quarta-feira, 31 de agosto de 2011
O PACIENTE DA CENTRAL
O paciente, como o próprio nome já diz, é paciente, mas tudo tem seu limite de paciência. Tem necessitado que suporta, chora e lamenta, mas outros se revoltam diante de tanta carga de humilhação.
O paciente que sofre de problemas gástricos e já fez tratamento de Hepatite “C” recebe uma requisição, no dia 20 de maio, do seu médico do SUS para realizar uma Colonoscopia. Tem mais de 60 anos e precisa passar por esse procedimento.
Como não tem condições financeiras para bancar um exame desse porte numa clínica particular, se dirige, no mesmo dia, ao Sistema da Central de Marcação da Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista. O funcionário anota seu telefone e orienta que espere em casa um comunicado.
Depois de três meses, no dia 24 de agosto, uma atendente liga para que ele se apresente à Central para marcar o exame. O paciente chega às 9 horas e só é atendido às 11horas. O funcionário passa as instruções e marca o procedimento para o dia 5 de setembro, com o Dr, Egmar Nogueira, no Hospital Esaú Matos.
Até ai, tudo bem, apesar do tempo e do sacrifício de espera para fazer a marcação, numa sala quente e desconfortável. O desgaste valeu a pena. Vou, finalmente, fazer meu exame no dia 5 de setembro, às 13 horas –comemora.
Mas, no dia 26 de agosto, aquela mesmo atendente liga para o paciente, dizendo que ele tem que retornar à Central de Marcação para remarcar o procedimento. O médico desmarcou o atendimento, sem muitas explicações. Começo aí o desrespeito total e a falta de consideração.
Mais uma vez, no mesmo dia 26, lá vai o paciente à Central. Chega às 13 horas (orientação da atendente para ser agilizado) e só é recebido às 16 horas. Três horas penando na sala calorenta e desconfortável. Muita agonia. Pensa em desistir, mas aguenta a humilhação da espera e do tratamento.
Às 16 horas, o funcionário lhe chama e passa, novamente, as instruções. O procedimento desta vez foi marcado para o dia 8 de setembro, por volta das 9 horas, com o médico Lafontaine Cunha Santana, ainda no Esaú Matos. Na ficha, o profissional solicitante não é mais o mesmo da requisição anterior do dia 20 de maio.
Bem, agora não tem mais volta, pensa o coitado do paciente, já estressado e revoltado com tanta humilhação e desprezo. Mesmo assim, apesar do sufoco, sai aliviado na certeza que dessa vez vai fazer seu tão esperado e disputado exame.
Que nada. No dia 30 de agosto toca o telefone. Pelo número, o paciente reconhece que é a atendente da Central de Marcação. Identifica-se e recebe mais uma aviso de que ele vai ser obrigado a se apresentar outra vez à Central para fazer a remarcação da remarcação. O Dr. Lafontaine resolve mudar o dia do procedimento.
Não dá mais para suportar. A paciência do paciente se esgotou. Reclama; diz desaforos; quer explicações e argumentos “convincentes”. Como não é culpada, a funcionária manda que o paciente procure o médico para saber o real motivo de ter mudado a data do exame, mais uma vez.
Nessa hora, toda a ira e desabafo do paciente devem ser perdoados. Não dá mais para prosseguir, desiste de fazer a Colonoscopia pedida pelo seu médico que lhe assiste e o acompanha no tratamento há anos.
Ora, se o paciente enfrentou uma batalha para marcar um exame e foi, por várias vezes, interceptado no seu intento, como ele vai ter acesso ao médico para pedir explicações quanto ao desrespeito? A obrigação é do sistema em se organizar e se planejar para que tais fatos não ocorram. A obrigação é da Secretaria da Saúde impedir que um exame seja remarcado tantas vezes.
Para finalizar, o paciente otário e besta que paga impostos para ter um tratamento digno de ser humano, sou eu mesmo, que luto para sobreviver com uma pequena aposentadoria que está sumindo com os reajustes do salário mínimo, depois de tantos anos de trabalho e sofrimento, dando sangue para este país.
Se mais tarde for acometido de um problema grave de saúde porque não consegui fazer um exame de Colonoscopia numa unidade pública do SUS, a culpa é da administração pública da Central de Marcação e da Secretaria de Saúde do Município.
É o meu grito de revolta em nome de todos pacientes de Conquista, da Bahia e de todo Brasil que sofrem barbaridades nas filas de espera para realizar um procedimento de saúde a que todos os cidadãos têm direito pela Constituição.
Em Salvador, duas mil pessoas formaram a fila dos desvalidos diante do Hospital Ana Nery para rogar por um exame. O responsável culpou o sistema digital que não funcionou, mas a culpa é mesmo do sistema político. Em Belém, no Pará, uma senhora tem o parto numa viatura do Corpo de Bombeiros por falta de atendimento. Estava na frente do hospital e perdeu seus bebês gêmeos.
Só para citar esses casos. Nesse país, nos acostumamos a marchar como soldadinhos de chumbo. “Vamos embora que esperar é não saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. É do grande cancioneiro Geraldo Vandré.
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