segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

OS FARAÓS DAQUI



Por longos anos mumificados, os egípcios se ergueram de suas tumbas contra os faraós. O coração do Egito revoltou-se contra Nasser, Anwar Saddat, Hosni Mubarak e tantos outros faraós que roubaram e sempre trataram seu povo com desprezo e escárnio. As dinastias e os reis se perpetuaram e ainda perpetuam no mundo árabe (Líbia, Tunísia, Iêmen, Irã, Marrocos e Barhein) com seus reinados cheios de lendas e fantasias de mil e uma noites.

As histórias do mágico Aladim que saia dos candeeiros achados nos desertos encantavam e encantam os corações dos pobres, crianças e velhos súditos que são “atendidos” nos seus três desejos. Até hoje esses mandatários encarnam esses mistérios vivendo como reis cercados em seus palácios de ouro, mas o encanto está se quebrando porque o povo não acredita mais nessa realiza. Não dá mais para enganar as esperanças com fábulas ou histórias de riquezas que não passam da imaginação.

O sonho abafado e oprimido há anos de justiça, liberdade e dignidade social está se tornando realidade, sem o radicalismo e o fundamentalismo islâmico dos falsos profetas de Maomé. Dessa vez não se escuta gritos fanáticos de Alá, mas de liberdade e melhora de vida.

“O Povo quer a queda do regime”, ou “rejeita uma constituição feita para escravos” – são slogans mais ouvidos para acabar com o saque do dinheiro público. Dessa vez o povo não ficou esperando descer uma dádiva dos céus. Não sacrificaram suas almas por promessas de salvação e de lotes nos céus.

Dessa vez, o povo do Egito não precisou de um Moisés para tirá-lo das trevas e das garras do Faraó. Dessa vez, não foi Deus quem mandou as pragas para forçar o Faraó a libertar seu povo. Foi o próprio povo que resolveu acabar com as pragas do Faraó. Por muito tempo o Egito foi humilhado por conquistadores vindos de outras paragens pelo seu grande Nilo como Marco Antônio, Alexandre e até ingleses que fizeram partilhas de suas terras e espalharam as piores pragas.

Nossa terra também está infestada de pragas que destroem nossas lavouras e invadem nossos lares. São gafanhotos e formigas gigantes. Temos também um Faraó que reina absoluto num palácio de ouro chamado Congresso Nacional. Ou melhor, temos vários faraós de corações empedernidos e insensíveis aos clamores dos desvalidos.

Não temos um Moisés para enfrentar os faraós com seu cajado e fazer dividir ao meio o Mar Vermelho para a passagem do seu povo injustiçado, enganado e explorado, para uma terra prometida. Também agora o Egito não precisou de um Moisés para trilhar seu destino. Tiveram vários para imprimir a marcha da vitória. O povo não precisou abandonar suas casas e fugir para o deserto, sem pão e água.

O povo árabe está seguindo o exemplo do Egito e não está mais disposto a ceder às violências e aos recolhimentos pecuniários dos emissários dos faraós e de seus reis tiranos. Não deveria ser com sangue, mas assim está sendo. Sãos os reis que não querem uma revolução pacífica.

Na nossa terra, os faraós do Congresso também nos ultrajam e fazem pouco de nós. Abusam de nossa paciência e não acreditam em nossa opinião. Deletam nossas queixas e nos mandam bananas. Os faraós daqui ainda reinam com seus mantos de seda e púrpuras, com coroas de pedras preciosas sentados em seus tronos de costas para o povo.

Eles ditam suas leis que só beneficiam seus reinados e reinos. Repartem entre si nossos bens e nossas vestes e cobrem de pérolas suas concubinas. Se nossa terra está devastada e injustiçada pelos faraós, então mirem-se no exemplo do povo do Egito que se transformou em multidões de moiséses gritando contra os corruptos e usurpadores do poder.

Há anos que os faraós daqui dessa terra cospem e escarram na cara do nosso povo que só serve para dar o voto. Há anos que só se importam com suas luxúrias e orgias, fatiando nossos bens. Há anos que escravizam e jogam-nos nas masmorras. Há anos que nos colonizam e ditam suas regras malditas.

O Egito também é aqui, terra dos faraós das leis só para eles, das benesses e das maracutaias. Se os corações estão partidos de dor e revolta, não os deixai sangrar até morrer sem nada fazer. O único bálsamo de cura é o combate bem combatido.

O Egito daqui precisa também devorar suas esfinges para sair das lendas, das fantasias individualistas e cair na realidade. Temos também três pirâmides enigmáticas e cheias de mistérios. Nas daqui ainda vivem os faraós que se banqueteiam e confabulam tramas sórdidas para depenar o reino dos iludidos.

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