È trágico, mas são nas tragédias que os nossos políticos governantes aproveitam para marcar mais pontos. Derramam suas lágrimas em público para apagar suas mazelas, pelo menos temporariamente. Aparecem com soluções que não passam de paliativos.
Após o massacre dos adolescentes num colégio do Rio de Janeiro, logo aparecem numa coletiva as figuras do governador e do prefeito remoendo palavras sentimentalóides e soltas como se estivessem narrando do local os passos do criminoso e a aflição dos alunos fugindo dos tiros.
Sempre estiveram distantes das políticas públicas de proteção e defesa dos direitos civis e sociais dos cidadãos mais humildes, mas aparecem nas catástrofes como guardiões, com discursos inflamados e demagógicos. Agora a solução para o problema é o desarmamento. Uma forma de jogar debaixo do tapete anos de atrasos nas políticas públicas.
No calor da emoção, lançam as vítimas com seu poder de eloquência, dizendo frases tocantes de consolação como se sempre estivessem caminhando ao lado delas. Depois se afastam até acontecer outra desgraça.
Num linguajar de nível marqueteiro, se excedem com sentenças impróprias e descabidas que passam despercebidas dos ouvintes e da imprensa.
Para ficarem bonitos na fita, esquecem de seus cargos e atacam desumanamente o criminoso, chamando-o de animal e soltando outras grosserias. Usam e abusam para ganhar admiração. Imediatistas, agora se fazem de bonzinhos, solidários e condoídos.
O povo se esquece da falta de segurança, inclusive nas escolas. Se houvesse policiamento mais reforçado na cidade, inclusive em frente dos colégios, os alunos teriam sido socorridos mais rapidamente e até evitado que doze fossem sacrificados. O estudante ferido só foi encontrar um policial a duas quadras de distância.
A imprensa, como sempre, superficial e apelativa, não explorou esse fato, mas achou de fabricar um soldado herói que apenas fez seu trabalho pago pela população para isto. Aliás, a mídia se especializou em fabricar heróis para aumentar sua audiência, e o povo engole e deixar se envolver no cipoal espalhafatoso da mídia.
No lugar do exemplo e do equilíbrio, o tom dos gestos do governador transmite uma sensação de incentivo ao linchamento do atirador (isto se vivo estivesse). Aliás, fizeram um linchamento verbal popular, típico de multidão enfurecida, fora do racional, que quer matar, como se viu nas cenas de vídeos.
Da multidão que avançou as escadas do colégio, cruzando atordoadamente os corredores pra lá e pra cá, boa parte não tinha parentesco com as vítimas. É impressionante como o ser humano fareja desgraça.
O indivíduo que cometeu o desatino e a loucura é digno de compaixão por se tratar de uma pessoa doente mentalmente, psicologicamente perturbada. Supostamente (a mídia também pulou esta parte) ridicularizado e desprezado na escola onde estudou, o rapaz não soube superar o trauma e o sofrimento da rejeição.
Todos nós somos animais cheios de fraquezas. E se o governador Sérgio Cabral se referiu ao animal selvagem, está espécie não comete matanças indiscriminadas. O selvagem caça o outro para sobreviver. Devia ter mais compostura e serenidade em suas palavras.
Baixar o nível e xingar o assassino de animal ou monstro não traz as vítimas de volta à vida. Nestas horas se espera de um governante o espírito humanista, não de oportunismo para capitalizar politicamente popularidade com a dor alheia.
Vivermos num mundo individualista e sem solidariedade onde o que mais importa é o ter. As crianças estão sendo instruídas a viver assim, não respeitando a diferença do outro ao seu lado. O ensinamento hoje gira em torno da competição e em ser o melhor a qualquer custo se quiser sobrteviver. É a sociedade da indiferença.
OS BURACOS DAS COBERTURAS
Do outro lado, a mídia televisiva monta seu espetáculo para criar seus “heróis” do momento que, inocentemente úteis, se deixam filmar para contar as histórias de horror. Seus egos são inflados com a magia das câmaras filmadoras até sentirem o cheiro perfumado da fama. Usam e abusam.
O sargento e seu companheiro que atuaram de acordo com suas funções delegadas e pagas pelo povo são transformados em heróis e quase roubam a cena do jornalismo que foi o fato da chacina de 12 estudantes. Como poderia ter sido outro, o policial atendeu o chamado e sua obrigação era conter a ação do atirador.
Depois de explorar ao máximo as lágrimas e as expressões de dores das famílias das vítimas, a mídia foca suas lentes nos soldados e deles extraem e sugam todo sentimentalismo. Empolgados com o assédio, os militares se sentem famosos e contam até suas vidas particulares. Um deles diz que sua filha lhe beijou. Só risos no meio de uma tragédia horrível.
No meio disso tudo, não ficou nada esclarecido se foi suicídio, ou se o criminoso foi morto depois de alvejado pelo sargento. Apenas disseram que nesses casos, os quais já ocorreram em várias partes do mundo, o assassino sempre se mata depois. Nesse fato, as coberturas jornalísticas estão cheias de buracos e falhas. Todas reportagens fazem a mesma coisa.
Para completar o espetáculo, uma rede passa um vídeo tremido feito por um amador que fica o tempo rodando a câmara e fazendo perguntas idiotas para os feridos, repetindo que vai chamar o bombeiro. Nessa hora, como notícia, todo boato vira fato no telejornalismo. É muita pobreza.
Um comentário:
Só no mundo animal vemos atrocidades assim, concordo com Cabral, um animal irracional e com sede de sangue de crianças inocentes.............
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