A China pretende importar todos os jumentos do Nordeste do Brasil (animais em extinção) para sacrificá-los e transformar suas carnes em alimentos e outros produtos. Eu me importo muito com isso porque nasci no campo vendo os jegues servindo os sertanejos na sua lida do dia-a-dia para sustentar as famílias pobres daqueles lavradores.
Alguém pode até achar uma grande bobagem, mas nunca me esqueci, desde quando era menino, da utilidade imprescindível desses animais ao homem pobre do campo. Não fosse seus serviços, transportando cargas pesadas nas roças e para as feiras da cidade, meu pai não conseguiria nos prover do vital alimento.
Por isso, o sertanejo tinha o maior zelo e tratava bem seus jumentos. Lembro muito bem que meu pai deixou um deles de estimação morrer de velhice em seu pasto, apesar da oferta que recebeu de um matadouro. Agora que o jegue foi substituído pela moto, o animal símbolo do Nordeste, que serviu até para compor canções, está com seus dias contados. O jegue também é um patrimônio que deve ser preservado e até tombado.
Eu me importo em ver aqui, em nossa cidade de Vitória da Conquista, os animais sendo maltratados e espancados por carroceiros, sem que os órgãos públicos “fiscalizadores” e as entidades que se dizem protetoras dos bichos tomarem providência para punir os agressores.
O que me incomoda não é só a atitude mesquinha do homem animal falante que usa do seu poder de domínio contra os animais indefesos que não têm como expressar sua indignação, mas também a exploração do homem contra o homem na sua pior falta de caráter e niilismo.
O uso de propinas em contratos e convênios com empresas públicas, inclusive da área de saúde, tornou-se “ética de mercado”. Eu me importo também com isso e com o silêncio dos bons. A prática tornou-se tão normal que essas pessoas não sentem mais remorso e dormem tranquilas com suas consciências.
Aliás, a prática ficou tão banalizada que os corruptos não se sentem mais corruptos, mas pessoas espertas e mais inteligentes que as outras, consideradas por eles de otárias. Quem não consegue mais dormir com tranquilidade são as pessoas que ainda procuram ter um comportamento de seriedade e honestidade com o dinheiro público, isto porque todos os dias elas sentem que estão sendo roubadas descaradamente.
Eu me importo com a adoração da estética no lugar da ética. Com o ser humano que se transformou numa simples marca, como daquela mulher que compara uma modelo magra, com aneroxia, como o marketing de sucesso de um telefone que tem que ser fino para ser bem aceito pelo mercado.
Eu me importo com a matança de moradores de rua por jovens e até adultos da classe média, por acharem que essa gente incomoda e precisa ser retirada do nosso convívio burguês capitalista. Eu me incomodo com essa indiferença de classe social do faz de conta que não existe e passa sem olhar para a cara da miséria. Eu me importo com essa impunidade que não é mais notícia de jornal.
Eu me importo com a polícia quando passa a servir os ricos donos de bancos, empresas e belos condomínios de luxo, deixando o povo pobre entregue à violência dos bandidos e assaltantes. Eu me importo com essa formação policial voltada para reprimir os mais pobres.
Eu me importo quando o próprio povo diz que é isso que o povo adora ouvir quando se refere às baixarias do lixo musical de Salvador, com “letras” preconceituosas que degradam e transformam a mulher ser humano num objeto. No lugar da contracultura, temos que conviver com a anticultura.
Eu me incomodo com tudo isso que está fora de lugar e fora de foco. O enredo está confuso e atravessado. Não dá mais para interpretar o sentido de tudo isso, ou esse mundo não é mais o meu mundo. Aqui não é mais o meu lugar. Esse comodismo e esse medo de falar o que se pensa me incomodam. Já disse alguém que o silêncio dos bons é doloroso, não que me julgue um deles.
terça-feira, 20 de março de 2012
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