domingo, 13 de março de 2011

NA RESSACA DO CARNAVAL



A ressaca do carnaval exclusão de Salvador não traz só viroses, doenças sexuais e dor de cabeça para quem encheu a cara e gastou suas parcas economias na senzala da Casa Grande. Traz bordoadas e críticas, mas no próximo ano tem mais com as mesmas doses de separação e as mesmas imagens e enquadramentos porque os donos têm maior poder de manobra.

Para não encher mais o saco queria só citar algumas observações e críticas feitas à festa de uma semana (antes eram quatro dias de só alegria e desfiles culturais) por gente de vários níveis, inclusive artistas. Márcio Victor, cantor do Psirico, na madrugada de sábado, disse que seu povo está cansado de sofrer. No Espaço do Leitor do jornal A Tarde, por exemplo, o povo clama por mudanças.

Na pegada do desabafo, um leitor de um jornal da capital escreveu que a maior parte da Bahia sofre com este formato que a festa assumiu e ganhou forças nas últimas décadas, por ter se tornado em uma festa excludente, elitizada, tomada pela mercantilização e sem segurança para quem não pode pagar pelo “passaporte da alegria” (abadá).

Na quinta-feira a imprensa noticiava que das 1.226 ocorrências violentas registradas nos três circuitos do carnaval, 78%, ou 956 aconteceram no percurso Barra-Ondina (Dodô). Houve um crescimento de 22% nos casos de agressão corporal, passando de 138 em 2010 para 220 neste ano. Desses casos, 62% ocorreram no circuito Dodô.

Aí vão dizer que é lá onde tem a maior aglomeração de pessoas, mas é também onde se dá a maior exclusão social no desfile dos poderosos donos de blocos, trios e camarotes. Para variar um pouco, neste ano Daniela Mercury ganhou de Ivete Sangalo em tempo de exposição nas televisões e outras mídias eletrônicas. Em 2012 a coroa pode voltar para Ivete.

Uma das notícias mais comentadas foi a barba de Bel Marques, ou melhor, a falta dela. Dizem que o cara tirou a barba por R$2 milhões e paga R$30,00 a um cordeiro por dia. Teve um ano que foi a filhinha de Ivete. Na mesmice jornalística, ou burrice, Cláudia Leite também é sempre o foco das imagens.

Já ficou comprovado que o Carnaval de Salvador é feito por gente de fora e para gente de fora. Agora os gestores da festa ficam discutindo números grandiosos de que Salvador recebeu 500 mil turistas e achando que os 750 mil do Rio de Janeiro e os 700 mil de Recife e Olinda são falsos. Dá para confiar neles? Que vergonha!

O cantor Gerônimo soltou sua bofetada afirmando que o carnaval do apartheid, ou a folia baiana, é decadente como manifestação popular. Virou um grande negócio. Só brinca bem quem tem dinheiro – segundo ele.

Os donos vêem de lá e dizem que só profissionalizaram a festa, tornando os blocos em empresas. Não revelam seus ganhos, mas cada empresa dessa deve faturar entre R$15 a R$20 milhões por ano. Ainda sonegam impostos e pagam uma mixaria de R$30,00 por dia a um cordeiro.

O próprio secretário de Turismo do Estado, Domingos Leonelli que disse que a festa foi um sucesso, reconhece que o tal do axé deve se mirar nos blocos afros que são os mais bonitos da cidade com suas alas de abertura. “Os abadás são excessivamente simples”.

Falta ser dito também que os blocos afros dos movimentos negros que tanto falam de racismo, preconceito e discriminação adotam procedimento de separação não admitindo a participação de brancos. É, mas o argumento deles sempre são válidos e compreensíveis. Basta de contradições! Basta de anomalias!

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