segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A COR DA PELE

Quem escreve tem sempre uns “diabinhos” ao pé-do-ouvido, tentando se intrometer para mudar o rumo da história. Querem entrar no enredo como personagens. O título não era propriamente este, mas invadiu minha tela e lá ficou, talvez por causa de dois primorosos e corajosos artigos do advogado, poeta e compositor Walter Queiroz e do antropólogo Luiz Mott publicados no jornal A Tarde no final de semana.

Os dois falaram praticamente do mesmo assunto, desmistificando conceitos afroascendentes que estão querendo impor na Bahia. Enquanto o planeta “pega fogo” com “occupy wall street”, os movimentos árabes e dos indignados na Europa, ficamos aqui discutindo a cor da pele.

Sem rodeios, Walter disse que, talvez por mero oportunismo político, endeusam-se na Bahia os afroascendentes como uma categoria étnica apartada dos demais baianos. Acrescentaria, na minha modesta visão, de que só existe uma etnia, a etnia brasileira numa junção do africano, do indígena e do colonizador europeu, incluindo aí uma ponta dos mouros.

Afirmou ainda Walter que a reverência ao continente africano não deve subestimar a participação aborígene na nossa formação, assim como não se pode negar o sangue colonizador. Para ele, causa espanto o conceito turismo étnico, se são três povos em um.

Apesar da tragédia que foi a escravidão, já é tempo de superar as lamúrias que atrasam um novo acordo social onde não haja mais lugar para privilégios e cotas de reparação. Que elas sejam para todos baianos pobres, de todas as cores e tribos. Segundo o poeta, tentar africanizar a Bahia é um desserviço à identidade e a originalidade de um povo genial.

Na mesma linha, Luiz Mott diz que um dos mitos mais danosos à construção de uma verdadeira democracia racial é o racionalismo, isto é, a tentativa de colocar o racismo como culpado de todas as mazelas dos afro-brasileiros. Cotas não só para negros, mas para todos os segmentos mais discriminados da sociedade. Complementaria de que devemos sim, cobrar uma política séria de qualificação dos serviços públicos para todos.

Da forma como certos movimentos negros se posicionam, está se encaminhando para uma frente perigosa de separação de cor, e não é isso que se quer. Sem essa de cor de pele. Vamos premiar a capacidade e o mérito. Na semana passada, um antropólogo chamou de discriminação a atitude de um padre por não dar comunhão aos participantes da missa de sétimo dia em homenagem a uma mãe de santo.

Ora, cada religião tem seus ritos com suas normas as quais devem ser obedecidas por aqueles que deles participam, como acontece no próprio candomblé. Existem certos rituais na liturgia que iniciantes não têm acesso e ninguém diz nada e não se condena. Muito me admira um antropólogo não saber disso. Qualquer ato hoje já é logo considerado como discriminação e preconceito. No princípio católico qualquer casal separado, por exemplo, não pode receber a comunhão, como também quem não for batizado na Igreja.

Um “diabinho” continua aqui buzinando no meu ouvido e querendo também entrar na história. Está falando aqui de que não queremos uma direita reacionária no país. Queremos que a “esquerda” do poder mude todos os fisiológicos e oportunistas adesistas que aí estão nos tripudiando.

Está bradando que Carlos Lupi, do Trabalho, mentiu várias vezes e superou Maluf no cinismo. Que ele é um desqualificado e que a presidente Dilma tenha a humildade de reconhecer as denúncias da mídia e o demita, para o bem da nação. Não é momento para queda de braço com a imprensa.

O “diabinho” está acusando que o Ministério do Trabalho virou um balcão de negócios das centrais sindicais, para abocanhar os dois bilhões de reais todos os anos do imposto obrigatório dos trabalhadores. É uma guerra de foice a facão (tem até morte) para ver quem mais cadastra sindicatos.

O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas) está soltando um punhado de dados onde constatam que, apesar de melhoras, as desigualdades sociais no Brasil são alarmantes, principalmente na Bahia e Maranhão que ocupam os índices maios negativos de pobreza, analfabetismo, educação, saneamento e saúde.

No entanto, sempre ouvimos dos governantes (não é de hoje) anúncios de obras e mais obras, além de números fantasiosos de crescimento e desenvolvimento. Que estatísticas são essas? Ocorre que a melhora social chega minguada, numa proporção bem menor que o aumento da fatia do bolo que fica com os mais endinheirados. É o bolo do sistema de Delfim Neto que persiste. Pensam que a fatia do Bolsa Família vai acabar com a desigualdade.

Os partidos políticos sempre disseram em seus programas eleitorais que estão trabalhando pela melhora da educação e da saúde, mas só vemos mazelas e desigualdades. Se trabalham tanto, por que os resultados não melhoram as camadas mais desfavorecidas como devia? È porque estão trabalhando para seus bolsos.

Mostram as estatísticas do IBGE que os 10% mais ricos têm renda média mensal 39 vezes maior do que os 10% mais pobres. É a cara do sistema capitalista despudorado e depravado. É o 1% contra os 99% dos clamores do Occupy Wall Street.

Em 2000, 62,2% dos domicílios tinham acesso à rede de esgoto e fossa séptica. Em 2010, esse percentual ainda é de 67,1%. Coisa mais terrível é no Nordeste onde somente 45,2% têm rede de esgoto. A melhora da qual os governantes e políticos tanto falam é vergonhosa em relação ao pico da concentração de renda. Há anos que essa cantoria vem atormentando nossos ouvidos.

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