quarta-feira, 17 de novembro de 2010

CURTAS REFLEXÕES

Com tantas informações, com tanta tecnologia e comunicação virtual para lidar, já parou para pensar um pouco que não temos mais tempo para refletir sobre a realidade e os absurdos que acontecem no dia-a-dia de nossas vidas, no Brasil e pelo mundo globalizado?


Entre a multidão que cruza por todos os lados com destinos diferentes, o moço chega com um celular no ouvido e um laptop num restaurante de um aeroporto e senta numa mesa vazia. Ele abre o aparelho, ainda com o celular ligado, e começa a navegar com seus deuses virtuais.


Olho e observo que o moço bem trajado não vê ninguém ao seu redor. É como se ele estivesse sozinho num quarto de apartamento, isolado num emaranhado de comunicação que o tornou incomunicável. Sua interação é apenas com a máquina. Perdeu-se a solidariedade e o calor humano.


Faz um sinal frio para o garçom e pede uma coca-cola com sanduíche. O moço das máquinas não ouve o barulho das conversas e o tilintar dos pratos e talheres.
Não prestou atenção no outro que sentou ao seu lado com um lanche para engolir rápido, e nem viu quando um passageiro descuidado passou apressado e derrubou uma cadeira da sua mesa. Não ouviu nada.


A maioria das pessoas ali está com o celular ligado. Não importa quem passa. O tempo é o carrasco. Todos são estranhos num planeta desconhecido. Todos pacientes doentes internados no mesmo hospital, mas ninguém liga, a não ser do outro lado de lá, no virtual.


TIRIRICA - Aleluia! Aleluia! Habemus Tiririca! A Justiça deu tempo e o deputado eleito por São Paulo com mais de um milhão de votos passou um mês tomando aulas particulares para fazer um ditado durante um dia. Farsa montada. Uns dizem que foram votos de protestos contra a conduta nefasta dos políticos e outros que foram votos de confiança para mudar. No Brasil não temos somente votos comprados, mas de solidariedade, por ser mulher, negro ou minoria, sentimental, emotivos, por beleza e por uma cesta mesmo. Passam longe os votos por competência e honestidade. Cuidado para você não sair do politicamente correto e se dar mal! Corro esse risco.


OPERAÇÃO CARCARÁ – Uma ave extinta do Nordeste serviu de inspiração para prender prefeitos e corruptos do erário, do nosso suado dinheiro, para ser mais claro. Quando menino na roça, lembro de minha mãe preocupada quando um carcará piava longe e rondava o terreiro de casa. Tinha que proteger as galinhas porque a ave levava os pintinhos no bico, sem falar em outros filhotes de pássaros. Tentaram prender os carcarás, mas forças protetoras ocultas soltaram os animais de volta aos seus habitats. Para deleite, vão continuar comendo os pintinhos e os ovos das nossas criações.


LATIFÚNDIO DA REPÚBLICA – Passadas as eleições, a briga agora é pela divisão do Latifúndio da República que não é nada pequeno. Estica de um lado, estica do outro, mas no final cada um vai receber o lote que lhe cabe num cercado de pasto verdejante. Todos vão pastar felizes, enquanto as ovelhas magras observam o gado engordar. A briga é feia, mas tudo acaba bem.


REPÚBLICA SINDICALISTA – Nossa república, que não é nada pública, é dividida em várias capitanias hereditárias e agora temos também a República Sindicalista lá de cima recheada de grana por todos os lados para defender e aplaudir o patrão. No Dia do Trabalhador nos brindam com shows e faz de conta que defende a raia lá debaixo. É o estrangulamento da vida, ou a lei do mais forte que leva vantagem e fica com o bolo.


JOVENS LIBERADOS - Nesta semana, jovens em São Paulo, na avenida Paulista, agrediram barbaramente sem motivos outros jovens. Foram presos, mas logo soltos pelas nossas malditas leis da desigualdade, com a benevolência dos pais. Belo exemplo para esta sociedade hipócrita, desfacelada, corrompida, subornada e podre pela criação de filhos mimados.


PALAMADA - Mais uma vez, cuidado! É que só se pode falar agora o “politicamente correto”. Estou me arriscando em ser massacrado e apedrejado pelas novas concepções. Talvez se esses jovens agressores de São Paulo tivessem levado umas palmadas quando crianças não tivessem espancado seus semelhantes. Levei muitas palmadas, inclusive de professores, e só ajudaram na formação do meu caráter. Não quero dizer aqui que sou perfeito. Não estou falando de espancamento dos filhos. Podem dizer que sou velho, conservador, reacionário e ultrapassado. Quem diria que um dia em minha vida fosse ter a lei da palmada! Tempos falidos!


PORRADA NOS PROFESSORES - Com a lei da palmada invadindo nossos lares já desestruturados, os jovens alunos agora descem a porrada nos professores quando estes tentam ensinar, ou dão uma nota baixa. No meu tempo se respeitava professores e idosos, mas isso hoje é coisa ultrapassada. As crianças mandam e os pais obedecem. Por lei, são obrigados a satisfazer seus desejos e caprichos de cada dia. Podem ficar frustrados, traumatizados e recalcados com uma palmada.


Agora já é tarde e estou cansado. Podemos falar sobre mais coisas na próxima semana. Por sua vez, as máquinas sugaram nosso tempo de ler, pensar e refletir. Corro o risco de ser xingado e execrado. Como já sou idoso, posso levar umas palmadas. São curtas para pensar e contestar. Não é uma contradição? Estou usando esta máquina para condenar o isolamento e o individualismo humano. Tem seus benefícios, é claro.

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