Jamais perder a capacidade de indignação. É o ensinamento do escritor francês, Stéphane Hessel, de 93 anos, que lutou na resistência de seu país contra os nazistas. Escreveu um pequeno livro “Indignez-vous” que se tornou um best-seller. Para ele, a indiferença é a pior das atitudes.
No Brasil, cercado de corrupção por todos os lados, patrocinada pelos ministérios do Governo (existem ministérios a perder de vista) e por parlamentares, temos sobra demais para nos indignarmos como estão fazendo os árabes e outros países cujas populações demonstram suas descrenças em seus governantes.
Embora tardias, aqui começam a surgir as primeiras reações nas ruas e praças, como aconteceu no dia 7 de setembro. Movimentos prometem elevar o tom da indignação através de atos marcados para hoje (dia 20) no Rio de Janeiro e outras capitais.
Salvador ainda está em silêncio como a UNE (União Nacional dos Estudantes) e os sindicatos. Uma vergonha nacional. Conquista que sempre foi uma cidade ativista e pensante também precisa fazer a sua manifestação contra a corrupção.
Em qualquer assunto, costumo abrir falando da corrupção. Confesso que se tornou um hábito. Acho que é uma questão que deve se abordada em qualquer situação do cotidiano. No entanto, o tema mesmo é sobre as cotas estabelecidas nas universidades e agora estendidas para os concursos públicos.
É um assunto polêmico e sei que lá vem pancadaria por todos os lados, do tipo conservador, elitista, retrógrado e coisas mais. Quando se escreve não se deve temer colocar a cara a tapa. Para isso, tem que se ter personalidade para se falar o que pensa, embora muitos joguem pedras, mesmo “defendendo” mentirosamente a liberdade de expressão.
Todos os argumentos dos cotistas são insustentáveis e cheios de contradição. Por isso são raivosos contra os que se posicionam de forma contrária. Falam de reparação da escravidão que aconteceu em séculos passados e da qual somos culpados. Como assim culpados? Essa de pequeno-burguês já é muito manjada.
Se vamos falar de reparação, o país tem uma dívida enorme para com todos os pobres, sem distinção de cores, que estão há mais de 500 anos sendo explorados pelo sistema perverso do capitalismo coronelista. O açoite não é a única marca pesada numa escravidão.
A criação de cotas é mais um oportunismo eleitoreiro enganoso para fazer com que se esqueça da baixa qualidade da educação. Estamos todos nós sendo vítimas de um estelionato no ensino. Vai adiantar alguma coisa impor cotas raciais nas universidades com uma educação precária e vergonhosa? Todos vão sair do mesmo jeito, sem aprender o que deveria.
Como estão postas, as cotas só fazem dividir, segregar e discriminar os negros que têm a mesma capacidade de aprender tanto quanto os brancos pobres que sofrem da mesma maneira para terem acesso ao mercado de trabalho.
Além do mais, num país miscigenado como o Brasil quase todos são afrodescendentes com mistura européia. Na hora da cota, uma parte é negra e a outra é branca, o que é falso. Na discussão social, no entanto, todos são misturados. Não é uma grande falsidade ideológica? A cota passou a distinguir a cor. Então, o que sou? Nem eu sei mais. Pode variar.
Não vejo cotistas lutando por uma educação de qualidade. Vi um dizendo que não dava para esperar 20 anos para que o ensino melhorasse no país. Digo pois, que seria de melhor valia que se brigasse todos juntos por uma causa justa para as futuras gerações de negros, brancos, morenos ou pardos, do que ter uma cota temporária com péssima educação.
Não aguento mais ouvir esse negócio segregacionista de negros e brancos numa sociedade tão injusta onde todos os pobres espoliados, sem distinção de cores, deveriam estar unidos contra os patrões para cobrar igualdade social. Somos todos vítimas do estelionato educacional.
Argumentam por aí que os negros que tiveram acesso às cotas estão conseguindo um nível melhor de aproveitamento nas universidades do que aqueles que não foram beneficiados. Se e é assim, para que, então, mais cotas para os concursos públicos? Não contraditório? Não passa de mais uma peça eleitoreira. Além do mais, se todos vieram dessas escolas públicas, não pode existir esse negócio de melhor aproveitamento, com raras exceções.
Todos estão sendo iludidos, mais uma vez, por esse discurso demagógico dos políticos que sempre tiveram medo de um povo de nível mais elevado. Eles preferem, sem distinção de partidos, uma geração de medíocres para poder manipular. Já disseram que o sistema é cruel.
Todos deveriam sim, estar empunhando a bandeira contra a corrupção e em defesa da igualdade para todos. O que mais dói neste país é o apartheid social. Todos os pobres estão no mesmo barco. Sinto sinais fortes de ódio e racismo, o que não é nada bom. Dia desses li uma cobrança do MEC só porque teria aprovado um livro onde tinha mais fotos de brancos que de negros. Aonde vamos chegar? Ouvi alguém dizer certa feita que esse discurso do politicamente correto é vazio como pneu furado.
Para finalizar, seria bom que nos debruçássemos no nível do último exame do Enem. Das 100 melhores escolas do país, somente 13 são públicas. Dos colégios públicos participantes, 96% tiraram nota inferior à média brasileira (511,21 pontos) nas provas objetivas.
Das escolas com alto índice de participação, (mais de 75% dos alunos), apenas um estabelecimento público figura entre os 20 de comprovada excelência. Mais uma vez se comprovou a perda de substância do ensino público em relação à escola particular, com graves reflexos na notória dificuldade de acesso das classes mais pobres à educação.
Oito em cada dez escolas públicas ficaram abaixo da média no último exame do Enem. Das 20 escolas com maiores médias, 18 são privadas. Todas as 20 piores são públicas, assim como as 100 unidades com notas mais baixas. Entre as mil escolas com piores médias, 995 são públicas.
Isso é ou não é um estelionato na educação? Não adianta estabelecer cotas, se o estudante vai sair, de qualquer forma, despreparado e incapaz de enfrentar a vida na sociedade como cidadão consciente para reivindicar seus direitos. Estamos todos nós, cotistas ou não, sendo enganados e passados para trás. É o conto das cotas.
O sistema pode até induzir a família negra de classe média, em situação financeira melhor, a colocar seus filhos em escolas públicas para garantir lá na frente uma cota para entrar na universidade. Será que já não está acontecendo isso. Não posso afirmar comm categoria porque não existem provas.
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
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