segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

OS CRIMES ABSURDOS

Vamos abordar aqui diversos assuntos que acontecem em nossas vidas e no dia-a-dia do Brasil. São absurdos que dão lugar a outros e logo terminam sendo esquecidos. Pelo visto, não é somente a Bahia que tem o “privilégio” de ser a terra dos absurdos como exclamou estarrecido o ex-governador Otávio Mangabeira.

Para começar, diria que no Brasil temos o sagrado direito à propriedade privada, mas não existe o sagrado direito à dignidade da pessoa humana, a não ser no papel, manchado de tramas escusas. Basta citar a invasão ao bairro Pinheirinho, em São Paulo, onde os moradores foram literalmente esmagados pela máquina público-privada.

Numa praia do litoral paulista, um garoto de 13 anos pilota um Jet Ski, perde o controle, e acaba atingindo uma criança que morre no local. Os pais somem, mas aparece um advogado para dar uma versão cínica e fajuta da tragédia, dando a entender (somos todos burros) que o único culpado foi o Jet Ski que resolveu sair sozinho do barco para dar um passeio. Fez uma ligação em si mesmo e avisou: “Vou ali e volto já”.

Como a coisa ficou tão escancarada, só depois com o depoimento de testemunhas, foi que o advogado mudou de “tática” e instruiu o menino a contar a verdade de que ele estava pilotando, mas não aponta o responsável, ou responsáveis. Assim, o garoto agiu por conta própria porque os pais e os adultos que estavam com ele não aparecem na peça. O menor leva a culpa e os pais se safam. E tome impunidade e injustiça. O resto já se sabe no que vai dar. É o mesmo tipo de pai que dá bebida alcoólica para o filho e acha tudo bonito.

Baderna no julgamento das escolas de samba de São Paulo. Um estúpido com uma camisa e um bracelete de uma escola dá uma “voadeira” na mesa do júri, pega os papéis das notas e rasga tudo. A diretoria da entidade diz que não sabe como o cara entrou no recinto, tampouco que era membro do grupo. O agressor fez tudo por conta própria. Ninguém planejou a confusão. As versões são as mais estapafúrdias.

No dia 2 de fevereiro passado, no Rio de Janeiro ou São Paulo (o local não importa muito), Vitor Suarez Cunha foi defender um mendigo que estava apanhando de uns animais com cara de humanos e foi barbaramente espancado. O rapaz baixou no hospital e nenhuma entidade de defesa dos direitos humanos se pronunciou ou apareceu por lá para apoiar a ação de Vitor. Nem um representante do governo se manifestou. Solidariedade está em extinção.

Queimaram mais mendigos (lembram do índio Galdino) em Brasília. Tudo perpetrado por jovens de cujos pais sempre devem ter recebido cobertura para os malfeitos. Será mais um crime impune, como o do índio Galdino. Dizem que os criminosos daquele ato macabro se formaram e hoje estão “atuando muito bem” em suas profissões. A sociedade cala e espera outro absurdo acontecer.

Temos muito mais absurdos e passaria o resto da minha vida relatando-os. Em todos eles, as “autoridades” sempre dizem o mesmo: “Vamos investigar com profundidade e punir os culpados”. Conversa pra boi dormir. Passa o tempo e tudo cai no esquecimento. Vivemos no paraíso da impunidade.

Saindo de uma ponta a outra, aqui na Bahia a Secretaria de Cultura do Estado abriu um concurso para selecionar representantes territoriais de cultura (êta nome bonito!), cujo edital dava vantagens a militantes políticos e sindicalistas (mais de mil reais de salário). O governador achou um absurdo, e o secretário, Albino Rubim, saiu com esta: Existe vício na política, mas não é só no PT. Está em todos os partidos. Faz lembrar Lula sobre o Caixa 2 das campanhas eleitorais. Boa justificativa! Este esquema está enraizado há muito tempo em todos os setores do governo. É a cota política, sem levar em conta o mérito e a competência.

E por falar em cultura, um produtor da área disse que a atual gestão permanece ancorada na análise conceitual do fenômeno cultural e esqueceu-se do fazer cultura. Continuamos tentando descobrir o sexo dos anjos. Inventaram o território cultural. O que virá depois?

Nenhuma chiada quanto a privatização dos aeroportos. A classe trabalhadora e os estudantes ficaram calados. Fosse antes, havia quebra-quebra. Nesta privatização, 49% dos aeroportos ficaram sob controle da estatal (Infraero), preservando a permanência dos quadros sindicalistas nas diretorias e nos conselhos. Está aí a explicação para a satisfação da militância, sem reação ideológica.

Querem mais um absurdo nosso de cada dia? No ano passado, os gastos em comemorações do governo federal atingiram R$54 milhões, 19,5% a mais que no ano anterior (R$45,4 milhões). Em cinco anos o crescimento é de 314%, bem longe da inflação.

Para 2012, o Tribunal Superior Eleitoral divulgou que os 29 partidos existentes (haja partido) receberão R$286,2 milhões para manter suas estruturas. Em 2011, a dotação foi de R$265 milhões. Só o PT abocanhou R$44 milhões, seguido do PMDB com R$33 milhões; o PSDB com R$30 milhões; e o DEM ficou em quarto, com R$19 milhões. E ainda dizem que no Brasil os partidos não são financiados com dinheiro público.

Os R$286 milhões do fundo partidário acrescentados aos R$851 milhões em descontos de impostos dados às emissoras de rádio e televisão em 2010 (serão R$606 milhões em 2012) somam R$1,13 bilhão. Como disse a colunista Dora Kramer, a militância cega resulta na perda da independência mental. É o estado onde não se tem mais liberdade de dizer as coisas como elas são.

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