Que me perdoem os leitores, mas volto a falar do Carnaval de Salvador, mesmo me arriscando ser enfadonho e chato. Vou procurar ao máximo ser curto, grosso e direto, sem medo de que me joguem pedras e lanças venenosas.
Em referência à festa baiana, a jornalista Rachel Sheherazade, da TV Tambaú, afiliada paraibana da rede SBT, disse que o carnaval só dá lucro para proprietários de trios elétricos e para uns poucos artistas de Salvador. Fiquei surpreendido de ter sido uns dos assuntos mais produzidos no Twitter.
Digo isso porque a jornalista não falou nada de novo, só o óbvio. As forças que comandam o evento sabem disso e não estão nem aí para as críticas. Faltou acrescentar que os donos de camarotes e de hotéis também saem com os bolsos cheios. Só eles. O resto é resto.
A mídia, especialmente a televisada (termo arcaico para muitos), faz parte ainda desse esquema elitizado que separa ricos dos pobres, colocando estes últimos para esfregarem seus suores nos corredores apertados do asfalto. É a parte que lhe cabe neste latifúndio.
Não acredito nesse negócio de que a mídia é formadora de opinião. É coisa superada. No caso específico do carnaval, ela é moldada, conduzida e formada pela opinião dos poderosos. É arrastada pelas conveniências capitalistas do poder do dinheiro.
Quem manda mesmo são os donos da festa, e a mídia apenas acompanha o processo de cobertura para agradar e também tirar seu quinhão daqueles que usurpam dos espaços públicos para ficarem mais endinheirados ainda.
É uma troca de favores, e a mídia em geral está ali para escrever e falar besteiras e baboseiras. Ela não está nem um pouco preocupada em mostrar a verdade. Ela simplesmente acompanha o jogo do jeito que é jogado. Não está ali para formar opinião e apontar o certo e o errado, nem o outro lado de lá.
No caso das televisões, por exemplo, basta ligar num canal que transmite o carnaval e lá está o foco das câmaras nas “estrelas” de Ivete Sangalo, Cláudia Leite e Daniela Mercury. Não muda. A conversa e o falatório são os mesmos dos anos anteriores.
Quando não sãos as três nos mandam de lá o Béu, do Chiclete, Durval Lelis e o Braw. Muito raramente se mostra Margareth Menezes e algum afoxé. Tanta coisa jornalística para ser apresentada, mas preferem a mesmice.
É uma pobreza jornalística que não tem mais tamanho. Mas, tudo, meu amigo, é proposital e conveniente para atender os interesses deles e daqueles que mandam no carnaval. Vez por outra, no seu corpo editorial, deixa alguém emitir alguma crítica, e não mais que isso. Se o cara insistir, seu nome é logo excluído e execrado.
Sempre disse e repito que no Brasil, o pior e o maior racismo não é o racial, mas sim o social. Este sim, condena todos à escravidão. Um negro com grana consegue freqüentar qualquer camarote de luxo, mas um pobre branco nem chega perto. O negro e o branco sem dinheiro são jogados no aperto do asfalto. Vão arrastar cordas e catar latinhas no chão.
A mídia e o carnaval dos poderosos donos de trios de batucadas de axé, blocos e camarotes são irmandades inseparáveis e bajuladoras um do outro. É uma confraria inexpugnável com os mesmos interesses pecuniários que não quer nem ouvir falar em mudanças para que o carnaval volte a ser uma festa popular com o desfile de suas tradições culturais.
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