segunda-feira, 16 de abril de 2012

A SECA E AS JÓIAS

Matérias de seca sempre rendem “bonitas” fotos para os fotógrafos e manchetes para os jornais. É o olhar perdido do sertanejo do semiárido, que se confunde com o chão estorricado e a paisagem cinzenta. É a foto dos animais esqueléticos famintos, estirados na capoeira queimada pelo sol de “pegar fogo”. São crianças de olhos fundos e barrigudos à beira de um fogão, onde a mãe chorosa tenta cozinhar os últimos caroços de feijão numa panela de barro, com água barrenta. Casas fechadas e abandonadas nas cidades e nos povoados-fantasmas retratam a fuga do homem para outras terras em busca de sobrevivência. Açudes vazios e a terra rachada.

Governos passam e os quadros dantescos se repetem e se renovam, com expressões ainda mais tristes e desoladas, quando a estiagem é mais duradoura e inclemente como a deste ano. Há 21 anos, quando assumi a chefia da sucursal A Tarde de Vitória da Conquista, venho arquivando reportagens de seca, muitas das quais feitas por mim e o fotógrafo José Silva. Vejo nelas o mesmo lamento e as histórias dos “carros-pipas eleitoreiros”, cortando o agreste para saciar a sede do agricultor, que neste tempo vira zumbi procurando raízes para comer. O arquivo não para, só faz aumentar.

Fora as enganosas cestas básicas e o Bolsa Família, o sertanejo acuado pela seca, sem água para beber e para plantar suas lavouras, apela para os santos, fazendo simpatias e promessas. Uns carregam pedras, se penitenciam, e outros rezam para que Jesus e São Pedro mandem a chuva. “Lá vai a procissão se arrastando como cobra pelo chão”, como canta o poeta cancioneiro, ou faz a “Triste Partida”, de Patativa de Assaré, na voz de Luiz Gonzaga. O padre faz uma “reza cumprida” para a vida melhorar. “Menino de pés no chão” vive ao Deus dará, e a mulher “viúva” de seu marido não sabe se ele um dia voltará.

A esmola só faz deixar o trabalhador honesto com mais vergonha. Ele só quer uma solução que nunca chega. Há quase 40 anos como repórter (completo no próximo ano) só tenho visto promessas e alguns serviços de poços e pequenas barragens, que não resolvem, em definitivo, o problema.

Agora mesmo, são mais de 200 municípios baianos (quase três milhões de pessoas) que decretaram situação de calamidade pública, mas o pouco dinheiro fica no meio do caminho da burocracia e, às vezes, é tragado pela corrupção. Lembram das chamadas “frentes de serviços” que criaram para tapiar o sertanejo? Colocavam homens, mulheres e crianças para capinar o mato às margens das estradas.

Para cada município cabe cerca de R$50 mil que mal dá para pagar os “pipeiros”, que entregam água em algumas áreas, e tome algumas cestas básicas para amenizar a situação e enganar a fome. Naquele tempo, lá pelos meados de 1850/60, o imperador D. Pedro II prometeu vender todas as jóias da coroa, se necessário fosse, para acabar com a seca do sertão.

Passados mais de 150 anos, o Brasil cresceu e os governos arrecadaram impostos aviltantes, suficientes o bastante para anular de vez as intempéries da seca e fazer o homem do campo conviver com as piores estiagens. Mas, ao longo desses anos, os “gafanhotos” (governantes, políticos e outros corruptos tais) só fizeram roubar nossas jóias, desviando recursos para obras faraônicas de interesse deles, como a transposição do “Velho Chico”, estádios, pontes e monumentos.

Nossas jóias, adquiridas com muito suor e sacrifício, são partilhadas entre eles, como fizeram os soldados romanos com as vestes de Cristo, só que no nosso caso são valiosos tesouros materiais que poderiam ser investidos na educação e saúde de qualidade, incluindo também os serviços de combate à seca. Até funcionários fantasmas, e os que já morreram de verdade, recebem sua parte neste latifúndio.

Todos negam e todos são inocentes. É de “dar pena” quando falam. Coitadinhos! Passam de vilões a vítimas e ainda são elogiados e aplaudidos pela matilha. As imagens e as conversas telefônicas não provam mais nada. Quando pipocam as denúncias, escondem em seus palácios e depois aparecem, alegando que não tiveram direito de defesa. Fazem manobras e, quando presos, logo são soltos pela lei que diz que eles não representam perigo à sociedade, nem cometeram crimes hediondos.

Se a igreja católica quer aumentar sua lista de santos para maior fervor dos seus fiéis, no Brasil encontrará uma relação enorme de “santos inocentes”, que todos os dias, coitados, são caluniados e injuriados como ladrões, e por terem cometido crimes de desvios de dinheiro dos cofres públicos. São injustiçados e merecem ser canonizados. Tudo não passa de invenção de uma mídia a serviço das forças ocultas.

Os castigados duramente pelas secas, estes sim, são os maiores culpados porque permitiram a estiagem e não fizeram obras suficientes para reservar água para beber e irrigar suas terras. Desperdiçaram dinheiro enviado pelos governos e políticos, e ainda mentiram, vergonhosamente. Como sentença, pelo resto de suas vidas, vão continuar sem educação, saúde e votando nos “homens” em todas as eleições.

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