segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

A REVOLTA DA NATUREZA



Nem é preciso ser profeta para se saber que neste ano como foi em 2010 seria marcado por tragédias naturais, talvez que não fossem de proporções tão alarmantes e destruidoras assim. A natureza é impiedosa e não perdoa quem a agride. Enquanto os pobres derramam suas lágrimas com perdas materiais e de vidas humanas, os verdadeiros culpados continuam impunes dando o ar de cinismo com falsas ações reparadoras.



Os mais atingidos ainda são as camadas mais carentes, mas os ricos começam a sofrer também a ira dos deslizamentos de terras e das enchentes dos rios e riachos provenientes das chuvas torrenciais, como aconteceu no início do ano passado em Angra dos Reis.



Não se trata apenas da constituição geológica dos solos naquela região serrana do Rio de Janeiro, mas da ocupação desordenada das habitações, sem nenhum controle dos governos passados desde os tempos do Brasil Império.



Sobre as irregularidades habitacionais não é preciso ir muito longe. A Serra do Periperi onde suas encostas foram invadidas ao longo dos anos é um exemplo flagrante do desrespeito do homem e da falta de presença dos poderes públicos para coibir a destruição. Alías, aqui o poder público sempre foi o maior culpado pela delapidação da Serra que pode provocar uma tragédia.



Os ricos avançam as encostas por ganância, instalando suas mansões luxuosas e confortáveis. Já os pobres constroem por necessidade. Ocorre que quando o rico sobrevive às tragédias não fica desalojado porque possui imóveis e bens na capital (Rio de Janeiro no caso específico) ou em outros lugares mais seguros.



Os pobres se amontoam nos ginásios de esportes ou colégios das cidades arrasadas pelos desastres. O rico não vai para alojamentos coletivos ou fica na desgraça com uma mão na frente e outra atrás. Muitas vezes ainda se beneficia dos seguros. Os ricos enterraram seus mortos em cemitérios do Rio.



Há pouco tempo estive naquela região serrana do Rio de Janeiro e fiquei observando o perigo a que estão expostas as pessoas penduradas no alto dos morros de onde escorre água diariamente em forma de cachoeiras. Hotéis, casas de veraneios e prédios invadem as florestas.



Os poderes públicos fazem vistas grosas e ainda realizam e permitem edificações nas encostas, inclusive obras de embelezamento para atrair mais turistas e visitantes. Em Nova Friburgo, por exemplo, toda beleza artificial feita pelo homem foi simplesmente desmanchada pela fúria da natureza.



Bem, os fatos e as causas da maior tragédia natural da história do Brasil, tendo o homem como o protagonista do mal, já foram largamente divulgados pela mídia, especialmente a televisiva, que mais uma vez aproveitou para arrancar mais pontos em suas audiências.



É o chamado espetáculo da desgraça humana onde os “milagres” e os sofrimentos são computados e estampados por diversas vezes nas telas. Os vilões da história agradecem porque quase não são citados como responsáveis e culpados. Ainda roubam algumas cenas para aparecerem como salvadores, prometendo milhões e soluções mentirosas.



A solidariedade das tragédias cuida de unir mortos e vivos e consolar os desamparados, soprando as dores. O governo anuncia verbas; um dinheirinho para o chamado aluguel social; e uma quantia irrisória de R$4.500,00 do Fundo de Garantia para quem trabalha e tem carteira assinada. As doações brotam de todas as partes e as pessoas agradecem chorando com bênçãos dos céus. Os enviados viram deuses até tudo cair no esquecimento.



Muita comoção, muitas lágrimas derramadas, muitas personagens “heróis” que salvam vidas, muita destruição por todos os lados e doações por terra e ar que irão logo se repetir em outros lugares do país com as mesmas intensidades e sentimentos de perdas e horror.



A mídia vai estar lá e vamos assistir aos mesmos filmes de sempre sentados em nossas poltronas, ou ler as manchetes dos jornais e as notícias da internet através dos modernos smartphones. Os governos vão aparecer para anunciar os milhões que se dissolvem com sonrisal no meio dos caminhos.



É essa a cara do Brasil que disputa a tapa nos fóruns internacionais um lugar de destaque como potência econômica, mas não sabe cuidar e proteger sua própria casa, nem tem a mínima estrutura para prevenir e avisar o surgimento de possíveis tragédias da natureza.



Eles não são nossos legítimos representantes. São impostores querendo aparecer e tirar proveito da miséria e da ignorância de um povo conformado demais com os desmandos. É um povo sem guia, sem um verdadeiro líder.



E isso aí meu amigo e escritor Edmilson Santos Silva que, como muitos outros, não suporta mais tanta superficialidade, contradição e alienação juntas e está recolhendo seu cajado para outros embates em campos diferentes. Para mim é um prazer nos encontramos para uma Agora com outros companheiros ou camaradas de lutas e de idéias polêmicas.



Queria aqui fazer um apanhado dos fatos e acontecimentos do ano passado, marcado por violências e tragédias naturais que vão se repetir ao longo de 2011 porque o homem não pensa em mudar seu comportamento individual. Alguém já disse por aí que individualmente o Brasil vai bem, mas vai mal no âmbito coletivo.



Para terminar, a degradação e a negligência ao meio ambiente estão aqui bem perto de nós. É só dar uma olhada para a Serra do Periperi por tantos anos agredida e invadida pelo homem. Os casebres estão nas encostas, construídos sem nenhuma infraestrutura e fiscalização do poder público, aliás, o maior culpado pela destruição da área.



A sorte é que as características do solo são diferentes, e a Serra não é tão alta assim. Os riscos de deslizamentos de terras podem ser menores, mas todas as vezes que chove areais e pedras são despejadas nas ruas da cidade, entupindo bueiros e redes de esgotos. Não estamos livres de uma tragédia.

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