segunda-feira, 5 de março de 2012

DESVIOS DAS ÁGUAS

De riacho foi “promovido” a rio, formando uma bacia que nela foi construída uma grande barragem com o propósito de irrigar as terras dos ribeirinhos e gerar emprego e renda para as famílias mais necessitadas, castigadas pelas secas do sertão. No entanto, não foi isso o que aconteceu. Das glebas de terras se apropriaram os mais abonados para construir suas casas confortáveis de veraneio e desviar as águas da barragem para suas chácaras e projetos empresariais de lazer.

Muita gente já deve ter sacado do rio ao qual estou me referindo. É isso mesmo, trata-se do rio Gavião, que nasce no município de Jacaraci, no sudoeste baiano, e antes se chamava de riacho das Palmeiras pelo seu descobridor Fernão Dias, no início do século passado. No mesmo local, nasce também o rio Verde (seu irmão gêmeo) que resolveu seguir terras mineiras.


O hoje rio Gavião, que deságua no rio das Contas, alcança os gerais do Ave Maria (localidade de São José), passa por Imbiá (distrito) e atravessa os municípios de Condeúba, Presidente Jânio Quadros, Tremedal, Belo Campo, Caraíbas e Anagé onde forma a barragem que recebe o mesmo nome. Corta ainda Tanhaçú e Mirante até cair no rio das Contas, que derrama suas água no mar, em Itacaré.

É uma pequena descrição para o leitor se situar, mas queremos falar mesmo da Barragem de Anagé, construída no início da década de 1980 pelo DNOCS (Departamento Nacional de Obras contra a Seca). Depois de um bom tempo, estive visitando a barragem na semana passada e tomei um susto diante do esvaziamento do reservatório que deve ter baixado de 5 a 10 metros do ano passado para cá.

Imagina-se de início, como muitos dizem, que a situação é decorrente da falta de chuvas na região. Mas, não é preciso ser especialista para perceber que as principais causas de tudo são o desvio e o desperdício de suas águas por aqueles que se apropriaram dos terrenos em suas margens para construir belas casas com piscinas para curtir seus finais de semana.

Como se não bastasse, de forma descontrolada e irregular, proprietários de classe média alta retiram há muitos anos (cerca de 30) grandes volumes de água para irrigar suas lavouras. Na verdade, não existe e nunca existiu um controle mais rigoroso do consumo de água da barragem, que a permanecer nesse ritmo, vai terminar secando de vez.

É claro que a escassez de chuvas contribui para o quadro, mas o uso descomedido e ganancioso dos sanguessugas da água, sem pensar em seus efeitos e conseqüências ao meio ambiente, foi mais danoso para agravar o problema e baixar o nível da barragem a um ponto tão crítico como o atual.

Árvores secas que antes estavam debaixo d´água estão expostas, sem contar os troncos e o chão estorricado em suas margens. Puxaram e ainda puxam água demais, sem se dar conta que a barragem não suporta tanta exploração. Além do mais, o reservatório abastece as cidades de Anagé a Caraíbas. Existem ainda idéias por aí de que a barragem poderia abastecer parte do consumo de Vitória da Conquista.

A obra que foi criada com o intuito primordial de desenvolver a agricultura familiar e servir como fonte de renda, teve seu objetivo desviado para o lazer e conforto dos mais ricos. O local transformou-se num balneário de final de semana, só que está pedindo socorro. O Gavião, assim como a ave, pode ser extinto. Seu bico está secando.

Conheço a Barragem de Anagé há mais de 20 anos e nunca vi com seu nível tão baixo, apesar de ter atravessado secas bem piores neste período. Digo isso porque como repórter, acompanhei várias estiagens bem mais agudas que agora. Depois de cheia, logo após sua construção, suportou por muito tempo a retirada demasiada de água até que veio anunciar seu esgotamento. É como se dissesse: Assim não dá mais seus sanguessugas.

Por outro lado, o leito do rio Gavião, como o rio do Antônio, que nasce no município de Licínio do Almeida, vem há muitos anos sofrendo a ação predatória por parte do homem, principalmente do poder público, com a retirada de areia e o desmatamento em suas margens.

O fotógrafo José Carlos D´Almeida percorreu todo rio Gavião e constatou a sua degradação, inclusive seco em alguns locais quando bate a estiagem. Todos esses fatores fazem com que não exista água suficiente para represar na barragem. Os órgãos (in) competentes são os maiores responsáveis pela atual situação da Barragem de Anagé e ficam agora colocando toda culpa na falta de chuvas.

Nenhum comentário: