Alô! Alô! Meu amigo e colega de Seminário da década de 60, Paulo Machado, prefeito de Senhor do Bonfim, cuidado com os “arrastões” dos carros de barulhos estridentes e ensurdecedores dos tipos “trios elétricos”, com pagodes e axé music de péssima qualidade que invadem sua cidade na época do São João! A maioria vinda de Salvador chega destruindo o clima da festa e descaracterizando uma tradição que deixou a cidade famosa por valorizar a cultura nordestina.
Fui bem recebido pelo prefeito que se fez presente todos os dias na área de shows, recebendo de braços abertos os visitantes, mas fiquei assustado com a descaracterização do legítimo São João “PÉ-de-Serra”, legado que nos deixou Luiz Gonzaga, o “Gonzagão”. A Prefeitura tem procurado preservar a tradição com suas quadrilhas e apresentações, mas senti que a festa está perdendo forças para o rebolado dos sons infernais e mecânicos que vêem de fora.
Mesmo nos palcos da Prefeitura numa imensa área de 20 mil metros quadrados, com capacidade para mais de 50 mil pessoas, as bandas misturam o ritmo com lambadas e outras batidas do rock das guitarras e das baterias, incluindo o rebolado das bundas das mulheres de pernas grossas e homens musculosos de pouco cérebro.
O próprio show de Ademário Coelho e sua banda não é mais autêntico, a não ser pelas letras de algumas músicas tradicionais do tempo. O “São João” dele já está “suingado” e misturado com outros ritmos. Algumas bandas da região ainda procuram conservar a cultura com a sanfona, o zabumba e o triângulo.
As comidas e bebidas típicas como a canjica, o mingau de milho, a pamonha, o amendoim, o “quentão” e o licor desapareceram para dar lugar ao cachorro-quente, o sanduíche, o hambúrguer e outros preparados artificiais americanos com gosto de papel e plástico como as músicas que querem introduzir no nosso São João.
Além de tudo isso, a exploração nos preços é outro fator negativo. O pessoal do interior incorporou a cultura de Salvador de explorar o visitante, cobrando preços exorbitantes nos produtos, que nem juninos são. Pra começar, a pessoa paga R$10,00 para estacionar o carro.
Para agradar e atrair público e dinheiro, as prefeituras procuraram contratar grupos de “músicos” comerciais atrelados ao mercado que nada têm a ver com o São João, só porque são considerados famosos. Cada vez mais os jovens vão se distanciando da nossa cultura e se alienando no que existe de mais superficial e degradante em termos de letras e composições musicais.
O que mais vi e observei nas ruas e praças de Senhor do Bonfim durante os festejos juninos foi uma invasão de “bárbaros” (poluidores sonoros) com carros adaptados em “trios elétricos”, soltando fumaça e agredindo o meio ambiente com sujeira. Não ouvi um som de forró tocando nesses trios. Nem isso. Eles não querem nem saber de forró, mas só perturbar pelas ruas e exibir seus “troféus” musculosos, num clima carnavalesco do axé music.
A grande maioria dos jovens (homens e mulheres) não foi curtir o São João, mas um tal “Forro do Esfrega”. O restante do tempo foi dedicado a desfilar nas ruas e portas de bares com seus carros de som, exibindo o lixo musical. E tome rebolado. Vi grupos que contratam carroceiros para agredir os animais com suas bebedeiras. Muita gente nem vai para a área dos shows públicos da Prefeitura.
Presenciei e fiquei horrorizado com um grupo que dava cachaça para um burro, e cada um deles mais pesado se revezava montando no lombo do animal, totalmente estressado e irritado. Não dava para distinguir quem era mais animal e burro. As autoridades e a Justiça precisam ficar atentas a estes fatos macabros e punir os agressores, conforme a lei.
Por falar em agressão, a “guerra de espadas” durante toda noite de quinta-feira (dia 23) nas ruas e praças da cidade foi outra que provocou terror aos visitantes. A Justiça tentou impedir na véspera, mas recuou diante dos falsos argumentos de que a “guerra” faz parte da cultura e da tradição da festa. Só se for cultura da violência. E eles falam em paz e amor.
O que observei foi muita gente, principalmente turistas, fugindo e correndo para se livrar das espadas. Eu mesmo fui vítima quando transitava de carro numa das ruas. Por duas vezes tive que mudar o veículo do estacionamento para não ser incendiado ou ter vidros e portas estouradas, causando uma explosão.
Até os blocos locais, voltados para o período junino, como o “Jegue Elétrico”, estão contaminados pelos trios, com a mistura de ritmos de pagode, arrocha e lambadas. Alguns grupos estão mais para batucadas.
Apesar de tudo, o prefeito Paulo Machado tem procurado manter a tradição da festa com um palco de forró numa praça do centro e uma feira de artesanato, além dos shows, bandas de pífanos e quadrilhas na área do São João. No entanto, os “arrastões” poluidores estão desfigurando o verdadeiro São João.
As prefeituras não podem ceder a essa contaminação e têm que ficar atentas, não pensando somente na arrecadação, optando pela quantidade, ao invés da qualidade. A Prefeitura é a responsável direta e representante do povo na preservação da cultura. Não pode ceder aos caprichos do mercado artificial do vazio cultural.
Por sua vez, o Governo Estadual através de seus órgãos só deve liberar recursos para a festa com a condição de o prefeito aplicar tão somente em atividades que dizem respeito à tradição cultural. Como está, em pouco tempo vamos ter 417 micaretas de São João no interior do Estado, verdadeiras aberrações e transgressões aos festejos juninos nordestinos.
Está de parabéns a Prefeitura de Vitória da Conquista que está sabendo resgatar a verdadeira tradição do São João, com o “forró pé-de-serra”, com as quadrilhas, com as casas de taipa, com as exposições de materiais e objetos do interior nordestino, com comidas e bebidas típicas e um conjunto de apresentações culturais da terra.
Só assim podemos, aos poucos, ensinar os jovens a respeitar as tradições culturais e vivenciar o verdadeiro São João, uma festa de todos. A Prefeitura de Conquista está no caminho certo, embora não tenha tido o reconhecimento da mídia como merece. Uma pena que a visão mercadológica esteja acima da preservação do bem cultural, mas só tentando se consegue o objetivo.
segunda-feira, 27 de junho de 2011
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