (lá estava uma equipe de plantão, filmando a casa); e tome um monte de sensacionalismo barato. Os pobres e excluídos acompanham de seus aparelhos todo roteiro, nos mínimos detalhes, da família capitalista.
O menino rico e burguês roubou a cena dos noticiários do menino miserável da Bahia (Ibotirama) que foi espetado com mais de 40 agulhas pelo padrasto, vítima também de uma sociedade pagã, egoísta e hipócrita. É essa mesma sociedade suja e fedorenta que todos os anos se levanta para dar roupas, um pouco de comida e brinquedos às famílias famintas e às criancinhas sujas e esmolambadas das favelas e das ruas.
Para essa gente que já se acomodou de vez com a situação política e social do assistencialismo, essa atitude de caridade basta para deixar suas consciências tranqüilas, com a certeza da conquista de um lote no reino dos céus. Não importa saber que essas pessoas depois daquelas doações vão continuar na miséria e na ignorância por mais um ano. No próximo Natal as cenas se repetem e a mídia faz sua refeição, cada vez mais recheada de capitalismo e lucratividade.
Bem, vocês sabem que sempre faço uma mistura dos fatos que no frigimento terminam dando o mesmo sabor de indignação e revolta por todo esse quadro de acomodação e alienação coletiva. Agora mesmo, nossa geração está aderindo à leitura e aos filmes de terror urbano do pensamento do ser.
Parece que a juventude do planeta foi contaminada pelo deleite profano dos monstros, dos zumbis, magos, vampiros, corvos e frankensteins. Ainda estamos na série dos livros e filmes de vampiros. Aristóteles dizia que as imagens que vemos com repulsa na vida real, quando transpostas para a ficção, se tornam fonte de prazer.
Só que esses personagens de monstros se adaptam muito bem com os existentes hoje em Brasília no Congresso Nacional que, segundo pesquisas, tem o pior conceito, mas estão aí para renovar seus cadáveres nas próximas eleições.
O Supremo Tribunal de Justiça suspende a Operação Satiagraha e livra o banqueiro Daniel Dantas da punição. Os prefeitos e políticos da máfia com o dinheiro público não são condenados. As torturas e os mortos da ditadura do regime militar permanecem sem revelação, mesmo com a promessa feita pela esquerda do Governo do PT. Os arquivos são queimados e a memória da história desaparece.
É uma Nação covarde que prefere esquecer o passado. A Internet virou uma cultura do descartável, tornando as relações humanas mais difíceis. Na cultura ainda não conseguimos sair das conferências de mais de quatro anos. A nossa sociedade perdeu a capacidade de se indignar e se acomodou às práticas assistencialistas da humilhação das esmolas.
A miséria é só olhada com compaixão, mas não como uma luta constante para que essa gente conquiste a cidadania e seja inserida na igualdade de direitos, com oportunidades para todos. O socialismo foi banido e excomungado. O capitalismo triunfa mortalmente.
Para os estudantes, a contestação contra o mensalão do DEM (Demônio) é válida, mas o mensalão do PT não existiu como o holocausto é negado pelo presidente do Irã. As centrais sindicais estão quietas em seus ninhos de mordomia e aceitam os decretos do Governo de aumentos salariais e dos aposentados. Acima do salário mínimo, o cara desfalece e vira classe média.
Em nome de uma fé aos orixás do candomblé sujam as águas e o meio ambiente com cestos de flores, pentes, espelhos e outros objetos poluidores. Isso acontece muito no mar e no Dique do Itororó, em Salvador, mas os ambientalistas de plantão se calam. Um encarregado de limpar as sujeiras disfarça e devolve às águas boa parte desses presentes que ficam boiando nas margens.
Como em todo país, aqui em Vitória da Conquista fatos de profunda humilhação não provocam a ira da imprensa e nem dos segmentos da sociedade. Pessoas chegam com colchões às 17 e às 18 horas do dia em frente ao prédio do SAC e dormem ao relento para pegar uma ficha no outro dia às 8 horas para terem direito a uma Carteira de Identidade ou a um Seguro-Desemprego. O número de fichas é limitado e não dá para todos.
Não dá para acreditar nisso, mas é uma verdade lastimável que está acontecendo. As “autoridades” não tomam nenhuma providência para mudar esse quadro. A imprensa não denuncia nada, e as pessoas continuam a sofrer para conseguir um documento. No Fórum João Mangabeira ocorre a mesma coisa. Para a sociedade, o bom mesmo é dar esmolas e votar nos corruptos de sempre.

