Confesso ser chato fazer retrospectiva do ano que se passou porque parece que os fatos se repetem, com algumas tragédias e catástrofes a mais da natureza. Quem é o maior culpado por tudo? Existem pontos positivos também. Fazia muito isso quando atuava na Editoria de Economia do jornal A Tarde. Em economia era mais chato ainda.
Mas, vamos deixar de “bolodoro”, de “nariz de cera” para irmos diretos ao que interessa. Aqui em Vitória da Conquista, o mais chocante (para alguns não) foi a chacina praticada por policiais no bairro Alto da Conquista, podendo ser denominada de “Chacina do Alto da Conquista”. Não dá para esquecer.
Naquela madrugada de 28 de janeiro de 2010 o terror deixou os moradores apavorados com a invasão dos policiais e a matança de 11 pessoas. Até hoje três adolescentes, inclusive a menina Vanessa Morais, de 14 anos, continuam desaparecidos. As marcas não se apagam jamais. O pior é que não houve justiça e não se falam mais nisso.
Tudo leva a crer que foi um crime de extermínio em retaliação ao assassinato do PM Marcelo Márcio Lima. O mais lamentável é que pessoas que se dizem representantes de classe deram apoio às execuções sob o argumento mesquinho de que foi um ato de limpeza da polícia contra os bandidos. O que foi feito para punir os culpados pela arbitrariedade?
Na área da saúde, o crescimento e as melhorias realizadas a partir do Governo do PT em 1998 emperraram e muitas pessoas estão amargando longas esperas de meses para conseguir uma consulta médica. A pergunta que se faz é o que aconteceu com a saúde? Os recursos não evoluíram? A estrutura não está dando mais conta da demanda que cresceu? É preciso que haja maior entendimento entre setor público e privado para que as coisas funcionem.
A educação de qualidade e de tempo integral ainda está muito distante em Conquista como no resto da Bahia e no Brasil. Os professores penam para desempenhar suas funções, principalmente na zona rural. O teto salarial de R$900,00 (uma porcaria) no ensino fundamental ainda não chegou a Conquista. É verdade que a Prefeitura reformou e ampliou escolas, oferecendo mais vagas, mas a qualidade ainda está longe do ideal.
Em 2010 a Prefeitura Municipal realizou algumas obras de infraestrutura, saneamento e pavimentação de ruas nos bairros Petrópolis, Santa Cecília e no Cristo da Serra do Periperi, mas continua empacado o projeto do Poço Escuro. As praças necessitam de melhor tratamento e urbanização. Não existe só a Tancredo Neves.
O comércio, um dos maiores da Bahia, recebeu novos grandes estabelecimentos como o Atacadão, Comercial Ramos, o G Barbosa, ampliação do Shopping Conquista com mais lojas, entre outros. Em termos econômicos é inegável o avanço do município, gerando mais empregos. A construção civil continua bombando, com índices de crescimento superiores ao nacional (mais de 10%). Vitória da Conquista hoje é a sexta maior economia do Estado, com perspectivas de se desenvolver mais ainda.
No entanto, o comércio continua confuso, travado e feio, principalmente devido a poluição sonora e visual. O Shopping a Céu Aberto prometido há nos e discutido em 2010 na Câmara de Vereadores com CDl, Sebrae e outras entidades ainda não saiu do papel. Alegam que não existem recursos para concretizar o projeto.
Para ser mais realista e dizer a verdade nossa representação parlamentar é fraca para o tamanho da cidade. As entidades de classe são frágeis também e carecem melhorar suas estruturas. A mobilização e a articulação deixam muito a desejar. Está faltando mais diálogo entre poder público e privado. O executivo precisa ser mais flexível e dialogar mais com a sociedade em geral.
Esperamos que os deputados eleitos Waldenor Pereira (federal) e José Raimundo (estadual) melhorem está situação e tragam mais recursos e projetos para Conquista a partir deste ano. Pelo porte da cidade, podíamos ter mais representantes, com compromissos sérios para trabalhar.
Não é preciso ir muito longe para dizer que se nos próximos anos Conquista não for contemplada com grandes obras de infraestrutura, especialmente nas áreas de transporte e saneamento, haverá uma paralisia nas atividades mais essenciais ao seu desenvolvimento. Como conseqüência haverá também um freio nos investimentos de empresas locais e de fora.
É só olhar e analisar a situação do tráfego de Conquista. As vias principais não estão mais comportando tantos veículos, inclusive que entram da região. O aeroporto, cujo projeto ainda não saiu do papel (tanto discutido em 2010) é uma vergonha para a cidade. Somente agora estão dizendo que o local foi escolhido. Faltam mais mobilização e pressão junto aos governos estadual e federal. É preciso que todos os segmentos da sociedade cheguem juntos, unindo capital e trabalho.
Na política, o candidato a presidente da República pela oposição (PSDB) José Serra ganhou no primeiro e segundo turnos na terra do PT. Houve um fortalecimento da oposição no município e o PT vive o drama da divisão. É preciso maior reflexão por parte do comando para o bem da comunidade. Na próxima eleição para prefeito, em 2012, vamos ter mais candidatos, inclusive da base aliada, com direito a segundo turno.
Estou me estendendo muito, mas tinha mais coisa a comentar, embora nem todos concordem. É natural. Na área da cultural houve avanços com a implantação do São João tradicional e do Natal da Cidade. No entanto, outras linguagens como a literatura, o teatro e as artes plásticas, ou visuais, como queiram, estão esquecidos e são menosprezados. O Festival de Cinema precisa ser ampliado e mais estruturado.
Nos últimos dez anos Conquista deu um pulo com o avanço do ensino superior com novas faculdades e na saúde pública e privada, aquecendo a economia como um todo. Esses segmentos parecem estagnados e caminham num ritmo mais lento. Isso não é bom.
Bem, ia fazer uma rápida retrospectiva sobre os principais fatos marcantes na Bahia e no Brasil no ano passado, mas terminei me concentrando em Conquista. Fica para o nosso próximo encontro.
Um comentário:
Prezado jornalista Jeremias Macário, muito boa retrospectiva de 2010. Especificamente, meu comentário, diz respeito aos lamentáveis acontecimentos de 28/01, que traumatizaram nossa cidade pela violência dos atos perpetrados. As famílias enlutadas, igrejas, associações e grupos de movimentos sociais, se uniram em um ato público no dia 26/02 e iniciaram a construção do "Fórum Permanente em Favor da Vida e Contra a Violência". Este trabalho continua em andamento, muito embora, as autoridades competentes ainda não tenham se pronunciado oficialmente sobre o desfecho dos casos. Para mais informações, nos reunimos na Casa da Cidadania, antigo CEMAE.
Um fraternal abraço!
Maris Stella
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