Depois de alguns dias no Velho Mundo, voltei a tempo para votar e conferir a velha patifaria na política brasileira. Sem educação de qualidade e cultura (para os políticos é bom permanecer como está), o povo continua sem saber votar, inclusive literalmente. Os Tiriricas da vida e os coronéis donos do voto de cabresto proliferam por todo nosso país, deitados em berço esplêndido de olho nos cofres públicos. Vamos falar mesmo no popular, sem essa de politicamente correto.
Na Bahia, por exemplo, é só dar uma olhada na lista dos eleitos. Em pleno Século XXI e depois de 25 anos de ditadura militar, em nome da democracia a política se tornou um bom negócio mafioso e meio de renda para famílias e gerações passadas das oligarquias. São saúvas resistentes aos venenos.
Os pais se elegem para a Câmara Federal ou Senado e os filhos para a Assembléia Legislativa. É um descarrego (não é macumba) de votos feito com precisão. É uma leitura que dificilmente falha. Estão sempre pontuando os leões, os negromontes, os vieiraslimas, os magalhães, os carneiros, os mendonças e outros clãs com seus filhos, mulheres e parentes. Pode apostar que dá na cabeça.
Peça chave nisso é o domínio fechado de territórios sob o comando dos prefeitos, vereadores e cabos eleitorais que ganham para isso. Nos pequenos municípios, principalmente, é costume na época de eleições o eleitor das grotas indagar para o prefeito: Dr. “Vamo votá em quem dessa vez”?. Aí é só fazer o mapa dos votos e correr para o abraço. Depois entra o “cientista político” e fica com conversa fiada para explicar o fenômeno. É tudo muito simples e claro. Não precisa de cientista e de pesquisa. O mais é “blábláblá” para boi manso dormir.
No Brasil, os fichas sujas tiveram expressiva votação, a exemplo do Jader Barbalho, no Pará, e o Maluf, em São Paulo, que inclusive solta gargalhadas e diz que é o mais limpo do Brasil. Sem conscientização política, o povo entra na onda do deboche e vota nos tiriricas para o país ficar pior.
No Distrito Federal, Joaquim Roriz indica sua mulher como fantoche para ser governadora e ainda elege duas filhas. Uma vergonha para as mulheres que defendem a participação e a seriedade na política. Os eleitos sorriem e dão entrevista declarando que o povo sabe escolher seus candidatos. Eles sabem que assim podem eleger suas mulheres, filhos, netos, irmãos e suas amantes.
Eles aperfeiçoaram muito bem o esquema e não querem jamais uma reforma política. Como está, está muito bom. É só encher o “emborná” e o ego do pobre eleitor de que ele é muito importante (somente neste dia) e que ao votar se torna um cidadão de primeira classe. Se não sabem votar (a grande maioria – mais de 60% - é analfabeta funcional que mal sabe ler e escrever) os coronéis ensinam.
Sobre o Tiririca, de São Paulo, vi na rede Record o comentário político de uma mulher, não sei muito bem se cientista, que dizia que este fenômeno já faz parte da cultura do brasileiro e lembrava casos parecidos como Cacareco, no Rio de Janeiro, dentre outros pelos estados. Dizia ainda que não via insatisfação política no povo e que o Tiririca com essa votação pode acordar e até fazer um bom trabalho como parlamentar. Tudo para ela era normal.
Fiquei horrorizado com sua fala, de certo forma incisiva e impositiva como correta. Ainda mais porque os outros que participavam do programa não questionavam. Ora, estes “fenômenos”, na verdade, traduzem falta de cultura. Considero, por assim dizer, uma ainti-cultura.
A repetição dos tiriricas é mais uma prova de que depois de muitos e muitos anos, não evoluímos. Pelo contrário, é uma mostra da decadência e do fracasso na política. Por sua vez, não se faz um Tiririca da vida ter conteúdo e capacidade política para gerir bem seu mandato de uma noite para o dia.
O esquema Tiririca foi bem montado e calculado por um grupo de aproveitadores que viu nele um grande arrastador de votos daquela banda do povo desiludido que diz que se também estivesse lá faria o mesmo.
Quem votou nele não tinha consciência que estava elegendo mais três desconhecidos além dele. No outro dia da eleição ouvi muita gente na Praça Barão do Rio Branco comentando que se fosse aqui na Bahia também votaria em Tiririca. Não precisa explicar mais nada. Vida longa aos coronéis e aos que estão chegando da escola de seus pais e antepassados.
Nestas eleições quem mais perdeu foi o Lula que saiu arranhado, mesmo com seus 80% de aprovação, tendo o bolsa família como maior cabo eleitoral da história. Êta programa social bom, moço! Não dá para entender como o presidente tem 80% de aprovação e sua candidata fantoche só consegue pontuar 46% na urna. Na verdade, sua indicada é tão fraca que não houve transferência de votos. Tem coisa errada. Existe muito artificialismo nos números.
No mais, tudo continua como Dantes no Quartel de Abrantes. A eleição foi a mesmice piorada, sem alternativas de candidatos, embora digam por aí que Marina Silva era uma. A não ser o Plínio Arruda que fez o discurso do PT de antes e disse ser possível sonhar com um socialismo humano, o que vi foi um grupo falando a mesma linguagem das oligarquias, das elites e da burguesia. É o mesmo que trocar seis por meia dúzia.
Do Velho Mundo li alguma coisa na mídia sobre o escândalo de Eurenice Guerra, da Casa Civil, e o Lula culpando a imprensa por tudo. Estamos andando numa linha perigosa do poder acima de tudso.
Sobre minha viagem a Europa e minhas impressões do Velho Continente de hoje, seu povo e outras coisas mais, eu conto depois. Só para deixar minha opinião, o mundo está cada vez mais desumano e difícil para se viver. No mais, conversamos depois.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
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