O comportamento enviesado da vida política e social dos brasileiros está recheado de uma boa matéria-prima para escritores, colunistas, cineastas e artistas em geral. Basta observar o cotidiano das pessoas que cada vez mais se fecham no individualismo egocentrista. Se estiver bom para ele, que se danem os outros.
Infelizmente, em nosso país quando alguém pratica um ato de honestidade é logo considerado como herói. Se a pessoa encontra uma carteira ou bolsa com dinheiro e devolve ao dono, logo sua imagem sai na televisão com direito ao sucesso de 15 segundos.
Quem faz mais heróis neste país é a mídia, especialmente a televisiva, para montar seus espetáculos. Aconteceu recentemente na prisão do traficante “Nem”, da favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. Foi só um tenente recusar a oferta de um milhão de reais para liberar o bandido e logo correram para transformar o militar num grande herói.
A mídia não foi muito adiante e ficou sem graça porque o oficial descartou o título, ou a comenda, dizendo que tinha simplesmente cumprido sua obrigação para que seus filhos lhe olhassem como exemplo. Num país tão escasso de honestidade, fazer o certo virou coisa rara e foco para imagens que roubam a cena principal.
No caso da Rocinha, a invasão das tropas federais e estaduais era a notícia jornalística mais importante, se bem que a matéria poderia ter sido mais aprofundada e explorada, como a reação de muitos favelados que não gostaram da ocupação porque vão deixar de receber as cestas básicas e o auxílio pecuniário dos bandidos.
É uma questão para ser discutida e refletida. Não foi mostrado que alí, há anos, o chefe dos traficantes mandava descarregar toda semana um caminhão de verduras e frutas para os moradores; distribuía cestas básicas; e ajudava manter as creches. E agora como vamos ficar sem esses benefícios? O Governo vai fazer isso? Foram interrogações feitas por muita gente.
Faltou a mídia analisar esse lado perverso e cruel de dominação do poder paralelo, em decorrência de muitos anos de abandono dos governos. Por falta de uma saída através da escolaridade e de outros meios de libertação da miséria, o brasileiro se acostumou e se acomodou ao vício de assistencialismo. Rende-se ao primeiro que lhe oferece um prato de comida pronto. Fica escravo do dono da comida.
Faltou a mídia dizer que muitos se recusaram a deixar sua casas com temor de que soldados entrassem e levassem seus pertences como já ocorreu em outras invasões. É o outro lado cafajeste. Como reconquistar a confiança com outros serviços de melhora que não sejam as cestas básicas?
Vivendo por muito tempo sob o domínio dos traficantes, muita gente ainda não confia na proteção da polícia e prefere o outro lado. Normal seria que a honestidade não tivesse se tornado caso de heroísmo. Este é um assunto para ser debatido pela sociologia dos abandonados.
O cafajestismo não está só nos políticos que roubam, ficam impunes e ainda são eleitos para cargos públicos no executivo e no legislativo. De tanto ser passado para trás desde os tempos coloniais, o brasileiro incorporou o lado cafajeste e cínico. Acha que também tem o direito de ser safado.
Agora mesmo o Governo está querendo empregar o desempregado para reduzir os custos do seguro-desemprego. Acontece que as pessoas nessa situação não querem. Preferem o seguro e arranjar um bico por fora. Outros passam o tempo desocupados, curtindo a grana.
De tanto ver os maus exemplos, os que estão na camada mais baixa também entendem que têm o direito de serem astutos, aproveitadores, oportunistas e cafajestes. Aí o ambiente geral fica deteriorado e podre. Tudo fede. Quando aparece um que se recusa a aceitar algum tipo de desonestidade se torna herói na mídia.
Fica difícil mudar a mentalidade dessa gente quando se vê ministros do Governo mentindo e praticando suas maiores cafajestadas para se dar bem. Agora mesmo o Carlos Lupi, do Trabalho, tudo faz para não deixar a cadeira. Faz até declaração de amor em público à presidenta. É desaforado e cafajeste como disse Ricardo Noblat em sua coluna. Não se incomoda com o ridículo.
O Brasil é o único país do planeta onde um ministro é demitido e depois é elogiado na passagem de seu cargo para outro correligionário de partido. Fazem coro e choram. Precisamos fazer um campeonato de cafajestadas porque de heroísmos não dá para fechar mais que dois ou três times.
Para as “esquerdas” do poder, as denúncias de corrupção não passam de golpe das elites. Quem é a elite hoje? Os banqueiros e os empresários estão contentes. Os sindicatos e os estudantes também. A oposição, praticamente não existe.
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
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