quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

CHEIO DA MESMICE


Todo final de ano e início do outro é sempre aquela mesmice pasmaceira, alienada e enfadonha. Os consumistas espantam um pouco o tédio, mas depois entram em depressão e cansaço. Os corações “caridosos e sensíveis” logo ficam endurecidos e suas mentes com ímpeto solidário voltam ao aconchego do individualismo.

Balanço da vida de final de ano parece mais coisa de loja de varejo que depois das vendas faz sua contabilidade e coloca o que sobrou em liquidação por preços mais baratos. Só que com gente é diferente, mas, infelizmente, sempre está sendo tratada como mercadoria e objeto.

A tecnologia não tem mais tantas novidades assim para nos deixar eufóricos e esperançosos. No entanto, os trambolhos eletrônicos dos minúsculos PCs e os monstrinhos irritantes dos celulares são adorados e venerados como deuses mágicos pelos colecionadores de plantão. Dão suas vidas por eles.

As descobertas científicas de curas na saúde só fazem a morte recuar um pouco para os afortunados, enquanto os bilhões de excluídos ficam de olhos arregalados, achando que também serão beneficiados e se transformarão em imortais.

Toda essa parafernália tecnológica tornou o homem mais monstro e angustiado, se refugiando e se agarrando aos símbolos, slogans e marcas falsas e enganosas. É uma busca desenfreada pelo sentido da vida a qualquer custo e sacrifício. As religiões vendem suas promessas de salvação.
A existência toma a forma e aparência deslumbrantes nos presentes, nas pedras preciosas, nas roupas coloridas, nos fogos, nas mansões, nas estéticas, nas plásticas corporais, nas bebidas e orgias dos prazeres. A alma continua perturbada e devoradora.

Os jornais, as televisões, os rádios e os sites trazem todos os finais de ano um monte de baboseiras sem fim com previsões óbvias, enganosas e estalionatárias de pais-de-santo, babalorixas, umbandas, tarólogos, numerólogos, astrólogos, bruxos e outros adivinhos dos búzios, das cartas e dos astros para falarem que assim caminha a humanidade. É o jogo das generalidades e probabilidades dos acertos.
SEM QUESTIONAR O ROTEIRO

A imprensa não importa mais com conteúdo e qualidade e nos enche o saco de mesmices porque sabe que aceitamos automaticamente sem questionar esse roteiro traçado para todo final de ano. É com essa mesmice das antigas festas pagãs dos celtas e romanos que as pessoas se sentem realizadas, alegres, saciadas e satisfeitas, pelo menos nesse curto período de ilusões. Está no pacote também a depressão depois de cumprida a obrigação da mesmice.

Mudanças só serão bem vindas e aceitas para os casos dos tablets com o sucesso do IPAD, smartphones, as redes “sociais” do Facebook, do Orkut, do Twitter e os rastros que os GPS fazem encantando nossos passos.

Nas ruas, os “estudantes tarifeiros” saem com cartazes em defesa de passagens mais baratas, mas pouco se importam com a corrupção endêmica e o aumento canibal dos políticos do Congresso que é o pior mal do Brasil. Não se pensa mais no coletivo. Aliás, foram cooptados e abduzidos por discos voadores do além.

O melhor mesmo é continuar na mesmice e nas promessas de mudanças de todos finais de ano. Já é um método prazeroso de nossas realizações. Não podemos mais passar sem esse roteiro e nos agarramos como se fosse uma bóia que nos salva do naufrágio. Gostamos mesmo de nos enganar e seguir a trilha da mesmice.

Por que mudar só na passagem de ano que nada mais é que um calendário cristão, criado pelo papa Gregório XXIII? Poderíamos estar no ano 5.771, conforme a contagem lunar dos judeus, ou no ano 1.432 do islamismo. Não importa, o tempo é relativo. Se a pessoa quer e tem força pode mudar sua vida a qualquer hora ou dia do ano. Você faz o seu tempo.
A DITADURA DA COMPETIÇÃO

Nas festas de final de ano e nas badaladas do outro, as pessoas fazem coisas e praticam atos como máquinas programadas pelo capitalismo. Elas ficam mais dóceis e imunes a agirem de forma contrária do que está escrito no roteiro. O diretor da peça é duro, rígido, cobrador e não admite de forma alguma qualquer atitude inovadora ou rebelde. Contentamos-nos com nossas personagens, mesmo sendo coadjuvantes, fracassadas ou frustrantes.

O ano entra e nos consideramos civilizados demais e evoluídos como parte das engrenagens tecnológicas. Continuamos correndo na disputa desvairada desumana e individualista por um lugar no espaço, sem olhar para os lados. Na conquista por este pequeno pedaço capitalista malvado seguimos cegamente a ordem de pisar e dar a rasteira em quem estiver pela frente.

Pela ditadura da competição a qualquer preço as pessoas hoje estão se acostumando com o assédio moral nas empresas, se sujeitando a humilhações dos bárbaros que berram e xingam. Vive-se hoje num regime nazifascista em nome de uma competitividade que só olha números e produção. O humano e as relações de colaboração e solidariedade foram desprezados, tudo pela disputa do ouro de tolo como já falava o poeta cantor Raul Seixas.

No próximo encontro vamos mais falar sobre esse caminho desumano e os principais acontecimentos do ano que se passou, marcado pelas catástrofes e tragédias provocadas pela natureza que não suporta mais a insensibilidade do ser humano.

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