terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

NO TEMPO DA CHIBATA

A questão da polícia militar para que a sociedade também seja beneficiada no quesito segurança e olhe a corporação com simpatia, não se resolve simplesmente com aumento salarial e gratificações. O problema é bem mais histórico e carece de uma reforma profunda em sua estrutura a qual o staff não quer nem saber de falar nisso.

A sua rígida estrutura interna de punição, que leva o nome de disciplina e hierarquia, lembra mais o tempo da chibata que os marinheiros eram submetidos como castigo, resultando na “Revolta da Chibata”, em 1910, no governo do marechal Hermes da Fonseca. Por apanhar tanto, o marinheiro João Cândido, conhecido hoje como o “Almirante Negro”, liderou o movimento contra a chibatada.

Naquela época, o marinheiro não podia se casar e era submetido a outras humilhações degradantes. Posso estar falando besteira por não ser especialista no assunto, mas a hierarquia militar está arcaica e termina refletindo na sociedade que recebe um tratamento desumano como se todos fossem bandidos.

Na corporação militar, o comando ainda usa o medo para impor respeito, quando se pode muito bem, com disciplina e hierarquia, impor respeito, sem medo. Hoje, não é mais admissível que os pais baixem a porrada em seus filhos como forma de disciplina. Até a palmada foi proibida.

O policial que não cumprimenta um oficial, como reza a cartilha, leva “esporro” e é punido com severa advertência, além de ser humilhado diante de todos. As coisas podem ter melhorado, mas a rigidez continua severa em detrimento do bom relacionamento e do respeito mútuo. A seleção, sem o chamado “pistolão”, mesmo com concurso, é que tem que ser rigorosa.

Fala-se pouco da desmilitarização, tornando o policial mais humano, e muito de aumento salarial como se esse ganho a mais fosse resolver o problema de desvio de conduta. A questão é mais de formação e seleção das pessoas. Prepara-se estupidez que é repassada para o cidadão.

O militar de mau caráter não vai se tornar um bom exemplo só porque passou a ganhar mais. Se o cara já é uma marginal, tanto faz receber R$2.000,00 como R$10.000,0 por mês, ele vai continuar sendo corrupto, cobrando propinas e praticando bandidagens. É como o “bandido de toga” que já é bem pago pelo contribuinte.

Quando falo em reforma, refiro-me também ao treinamento militar, na sua maior parte voltado para defesa pessoal (aprendizagem de golpes e manejo de armas), e pouca coisa de conhecimento sobre relações e direitos humanos.

Na sua formação, o soldado aprende mais como bater no cidadão e tratá-lo com brutalidade e medo como se todos fossem bandidos. Geralmente ele desconta no civil o que recebeu de repreensão do seu comando na forma de estupidez. Nem é preciso que o comandante mande o subalterno esbofetear o civil. Na rua ele age como se fosse o comandante que lhe humilhou, e tome pancadaria e agressão.

Da forma como está, a polícia militar é vista como força bruta para reprimir os pobres que não têm condições financeiras para se defender. A raiz de todo o mal dessa truculência está aonde? Vem dos tempos coloniais do coronelismo onde a chibata resolvia tudo.

Alguma coisa está errada em sua estrutura, mas as autoridades e os comandos não querem enxergar. Preferem que o mal continue penalizando a sociedade que recebe a bordoada e ainda vive debaixo da chibata. Hoje, o cidadão tem medo do bandido e também da polícia militar. O medo faz com que ele mantenha distância, com raras exceções.

Outra deformação dentro das corporações é o corporativismo que deixa impunes os militares que agem como bandidos, ao ponto do governo reconhecer que as corregedorias são coniventes com os criminosos e marginais que agiram com arrastões, queima de ônibus e assassinatos durante a greve de 12 dias.

Ninguém fala mais da Chacina do Alto da Conquista que deixou um rastro de barbárie. Agiram como carrascos, executando sumariamente jovens por conta própria. A justiça calou-se, e a própria sociedade desorganizada também, justificando que todos eram bandidos e mereciam ser eliminados. Não está oficializada, mas existe pena de morte no Brasil, sem julgamento e sem sentença, pior que nos Estados Unidos.

Compactuamos também com a violência e com essa deformação da verdadeira função da polícia militar. Tudo isso porque o Estado é falho em sua missão de proteger e dar segurança ao povo. O sistema está todo podre e deformado. Não adianta só aumentar o contingente policial, dar melhores salários e colocar mais carros e armas nas mãos do militar se ele não tiver uma boa formação humana.

Portanto, o cerne da questão não é o aumento salarial. Não adianta dar uma robusta remuneração ao soldado se ele continua recebendo uma formação disciplinar arcaica e de medo dentro dos batalhões e dos quartéis. Não é com simples aumento salarial que o militar vai passar a respeitar os direitos humanos e tratar bem o cidadão.

Em seus discursos, os comandantes e as autoridades falam de uma instituição centenária que tem prestado grandes serviços à nação, mas não refletem e analisam que essa corporação precisa se alinhar e se renovar aos novos tempos, para melhor servir à sociedade que a mantém com tantos sacrifícios. O policial precisa ser respeitado para respeitar, não com chibata.

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