Não consegui segurar a saudade dos meus tempos de criança quando ainda existia linha férrea de passageiros na Bahia e resolvi viajar de trem na Europa, dispensando o avião. De Paris comprei uma passagem de trem para a velha Lisboa, fazendo o transbordo em Írum, na fronteira com a Espanha.
Foi uma viagem de 20 horas, passando por Bordoux e outras cidades da França, sem contar as pequenas vilas espalhadas pelos campos verdejantes, recheados de vinhedos e outras lavouras que hoje abastecem o mercado consumidor. A grande maioria das terras é de pequenas propriedades com suas vilas de 100 a 200 casas onde se cultiva a agricultura e se pratica a criação de gado leiteiro, sustentado por fenos.
Por onde passei, não vi grandes extensões de terras abarrotadas de bovinos e capim por todos os lados. Apesar de cansativa pelo tempo, foi uma viagem prazerosa, de observação e meditação. No lugar dos grandes latifúndios dos tempos feudais, pequenos lotes bem cuidados e bem estruturados. Fiquei imaginando que aquele homem do campo, diferente do nosso, não tem nenhum desejo e vontade de morar nas grandes cidades para sobreviver.
Quando criança, viajei muito de Piritiba a Senhor do Bonfim num trem chamado Maria Fumaça por ser movido a lenha. Era velho e já dava sinais de decadência, mais era divertido e gostoso. Não tinha noção de que tudo aquilo caminhava para o fim.
Depois de mais de 40 anos lá estava eu de novo viajando num trem, agora movido a eletricidade, bem mais moderno e confortável. Embora com outra estrutura, a sensação era a mesma e mais forte pelas recordações. Senti tristeza do nosso país, cujos governantes trocaram o transporte ferroviário pelo rodoviário. Por causa dessa opção, o brasileiro paga caro pelos produtos, sem levar em consideração o impacto ambiental que provocam carros e caminhões pesados.
Mas vamos voltar á nossa viagem. Com a proximidade da cidade de Írum, gente nova de outras nacionalidades vai ocupando as poltronas e a língua aos poucos vai mudando do francês para o espanhol, o português e até o italiano. São pessoas mais alegres que falam mais alto e discutem variados temas, inclusive os familiares. Assim como as pessoas, as paisagens também vão mudando.
De Írum para Lisboa cruzando parte da Espanha, também se percebe as diferenças de classes sociais. Nota-se que são pessoas com menor poder aquisitivo e o trem é mais velho, menos confortável e balança muito, parecendo que vai despencar de alguma serra.
Ao lado, um casal de jovens portugueses faz algazarra e fuma muito quando o trem para nas estações. Não consigo dormir direito, preocupado com suas atitudes. Um senhor na frente, com aspecto de operário ou agricultor, trazia na sua sacola de viagem café e comida. Mastigava o tempo todo.
Quando o dia amanheceu pude apreciar novamente as paisagens, se bem que me sentia sonolento e cansado. O casal continuava a perturbar e a fumar como caiporas. Também fumo e fui até lá fora numa das paradas, mas só consegui dar duas tragadas. Os dois desciam e no apito do maquinista pongavam no trem, acompanhando o embalo. Lembrei novamente dos tempos de menino, mas não tenho mais mobilidade no corpo para isso. O tempo nos faz assim. Troquei algumas palavras com o casal, mas não fui muito longe. Aliás, os dois desceram próximo a Lisboa e me deixaram mais sossegado.
Desci na Estação Santa Apolônia, em Lisboa, por volta das 12 horas num dia ensolarado. Fui direto para o hotel na Praça Marques de Pombal, aquele estadista que governou Portugal no século XVIII, se não me engano por volta de 1775, justamente na época do grande terremoto que destruiu quase toda Lisboa. Foi ele também quem expulsou os jesuítas do Brasil.
Com uma estátua imponente em sua homenagem, a praça é bonita, mas o trânsito em torno dela é confuso. Depois de me refazer da viagem com um bom banho, resolvi dar os primeiros passos na cidade e fui percebendo semelhanças com a nossa Salvador, não somente na questão da arquitetura.
No centro histórico do bairro Rosio você entra no túnel do tempo, pegando um bonde que sobe ladeiras e leva as pessoas até o Castelo de São Jorge. Se você está indo pela primeira vez, não deixe de pegar o elevador Santa Justa até a Cidade Alta. Lá você pode visitar o Mosteiro do Carmo e seu museu antropológico, muito interessante. Ah! Na praça tem a casa onde viveu o poeta maior Fernando Pessoa e ao lado a barraca de revistas aonde ele ia todos os dias comprar o jornal.
Mais na frente já no bairro de Belém, onde se saboreia um delicioso pastel, o museu do Coxe, o Mosteiro dos Jerônimos, o Monumento aos Descobridores e a Torre de Belém de onde partiram Cristovam Colombo e Pedro Álvares Cabral para a descoberta de novas terras, são locais que não podem deixar de ser visitados.
Claro que existem outros lugares muito agradáveis e importantes para serem conhecidos, mas cito estes principais. O Jardim Zoológico é um deles. Não podia deixar de ir a Fátima. Foi outra bela viagem de ônibus por estradas bem asfaltadas e sinalizadas, cortando campos de vinhedos e oliveiras.
Durante os dias que passei em Portugal pude acompanhar melhor os noticiários e visitar o jornal Diário de Notícias. O país vive uma séria crise financeira e social na educação e na saúde. É nítida a diferença econômica de Portugal com relação a outros países da Comunidade Européia. Para começar, lá os ônibus e aviões atrasam sempre.
Para reduzir custos com mão-de-obra presenciei uma coitada de uma mulher responsável por conduzir o elevador Santa Justa. Fazia de tudo, desde orientar turistas, receber o dinheiro do ingresso, passar o troco e fechar as portas. Fazia tudo isso sozinha num esforço estressante.
Quando estive lá, a discussão principal entre os parlamentares da situação e da oposição era sobre a universalização da saúde e a melhoria da qualidade da educação. Mais de 400 mil pessoas sofrem em filas nos hospitais para fazer uma consulta que demora de seis a oito meses. Parecido conosco. Os desempregados já ultrapassam 600 mil pessoas. O salário base é de cerca de 400 euros, perto de mil reais, bem distante da França e da Inglaterra, por exemplo. A situação por lá não é nada boa.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
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