segunda-feira, 14 de junho de 2010

SE FOSSE COMO NO FUTEBOL!


Ah, se o povo brasileiro se interessasse, discutisse e entendesse de política como acontece com o futebol! Pelo menos que fosse a metade já se poderia dizer que temos um bom nível de politização. Ah, se exigisse uma educação de qualidade como se faz com o futebol do técnico Dunga! Ah, se brigasse pela melhoria da saúde como se irrita quando os jogadores da seleção não jogam um bom futebol! Ah, se protestasse contra a corrupção como se faz quando seu time joga mal!

Mas, tudo isso fica no “se fosse igual”, “se a empolgação fosse a mesma”, ou pelo menos parecido. Faça um seminário sobre futebol e você terá o auditório superlotado. Todos vão querer falar, dar palpite, sugestões e apontar defeitos e erros. As soluções para melhoria brotam, e jorram as idéias. Vai sobrar inspiração, e você vai ver que todos entendem do assunto. Ninguém quer ficar de fora das rodadas de discussão.

Quem sabe um dia não cheguemos lá! É bom sonhar e torcer para que a política, a educação, a saúde e outros temas essenciais ao bem-estar da população sejam discutidos e cobrados com a mesma ênfase. É tempo de Copa do Mundo e todos estão unidos num só pensamento, numa só energia positiva para que o Brasil seja campeão, seja hexa e traga o caneco lá da África do Sul. Se não der verto, ai de Dunga e de seus companheiros!

Como dizia o escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues, “somos o país das chuteiras”, e até derrubamos sua teoria de “complexo de vira-lata” que existia antes. Agora somos respeitados quando a seleção entra em campo e os adversários tremem as pernas. Nada de inferioridade! Sentimos orgulho da camisa verde-amarela e só queremos uma partida com goleada. Nada de empate ou 1 x 0.

Ah, se tivéssemos o mesmo orgulho com a política e com os nossos políticos no campo da seriedade e da ética! Se tivéssemos uma educação de qualidade e uma saúde de bom atendimento para nos orgulhar! Se tivéssemos segurança para todos! Infelizmente, a preocupação com esses itens não é a mesma como no futebol.

A esta altura do campeonato, já tem milhões por aí rezando para Santo Antônio, São João, São Pedro e para Todos os Santos para que o Brasil seja mais uma vez campeão. Coitados dos santos que já têm tantas coisas para resolver! Esses devotos não têm pena de seus santos? Dá um tempo!

Se o Brasil ganhar a Copa, vamos ter mais 11 heróis que serão recebidos pelo presidente da República; desfilarão de carros abertos pelas principais avenidas das capitais; e até serão utilizados pelos políticos para se elegerem. Vai ter jogador sendo chamado para se candidatar e serão mostrados como exemplos de vida para a Nação.

Como o assunto é mesmo futebol e ninguém quer saber de outra coisa até o final da Copa, ou até o final do ano, vamos trocar umas idéias sobre esse torneio mundial que teve início em 1930. Eu também entendo de futebol, pois já joguei na seleção de Amargosa e só não me profissionalizei porque na época era menor de idade e meu pai detestava esse esporte. Além do mais, era seminarista. Não precisam amaldiçoar meu pai porque ele já faleceu. Não sou técnico, mas também me atrevo a dar meu parecer, com certa autoridade.

Desde menino acompanho as Copas, isto é, desde 1958 quando o Brasil foi campeão na Suécia. De lá para cá já se foram 14 Copas. Em 58 tinha 11 anos e já escutava alguma coisa sobre a vitória e as diabruras de Pelé, Garrincha, Didi, Zagalo e outros em campo. Em 62, de Garrincha e de Amarildo, quando já jogava no Santos, do Seminário de Amargosa, passei a me interessar bem mais.

Portanto, também posso dizer que na minha análise, a melhor seleção e a mais completa foi a de 1970, e a mais feia a de 1994 com Dunga. A de 50 foi de lágrimas. A de 58 deixamos de ser vira-latas. A de 62 foi só vibração. A de 78, se não fosse o Peru e a Argentina. A de 86 foi a esperança que ficou no caminho. A decepção foi a de 98. A de 2002 estava desacreditada. A de 2010 tem a cara de Dunga e Parreira, mas não acredito que seja campeã. Não precisam me trucidar, mas me arrisco sabendo que estou dando pitaco na paixão do brasileiro.

Estou acompanhando todos os jogos e até o momento não me empolguei, a não ser um pouco mais com a Alemanha que saiu daquele futebol marrento e sonolento. O que mais venho observando é a escassez de craques, daí os resultados apertados e sem espetáculo. Nos últimos anos sentimos a grande escassez de craques como temos escassez de líderes no mundo e no Brasil para nos conduzir.

Entendo que o futebol não pode se resumir apenas em gols e vitórias. Para mim tem que ter espetáculo para ser arte. Até agora não vi espetáculo e o futebol molecagem como dos meninos que ficaram na Vila Belmiro e do próprio Ronaldinho Gaúcho. Para mim tem que ganhar e mostrar dribles, criação e poesia. Hoje, sinto falta disso tudo. Hoje é raça e preparo físico, misturados com uma técnica quase que padronizada de um mesmo ritmo e de um mesmo compasso de passes errados.

Como no futebol, o brasileiro também deveria exigir empenho e craques na política, na educação, na saúde e na segurança pública, principalmente. Ah, como seria bom se existisse uma torcida forte contra a corrupção e contra os políticos safados! Ah, se existisse uma marcação dura para melhoria da educação e da saúde no país como existe para que a seleção ganhe todas e erga o troféu!

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