quarta-feira, 14 de março de 2012

POESIA SEM SEU DIA

Andei ontem por aí por vários lugares da cidade, pelas ruas e nas livrarias, inclusive acompanhei a fraca sessão da Câmara de Vereadores, que tinha 10 cidadãos e poucos parlamentares, falando algumas coisas soltas sobre educação, saúde a asfalto, mas nenhuma referência sobre o Dia Nacional da Poesia, 14 de março, data de nascimento de Antônio de Castro Alves (1847 -1871) e do conquistense cineasta Glauber Rocha (1947 -1981). Que coincidência!

Fiquei atento ao noticiário da mídia, mas para meu desespero e decepção, também não houve comentários sobre o Dia Nacional da Poesia, a não ser uma citação rápida na televisão sobre a data de nascimento de Glauber Rocha. A noite engoliu o dia, que em Vitória da Conquista ficou sem ser homenageado, porque esse era o seu dia da poesia.

Mesmo assim, sem comemoração, a poesia se fez presente no brilho do sol, nas flores, em toda parte e na vida corrida dos escritórios, das calçadas e avenidas concorridas de competição, sonhos e ilusões. Mesmo com toda ingratidão, ela não se ausentou de nós. Ao contrário, nos homenageou, repartindo a felicidade e confortando o espírito nos momentos infelizes.

Bem, vamos deixar de poetizar a poesia para falar mais da nossa falha por não termos prestado ao menos uma singela homenagem em seu dia, como aconteceu no Dia Internacional da Mulher quando houve mais fanfarra e demagogia do que reflexão crítica sobre qual deve ser mesmo seu papel de libertação e emancipação na sociedade.

Na próxima quarta-feira (dia 21) temos um próximo encontro com o Dia Mundial da Poesia. Deixo aqui o aviso para que não nos esqueçamos da data, e assim, quem sabe, vamos poder nos redimir da falta de consideração para com a nossa jovem criança e senhora poesia. Será que a abandonamos porque ela ficou idosa, como fazemos com os nossos idosos do Brasil?

Meu reconhecimento ao poder público local que ultimamente tem prestigiado a música, incentivando o trabalho de seus intérpretes cantores e compositores. O mesmo não posso dizer quanto às outras linguagens artísticas, especialmente a literatura em seus diversos segmentos como da poesia, do romance, dos contos, crônicas e das obras de pesquisas em geral.

Não falo aqui estritamente de espaço físico, mas da realização de eventos, editais municipais, feiras, bienais e outras tantas atividades culturais literárias que promovam potenciais realizadores e produtores. Estou falando de uma política cultural que atenda a todas as expressões artísticas. Cada uma tem a sua particularidade intrínseca.

Mas, voltando ao Dia Nacional da Poesia, só para lembrar, em Salvador foi realizado o Cortejo Poético Performático Dia da Poesia, promovido pela Biblioteca Prometeu Itinerante e o Coletivo Poesia Além das Sete Praças. A Camarata Castro Alves apresentou o espetáculo “O Navio Negreiro aos Olhos do Condor”, no Teatro Barroquinha. No Parque Histórico Castro Alves, na Fazenda Cabaceiras de Paraguaçu, o poeta, autor de “Espumas Flutuantes”, foi homenageado nos seus 165 anos de nascimento.

Poesia é um modo de viver, pensar, olhar e ver. No seu dia, homenageamos também todos os poetas menores e maiores, como João Cabral de Melo Neto, Carlos Drumond de Andrade, Manoel Bandeira, Olavo Bilac, Cassimiro de Abreu, Álvaro de Azevedo, Fernando Pessoa, Victor Hugo, os baianos Sóstenis da Costa, Florisvaldo Matos, meu colega Ruy Espinheira, Camilo de Jesus Lima, Laudionor Brasil, Ruy Bacelar e tantos outros da nossa terra e região, vivos e no além.

Não podemos esquecer também dos cordelistas “Patativa do Assaré”, Leandro Gomes de Barros, o paraibano, pai dos cordelistas, Klévison Viana Manoel D´Almeida Filho, Teodoro dos Santos, Francisco Sales Arêda, o José Gomes, ou “Cuíca de Santo Amaro” (baiano), “Bule Bule”, e por aí vai numa lista infindável.

Desconheço se alguma entidade de Conquista, privada ou pública, tenha prestado alguma homenagem ao Dia Nacional da Poesia. Se ocorreu foi de forma muito tímida e reservada, sem divulgação aberta à comunidade. Arrisco dizer que as escolas nem lembraram. A mídia também tem seu grande quinhão de culpa pelo desconhecimento, ou mesmo falta de interesse pela cultura, o que é lamentável.

Infelizmente, em nosso país, não é só a esquecida e coitada poesia que sofre por falta de leitura e incentivo. Nos rincões mais distantes do nosso território anticultural, especialmente nos tempos atuais da Bahia, a situação ainda é mais grave. Cadê, então, a tão propalada interiorização da cultura propagada pelo governo estadual?

Não deixem morrer a poesia, porque os sentimentos se vão e a humanidade se tornará cada vez mais desumana. Não adianta termos os poetas, se na alma não existe poesia para homenagear pelo menos o seu dia. Aí, não haverá mais sentido a criação do dia da poesia.

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