O artigo “A Era da Mediocridade”, de Ruy Espinheira Filho, ainda rende. No Espaço do Leitor de A Tarde, meu colega, inclusive de sala de aula de Jornalismo, Carlos Eugênio Junqueira Ayres, rebateu o deputado Luiz Alberto, dizendo estar de pleno acordo com tudo o que Ruy escreveu.
Em referência ao artigo, segundo ele, nada mais é do que defender o mérito como critério nas diversas áreas da sociedade. “Estão sim, tentando mediocrizar o povo, em vez de encaminhá-lo à excelência. Em segundo lugar, acho que o preconceituoso foi o deputado Luiz Alberto, ao puxar o discurso para o campo racial, coisa que Ruy Espinheira jamais abordou em seu artigo”.
Prossegue, afirmando que “o deputado procura, em sua vã imaginação, encontrar cabelo em bola de sinuca, inclusive sendo deselegante, chamando o escritor de racista”. Acrescentaria ainda que são cabeças desse tipo que preferem fazer apologia à mediocridade do que lutar para que o Governo preste serviços de qualidade para o povo.
Sou a favor das cotas sociais e defendo que as universidades federais do nosso país sejam reservadas para os estudantes comprovadamente pobres, sem distinção de cor. Antes das cotas, somente os mais ricos tinham maiores chances de penetrar os portões das universidades públicas.
Agora, tirando a parte que cabe aos cotistas, os ricos que estudam em bons colégios particulares arrebatam as vagas dos pobres que não são negros cotistas. A disputa continua desigual e injusta, mantendo a outra parcela de pobres de fora. Estão vendo racismo em todos os lados. O que houve com a interpretação racional?
Quem mais está sendo sacrificada com esse sistema é a camada de menor poder aquisitivo que tem que procurar as faculdades privadas de nível educacional que deixa a desejar, sofrendo para pagar uma mensalidade e ainda sujeita a ficar fora do mercado por falta de preparação curricular.
Os ricos não foram atingidos porque têm o poder do dinheiro na mão para galgar o ensino público de nível superior. Na história brasileira e do mundo, não foram os pobres quem criaram a escravidão e a exclusão social, mas a política colonizadora das elites burguesas-capitalistas, para manter suas fortunas e a concentração criminosa da renda.
No mesmo espaço do jornal, o leitor Walter Barreto de Alencar escreve que o artigo de Ruy Espinheira provocou urticária em membros da aguerrida facção dos defensores das cotas. Comenta que alguns vieram a público num flagrante desrespeito ao direito de livre expressão do pensamento.
Definitivamente, está proibido se ter senso crítico neste país. A grande maioria se acomoda para não ser fritado na fogueira da inquisição dos radicais. Não se pode mais pensar e questionar. É preciso coragem para defender a sensatez.
Ridículos, por exemplo, os comentários de Galvão Bueno e Casagrande (até chorou) na despedida do jogador Ronaldo dos gramados do futebol no jogo da seleção brasileira contra a Romênia. Entre os exageros e derrames de confetes, o jogador foi recebido aos berros como rei, herói e exemplo de vida a ser seguido por todos.
Herói do quê? Do combate à corrupção? Da luta pela ética? Onde ficam os homens de grande saber científico e cultural, ou daqueles que sempre defenderam a justiça e o bem-estar da Nação? É uma tremenda inversão de valores. Gosto de futebol, mas vivemos sim, na era da mediocridade.
SIGILO ETERNO
Mais uma decepção do Governo do PT que tanto pregou mudanças de esquerda. Para atender aos caprichos reacionários dos ex-presidentes Fernando Collor e José Sarney (vitalício presidente do Senado), o Governo apressou a retirada do Senado (Corte dos Lordes) do projeto sobre o sigilo de documentos públicos (o nome já diz tudo). O projeto estava sob regime de urgência. A explicação esfarrapada para o ato é de que a intenção é receber a colaboração de ex-presidentes.
Os dois ex-presidentes defendem sigilo eterno de documentos ultrassecretos, o que trava de vez a abertura dos arquivos da ditadura e dos torturadores. Para historiadores, sigilo eterno é coisa típica de regimes autoritários.
A retirada da urgência significa que os documentos vão cair nas mãos de Collor, coligado do PT e presidente da Comissão de Relações Exteriores. O crime compensa. Sem a urgência, o projeto tende a cair no esquecimento. Que democracia é essa onde a sociedade é proibida de ter acesso à informação?
Na Câmara ficou definido que documentos com o carimbo de ultrassecretos seriam divulgados no máximo em 50 anos depois de sua elaboração. Nenhum segredo no âmbito do Estado justifica deletar a verdade do povo. Alguns documentos precisam ser guardados por determinado tempo, mas não eternamente.
A militante baiana do Grupo Tortura Nunca Mais. Diva Santana, irmã da guerrilheira Dinaelza, não reconhece a competência de Collor para estudar a questão e defende a abertura imediata dos arquivos da ditadura. Para ela, esses documentos não representam risco à soberania.
Sobre o papo furado de Sarney de que os documentos podem “reabrir feridas”, o presidente do Tortura Nunca Mais da Bahia, Joviniano Neto diz que a maior sequela da tortura é a falta de reconhecimento social desse sofrimento. O Quartel continua nos espiando de longe.
Vamos ver se agora a “República das Mulheres”, ou do “Salto Alto” (Dilma, Gleisi e Salvatti), como já está sendo denominando o Governo, não se deixa dobrar por essas figuras puídas que sempre arrastaram o país para o obscurantismo. Parece que as idéias começam a clarear quando já existe uma posição e disposição para que o sigilo não seja eterno. Que não seja mais uma armação para nos enrolar e nos iludir.
quarta-feira, 15 de junho de 2011
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