Maravilhoso, lindo, esplêndido, contagiante, empolgante, show emocionante e perfeito! São muitos adjetivos para pouca objetividade dos narradores e “comentaristas” da rede Globo sobre as Escolas de Samba do Rio de Janeiro. A impressão que se tem é que todas vão ser campeãs. Fala-se o óbvio. “Olha as baianas rodando, que lindo”! Para qualquer Escola, todos os enredos são fáceis de cantar.
O pior aconteceu quando entrou a Portela, a primeira Escola a desfilar na Sapucaí. Na Comissão de Frente colocaram a legenda “Capitães de Areia” para fazer referência a um dos livros do escritor baiano Jorge Amado. Esperei que fosse feita a correção, mas até o final, lá se foi repetindo “Capitães de Areia”. Jorge Amado deve ter se revirado do além e dito: Nunca escrevi este livro. Que horror!
No encerramento, o próprio responsável pela montagem da Comissão deu uma entrevista e mandou essa: Jorge Amado foi generoso quando escreveu “Capitães de Areia”. Generoso como? Lamentável cena, testemunha de que o moço também cometeu um grande equívoco de interpretação sobre a obra.
Na verdade, o título do livro é “Capitães da Areia”, que conta a história de meninos “moleques” que viviam soltos nas ruas e perambulavam pelas areias das praias da Cidade Baixa, dormindo num velho trapiche. Não sabia que Jorge Amado também era escultor de capitães feitos de areia. Podia até ser de areia, isto se o autor estivesse se referindo a um determinado lugar, o que não foi o caso.
Tratando-se de uma grande rede de televisão, com maior audiência de público, entende-se que seus repórteres e comunicadores devam ter maior qualificação para passar uma informação correta. Quanto maior o veículo, maior a responsabilidade jornalística. Por sua vez, o erro básico deveria ter sido corrigido imediatamente. Era o que se esperava.
Muito ôba, ôba e enrolação, sem contar as informações desencontradas sobre o escritor. Não se ouviu uma crítica mais abalizada sobre os desfiles das escolas de samba. Aliás, não temos mais críticos neste país, só aplausos e elogios, seja na literatura, no teatro, na música, nas artes plásticas ou até mesmo nos esportes. Existe uma pobreza no Brasil em termos de analise crítica, isto em todos os segmentos.
Como na escolha de cargos políticos, os textos dos enredos, em grande parte, não são selecionados por mérito e conteúdo, mas por apadrinhamento com os donos das escolas, na maioria bicheiros contraventores. Daí se exala a superficialidade e a falta de aprofundamento do tema proposto. A premiação requer uma guerra de foice nos bastidores. É uma máfia.
Não sou crítico de Escola de Samba, mesmo porque entendo pouca coisa, mas queria, como todos os telespectadores, ouvir mais objetividade. Os enredos da Portela e da Leopoldinense passaram uma imagem estereotipada da Bahia onde só existem festas, candomblé e sincretismo religioso. Fez-se apenas uma caricatura que não passa uma boa imagem do Estado lá fora. A Bahia tem muito mais para se mostrar, principalmente suas belezas e o potencial econômico.
Na homenagem a Jorge Amado, além do pecado de “Capitães de Areia”, a “Leopoldinense” mostrou praticamente a mesma coisa do lado festeiro da Bahia, desenhado pelo escritor, e pouco se falou sobre a vida do autor e o enfoque social e político, configurado em seus livros. O texto parecia mais uma cópia da outra.
Passou-se uma mensagem de que Jorge Amado fez uma apologia ao carnaval no seu primeiro livro “O País do Carnaval”, em 1931. Não foi bem assim. Na sua primeira fase como comunista, ele quis dizer que a festa só trazia miséria, com todas suas contradições. Os jovens, que já não têm o hábito de ler, engolem informações erradas e incompletas.
Em Salvador, seus organizadores e artistas passaram na abertura da festa um caldo de cultura no carnaval, mas os ingredientes da receita foram os mesmos. Por dentro, o bolo continuou com o mesmo gosto excludente e separatista. As principais bandas de trios saíram um dia sem cordas, sob o patrocínio polpudo da Petrobrás, que é uma empresa construída e mantida pelo povo.
Foi apenas uma forma de tapiar os foliões “pipocas” para dizer que o carnaval de Salvador voltou à sua forma participativa e tradicional de antes. Que nada! A exclusão permanece rolando forte, com os camarotes de luxo do alto e o povão aplaudindo lá em baixo. É “A Casa Grande e a Senzala”.
A mesmice continua concentrada nos trios elétricos de Ivete Sangalo, Bel Marques, Daniel Mercury, Carlinhos Braw, Cláudia Leite e Durval Lelis. É só ligar um canal qualquer e lá está a mesmice do axé, do pagode e do arrocha, com raras performances de forró e da música popular brasileira com boas letras para se escutar. Mais de 90% são lixo. Salvador teve até a propaganda do xixi. Que beleza!
O Governo do Estado investiu R$60 milhões, sem contar o dinheiro municipal, numa festa onde quem ganha grana mesmo são os ricos donos de hotéis, agências de turismo, de publicidade e artistas “famosos” que comandam trios ensurdecedores há muitos anos. Só fazem receber.
É o carnaval para turista ver porque adora coisa exótica. Passaram uma “garapa” e disseram que organizaram um carnaval cultural neste ano, só porque prestaram homenagem a Jorge Amado. Como diz o ditado popular: “Me engana que eu gosto”
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
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