O cara chega ao bar, pede uma cerveja e pergunta para a garçonete:
- Como é mesmo esse feriado de Corpus Christi? Explica aí, é coisa de finado, não é?
É, pode até ser, depende da interpretação. O finado Cristo morreu na cruz para salvar a humanidade dos pecados, inclusive da ignorância. Pelo visto, não adiantou nada.
Já saiu por aí indagando às pessoas nas ruas, principalmente estudantes, sobre o significado do 2 de Julho, do 21 de abril, do 15 de Novembro, ou outras datas históricas do país? As respostas são as mais absurdas e cômicas, para não dizer que são tristes e lamentáveis. Feriado é feriado, não importa...
E por falar em feriado, o nosso país bate recorde. A maioria nem quer saber do que se trata. E os dias religiosos. Aliás, só da Igreja Católica. E o Brasil não é um Estado laico? Já imaginou se no dia 12 de outubro todos brasileiros fossem obrigados a ir à Igreja prestar uma homenagem à sua padroeira Nossa Senhora Aparecida? E na Semana Santa? É época de muita comelança e de embriaguez. A violência aumenta, sobretudo nas estradas. Um escritor francês dizia que enquanto Cristo tomba, a humanidade cambaleia. E cadê a Santa, perguntou um bêbado para o outro.
Nessa época de Copa do Mundo, como não poderia deixar de ser, o papo que mais rola nos bares e botequins é sobre a seleção de Dunga e sua teimosia em contrariar a escalação dos torcedores, deixando aqui os Meninos da Vila e o Ronaldinho Gaúcho lá.
Nesse assunto todo mundo é técnico e tem os mais especializados que dedicam suas 24 horas a saber tudo de jogadores. Eles se acham o máximo. Tem o torcedor que se mata e está disposto a tudo, como ficar 24 horas numa fila, faça chuva ou faça sol, para comprar um ingresso. Não importa se aquele dinheiro era para comprar o leite dos filhos. Não conte com ele para um movimento contra a corrupção, ou a favor da melhoria de sua vida.
Já observou o monte de besteiras que os nossos jogadores soltam nas entrevistas coletivas? É de fazer pena. É uma vergonha para a nossa Nação. Comparam a bola com mulher de malandro, com “patricinha” e coisa parecida. Perdoai, Senhor, porque eles não sabem o que falam!. Pelo amor de Deus, não façam perguntas de cunho político, social ou econômico.
Os gostos musicais deles variam entre pagode e sertanejo. Não mais que isso. Não sabem ler e escrever, mas ganham fabulosos salários e são ídolos e heróis. É a inversão tremenda de valores. Jogador de futebol no Brasil é a cara da nossa educação. Com fama e dinheiro, muitos deles começam a fazer bobagens e até apologia ao tráfico de drogas.
O cara sacou R$60 mil para o traficante comprar tudo de cestas básicas. É muita cesta. O moço é caridoso. Também, aprendeu com quem? Estamos no país da cesta básica. E o torcedor no bar dizia para o outro que o dinheiro era dele e podia fazer o que bem quisesse. Nada demais. Seu apoio era incondicional.
E vem aí a febre dos pais botarem seus filhos numa escolhinha de futebol para que eles aprendam a ser craques. O menino toma gosto e logo deixa os estudos. Entra num time médio e acredita que vai virar craque e ganhar muito dinheiro. Só que o tempo passa e ele não vai além de um jogador medíocre. No final, nem futebol, nem o ensino. A desilusão chegar tarde demais. Quanto ao resto, todos sabem o que acontece.
O cara foi chegando ao botequim e falou logo para o companheiro: O Lula estava comandando um barco que ia para a Faixa de Gaza e foi barrado pelos israelenses. O cara é demais! Também ninguém sabe por onde ele anda! E o FHC foi quem levou a fama.
- Agora vai dar certo e a violência não vai ter mais vez! Como assim cara! - Perguntou o malandro para outro. Ué, agora já temos o Comando da Paz, em Salvador, que está acabando com o Primeiro Comando da Capital. É loucura, meu camarada!
Noutro dia desses estava numa banca de revistas e um senhor de idade lascava com a nossa frágil democracia, dizendo ser uma baderna total. Até aí dava para aturar. Enquanto escolhia umas revistas, escutava calado, fazendo de conta que nada ouvia.
A conversa sobre política fluía e estava ficando animada com outro senhor. Tudo indicava que eles estavam se conhecendo naquele momento, mas se interagiam muito bem nas idéias.
O senhor de idade que estava metendo o cassete na democracia se empolgou demais e soltou aquela pedrada:
- Na ditadura a coisa era bem melhor porque se tinha ordem – disse o senhor de cabelos grisalhos - reforçando sua máxima:
- E olha que eu acompanhei e vivi aquela época. O dono da banca de revista olhou para mim e piscou o olho, como se dissesse: Melhor ficar calado. Foi difícil me controlar, mas é duro ainda ter que ouvir essa blasfêmia. Quem sabe não foi um dedo duro da ditadura!
Misturando democracia, ditadura e eleição, o outro ao lado ensinava que o certo nessas eleições era votar nos novos, para mudar a situação. Essa pregação não é nova, mas faltou a ele refletir que isso já foi feito, só que os novos eleitos logo se coligaram com a velharia e começaram a montar seus esquemas de patifarias. É o sistema que é bruto, meu camarada.
Paguei logo a conta e sai com pressa porque num papo desse tipo, melhor ficar em silêncio e se afastar. O nosso SUS não tem nenhuma estrutura para atender um enfartado. Você acredita que o Brasil vai ser um país desenvolvido e potência sem educação de qualidade?
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