DOMADORES E DOMADOS
A personalidade do indivíduo é hoje disfarçada e maquiada pelos ditames de um sistema opressor colocado como padrão que só visa a competição do capital a qualquer preço. Foi montado um esquema cruel pelos domadores teóricos do mercado que deve ser seguido à risca pelos domados. As pessoas perdem suas identidades e são grampeadas com o crachá da opressão. Não há alternativa para quem sair da linha do politicamente correto.
A personalidade do indivíduo é hoje disfarçada e maquiada pelos ditames de um sistema opressor colocado como padrão que só visa a competição do capital a qualquer preço. Foi montado um esquema cruel pelos domadores teóricos do mercado que deve ser seguido à risca pelos domados. As pessoas perdem suas identidades e são grampeadas com o crachá da opressão. Não há alternativa para quem sair da linha do politicamente correto.
No caso de uma entrevista para emprego, por exemplo, existe um modelo ditado cheio de regrinhas para se apresentar na futura empresa que está lhe oferecendo um trabalho. A papagaiada de falsidades começa pelos trajes, cores das roupas, como apertar a mão do chefe ou diretor, como olhar para ele, como abrir a porta, como se sentar, como responder as perguntas e outras baboseiras mais do mundo fútil e artificial que despreza o ser humano. Ele só é visto como produto descartável.
Diante de tantas normas ensaiadas, o candidato ali, na grande maioria das vezes, não é ele mesmo na sua essência, mas um poço de mentiras, embora lhe diga no treinamento que não pode mentir. O mais robotizado, muitas vezes, ganha a vaga, mas, só tempos depois o patrão descobre que aquela pessoa não é aquela pessoa que foi domada para atender a padronização dos teóricos. São fórmulas manipuladoras do caráter humano.
Vivemos num regime da ditadura das normas, e o ser humano é simplesmente um objeto que pode ser moldado de acordo com os conceitos que viram verdades nas mãos dos domadores. Para não se perder tempo com leitura, o currículo tende a ter o mesmo formato de uma carteira de identidade plastificada.
A única coisa que se ensina hoje é conjugar o verbo competir. O resto é jogado fora. Não vale a pena perder tempo com a valorização humana. Só o cliente é tudo para ganhar dinheiro. O empregado é apenas uma peça que tem por obrigação fazer girar a roda. Não passa de uma engrenagem no inferno capitalista como no filme de Charles Chaplin.
Nunca consegui entender porque os donos do saber da área de gestão empresarial colocam sempre o cliente como a peça mais importante de uma empresa e não o funcionário. Talvez porque pela merreca que ganha já é sua obrigação ser escravo e até sofrer assédio moral. É como se a pessoa passasse a ser dono de alguém como um cachorro domado. Nada de sentimentos e emoções.
CARNAVAL DO APARTHEID
Mudando de assunto, mas que também tem muito a ver com o nosso sistema discriminatório e concentrador de renda, o carnaval de Salvador da divisão de classes entre ricos e pobres, negros e brancos vai tocando seu lixo musical para turista ver. Dos trios ensurdecedores saem as “letras” e gestos pornográficos nos rebolados repetidos pela multidão que segue as coreografias das bundas bombadas e dos músculos cheios de hormônios. Lá embaixo no asfalto suado e apertado, a senzala faz o que mandam os senhores dos casarões. A juventude vai à loucura e obedece aos sinais.
É o carnaval do apartheid descolado da cultura popular. Não é mais a festa popular onde ricos e pobres ocupavam os mesmos espaços. É o carnaval dos camarotes confortáveis e luxuosos de ar condicionado que não exalam odores de mijo e suor. Do alto de seus palácios, os grãfinos assistem a massa se arrastar atrás dos trios no empurra-empurra dos corpos nos corredores estreitos que sobraram das avenidas tomadas pelos donos da capitania.
Os blocos, máquinas de fazer dinheiro, separam o povo com cordas arrastadas e protegidas por gente pobre e humilde feita escrava. Os cordeiros recebem migalhas de um sanduíche e uma mixaria de R$30,00 por dia, enquanto os donos dos abadás se fartam de comida e bebidas caras.
Os puxadores de cordas de mãos calejadas do trabalho braçal são impelidos pelas circunstâncias a expulsar com socos os pobres camaradas para além dos limites do território dos ricos que se divertem.
Por sua vez, os governantes liberam milhões de reais dos contribuintes para a festa, com o argumento de que o carnaval gera bilhões em dinheiro e oferece empregos para centenas. Só não falam que a maior fatia, mais de 80% vão para os bolsos dos donos de blocos, trios, hotéis e empresas de turismo, elevando mais ainda a concentração de renda e a desigualdade social.
O resto fica com os barraqueiros e vendedores ambulantes, e para um grupo de trabalhadores sem qualificação, como cordeiros e montadores de camarotes. Para ganhar uns trocados para ajudar suas famílias, as crianças também entram no serviço escravo, mas as “autoridades” querem impedi-las de trabalhar.
Num Estado com os maiores índices de pobreza no Brasil (o segundo pior IDH) é muita hipocrisia e demagogia querer aplicar leis que deveriam ser feitas para condenar as elites egoístas que há anos controlam o carnaval da maior exclusão social do mundo. Para os excluídos sobra o cassete e a porrada da truculenta polícia militar.
Existe muita conversa para boi dormir e para a mídia que não abre a caixa preta do carnaval, por conveniência e por incapacidade mesmo. O negócio mesmo é todo mundo cair na folia da aberração cultural e do turismo sexual como é visto pelos gringos lá fora nas propagandas das bundas e das popousudas mulheres nuas com suas danças e letras eróticas de bota na boquinha da garrafa, ou vou te comer. É um filme de pornochanchada.
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