
Os casarões de Belmonte estão em ruínas 
Cerâmicas gigantes de dona Dgamar Muniz
Quer espantar o estresse e relaxar; ver o pôr-do-sol no rio Jequitinhonha; ouvir o canto melodioso dos sabiás; pedalar de bicicleta nas ruas planas e arborizadas; apreciar casarões coloniais dos séculos XVIII e XIX; dar um mergulho no túnel do tempo e banhar sua alma com o bálsamo do vigor, então se anime e vá a Belmonte, a terra dos escritores e poetas Sosígenes Costa e Folrisvaldo Matos. Ah! Tem ainda a artista escultora do barro, dona Dagmar que já correu mundo com suas peças encantadas e gigantes.
Quer espantar o estresse e relaxar; ver o pôr-do-sol no rio Jequitinhonha; ouvir o canto melodioso dos sabiás; pedalar de bicicleta nas ruas planas e arborizadas; apreciar casarões coloniais dos séculos XVIII e XIX; dar um mergulho no túnel do tempo e banhar sua alma com o bálsamo do vigor, então se anime e vá a Belmonte, a terra dos escritores e poetas Sosígenes Costa e Folrisvaldo Matos. Ah! Tem ainda a artista escultora do barro, dona Dagmar que já correu mundo com suas peças encantadas e gigantes.
Dona Dagmar é a artista das jarras e torres gigantes
Pode ser também “BelSabiá”, “MonbelSabiá” ou “Sosígenopolis” como prefere chamar o saudoso poeta e escritor Ildásio Tavares, conforme dedicatória em um dos seus livros, feita com sua mão imortal para o ilustre filho da terra Waldomiro Fernandes Melo, W.F.Melo, ou simplesmente “Wadoca”, o grande mochileiro do mundo, contador de histórias e estórias.
Pois eu fui a Belmonte, ou “BelSabiá”, no médio sul do litoral da Bahia, entre Santa Cruz Cabrália e Canavieiras. Realizei um desejo carnal e espiritual que vinha alimentando com pão e mel. Não vá pensando em encontrar agitação de belas praias cheias de morenas e loiras de corpos esculturais e exibidas. Nada de muvucas loucas dos lixos descartáveis dos axés musics, dos pagodes e dos arrochas que envenenam nossas poluídas almas.
A cidade pacata onde ainda se pode dormir com as portas abertas não tem muita pressa para amanhecer e anoitecer. O dia vai lento a passar, deixando você saborear o manjar dos deuses. As noites são longas, poéticas e meditativas. Não é propriamente uma Passárgada, de Manoel Bandeira, mas tem muita passarada e lá você é rei, com direito a uma moqueca de peixe deliciosa na Taberna.
Uma pena que o Patrimônio Histórico e Arquitetônico da cidade portuguesa com certeza na Bahia esteja se perdendo e caindo com o desgaste do tempo. O canto contínuo dos sabiás é um alerta e um lamento contra o estado de abandono dos casarões - muitos já vieram abaixo e outros foram descaracterizados com as reformas criminosas - e pede socorro para que o patrimônio seja urgentemente recuperado.
É uma responsabilidade dos governos municipal, estadual e federal em conjunto com toda comunidade, principalmente dos intelectuais e das pessoas mais instruídas e comprometidas com a memória da histórica Belmonte, ou “BelSabiá”, como queira poetar. Deve ser uma luta suprapartidária e não exclusivamente do meu amigo e companheiro “Wadoca” que tem uma dedicatória do punho do saudoso escritor Saramago. A cidade está carente de um forte abraço de todos, especialmente de seus filhos mais ilustres.
OS CASARÕES HISTÓRICOS
Os mais antigos e importantes prédios da pacata cidade onde já funcionou um hospital e um hotel, do século XIX, estão prestes a desabar se o poder público não tomar as devidas providências. É muito lamentável o que está acontecendo, e a história não vai jamais perdoar os belmontenses. Alô Domingos Leonelli, do Turismo, e o novo secretário de Cultura! Não deixem essa memória tão preciosa desaparecer. A situação é muito séria e grave. O estado dos belos casarões é precário e faz pena de se ver. Ali podem ser montados serviços de utilidade pública ligados os turismo e à cultura.
E a praia de Belmonte com a bela escultura de um gigante caranguejo? Está degradada e precisando de cuidados do poder municipal. As ruínas das barracas e bares que caíram e foram arrastadas no meio do ano passado pela força das ondas do mar ainda continuam lá. O setor privado precisa de ajuda e os visitantes agradecem.
O estado também pode ajudar a recuperar a praia, tendo o cuidado de obedecer o equilíbrio sustentável. Belmonte não precisa ser um outro Morro de São Paulo nem uma Porto Seguro onde a agitação desenfreada e desordenada de turistas tirou o sossego e poluiu o meio ambiente.
Bem, meu amigo “Wadoca”, figura que é a cara da terra de Sosígenes, vamos mudar de assunto e falar de prazer da alma e do corpo. ”Wadoca” foi amor à primeira vista com direito a xingamentos e um mandar o outro para aquele lugar nas discordâncias da Ágora de dois. Se for a Belmonte, ou “BelSabiá”, não deixe de conhecer dona Dagmar Muniz de Oliveira, de 71 anos, que há 50 trabalha com cerâmica, esculpindo potes, jarras, torres, morenas, panelas e outras figuras e objetos gigantes para o mundo.
Seu atelier, ou oficina, como queira, fica no bairro da Visgueira, bem às margens de um dos fios da velha barba amarela do Jequitinhonha que se espalha nas terras lamacentas dos Igarapés que abrigam os Guaiamuns, os Caranguejos, Siris, e os Aratus. Suas mãos escorregam poeticamente no barro virgem, dando forma precisa a bichos de várias espécies, inclusive homens e mulheres.
Depois de curtir essas preciosidades e visitar a Biblioteca Sosígenes Costa, a colonial sede da Ceplac, a praça histórica da Igreja Matriz, o casario ainda mantido com sua estrutura original, o famoso Farol inspirado na obra do engenheiro francês Eiffel e outros prédios históricos, pegue uma canoa motorizada e voe nas asas do Jequitinhonha e do Pardo, cortando os Igarapés até Canavieiras. Se delicie com as espumas flutuantes do encontro das águas salgadas de Castro Alves com as doces de Guimarães Rosa vindas lá das montanhas sertanejas das Minas Gerais.
Tive ainda o privilégio, como poucos, de conhecer o sítio do arretado e porreta” Wadoca” que me presenteou com belas flores tropicais, destacando o imponente “Imperador”. Fui de canoa deslizando pelas barbas do “velho amarelo” que inspirou “Flori” e Sosígenes. Fui brindado pelo seu Raimundo, seu ajudante, com manjares dos deuses como aquela água de coco adocicada e divina.
Ah! Já ia me esquecendo e não ia me perdoar pela falha. Não deixe de curtir o pôr-do-sol no amarelo-verde do Jequitinhonha, tomando aquela gelada e batendo um bom papo solto e cadenciado. Aprecie a natureza e a sonolência do tempo. Você até esquece dele e ele de você. Pra que pensar em existência e sentido!
Retornei com saudades, levando na alma o canto lamuriante e alegre do sabiá já que não pude trazê-lo preso comigo como bem me advertiu “Wadoca”. Não seria nunca mais recebido pela gente daquela pacata terra belmontense dos sabiás. Preferi roubar só o seu canto e deixar o pássaro lá fazendo seu concerto nas mangueiras e nas copas das árvores frondosas que cobrem de verde toda Belmonte.
Só não vou contar a você, “Wadoca”, e a mais ninguém como consegui roubar o canto dos sabiás. É um segredo, e se eu contar vai quebrar o encanto e nunca mais vou ouvir o canto melodioso de lá. Eu ainda vou voltar para ver esse patrimônio restaurado por essa gente que não quer ver sua memória se acabar.
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