O título deste texto deveria ser Propaganda Enganosa ou Saúde no Corredor da Morte, mas resolvi mostrar o acintoso contraste entre a propaganda dos nossos governantes, diga-se de passagem, feita com nosso suado dinheiro, e a realidade nua e crua da saúde pública. Vou contar um fato que ocorreu comigo na clínica Eco-Center, em Conquista. ENTRE A PROPAGANDA E A REALIDADE.
Dói-me muito e fico revoltado com a degradante resignação masoquista do brasileiro. Está no sangue da nossa cultura e na formação étnica herdada dos tempos coloniais. Trazemos o ferro da submissão e a muleta de aceitar tudo calado. Parece que já nos acostumamos com o pelourinho e nos acomodamos com a chibata cortando nossos lombos.
Estou fazendo esse “nariz de cera” como se diz no jargão jornalístico, para expressar toda minha ira contra a propaganda bonitinha e doce que o governo faz sobre a saúde pública quando a realidade é totalmente diferente. O sistema é perverso e cruel em todo país, e Vitória da Conquista não poderia ficar de fora. Nosso povo está sendo lentamente aniquilado nas portas dos hospitais.
Estaria traindo meus princípios não citar situações de desrespeito que acontecem sempre conosco aqui na nossa terra, inclusive comigo, recentemente, na clínica Eco-Center. Antes disso, porém, só queria que o leitor mirasse bem nas propagandas do governo na mídia quando sempre recomenda que as pessoas façam regularmente seu checape (check-up) para detectar possíveis doenças e realizar o tratamento.
Na televisão, principalmente, está lá a orientação para que não deixe de fazer seu exame de próstata, pressão, sua mamografia, seu checape do coração, seus testes de laboratórios, sua ultra-sonografia e assim por diante. Aí o mortal, coitado, acredita e parte para a batalha.
Guiado pela propaganda o indivíduo decide encarar a realidade. É quando descobre que não é assim que funciona, ou melhor, não funciona. Até chegar ao médico é um longo penar. Mas, a tortura só está começando. Os exames clínicos são marcados para depois de meses e até mais de um ano. Existem casos em que o “paciente” espera até dois anos.
E o tratamento de choque dado pelas clínicas conveniadas aos “pacientes” do SUS! É marcação pesada, meu amigo. Senti isso na carne quando fui fazer uma ultra-sonografia do abdômen na Eco-Center, rua Góes Calmon, na semana passada. Primeiro, esperei dois meses pela marcação do exame. No dia determinado, de acordo com as recomendações, cheguei lá às 7h30min, em jejum.
Muita gente já estava na sala, umas 30 a 40 pessoas, mas aquilo não me assustou. Pacientemente, me enquadrei no quadro da espera para ser chamado. Mais gente foi chegando e o tempo foi passando. A fome danada apertou, avisando que aquilo não era tarefa para minha idade de 63 anos, mas para jovens com muita saúde.
Lá pelas 10 horas, passei a observar que outras pessoas que chegaram depois de mim, inclusive na mesma idade ou mais novas, iam sendo chamadas para fazer o mesmo exame que o meu. Apelei ao autocontrole para não abalar meu estado emocional, mas tudo tem seu limite.
Como não tenho nervos de aço e coração de ferro, por volta das 10h45min, me aproximei do balcão e indaguei das atendentes qual o critério de atendimento. A resposta de que era por ordem de chegada era lógica, mas só que não era isso que estava acontecendo. Contestei a mentira e pedi explicações do porquê “pacientes” que chegaram depois de mim estavam sendo atendidos.
As funcionárias simplesmente me disseram que não podiam fazer nada e que não tinham culpa. Realmente, não são elas as responsáveis pelo desrespeito e massacre contra o pobre cidadão que precisa fazer um exame pelo SUS. Como se diz: o sistema é bruto. Não estava ali querendo tratamento diferenciado, mas apenas respeito e consideração.
Sempre defendi e lutei pela justiça social e que as pessoas sejam tratadas com dignidade. Não podia mais ficar ali sendo humilhado. Como disse antes, não consigo decifrar donde vem tanta resignação do brasileiro para suportar tantas afrontas e humilhações. Não me sentindo bem, pedi minha requisição de exame e deixei a Eco-Center, pensando nas injúrias que sofremos depois de tanto trabalho prestado à nação.
Não me deram respostas, mas o que se sabe é que nas clínicas conveniadas do SUS, primeiro são atendidos os que pagam em dinheiro, depois os que têm plano de saúde. O paciente do SUS é o resto de tudo, meu camarada. Será que a Secretaria Municipal de Saúde pode responder a esta questão?
Tenho uma irmã hipertensa com três AVCs e sei quanto ela sofre para encontrar uma vaga num hospital ou clínica para ser medicada e tratada. No lugar dos hospitais, faça sexo. Ao lado do futebol e do carnaval, sexo é uma das prioridades. Para os hipertensos, sexo, como recomenda o ministro da Saúde. “Goze e relaxe”.
No geral, a situação é caótica. Não acho que a culpa disso tudo é apenas do prefeito. Conheço o caso de uma pessoa em Conquista que não vou aqui citar o nome por que não tenho autorização para isso, que esperou dois anos para ser chamada para fazer um exame de mamografia. Esse assunto é inesgotável e não vou ficar aqui enchendo o saco do leitor.
Só para terminar, na semana passada, a revista Time destacou o presidente Lula como um dos líderes mais influentes do mundo (vivemos no buraco negro das lideranças), e o cineasta norte-americano, Michael Moore, apresentou seu perfil. Disse que Lula espantou “os barões do roubo”. Na sua historinha, contou que aos 25 anos Lula viu Maria, sua mulher, morrer aos oito meses de gravidez (o bebê também) porque não podia pagar atendimento médico.
Na sua suposição e interpretação ingênua, isso teria levado Lula a ser presidente da República e criticava os Estados Unidos por não estenderem a saúde para todos. No seu parco desconhecimento da realidade, deixou transparecer que a saúde no Brasil de agora é uma maravilha.
Mal sabe ele que centenas de pessoas que não têm dinheiro para pagar uma consulta ou exame continuam morrendo todos os dias no Brasil por falta de atendimento médico, nos corredores sujos dos hospitais e por negligência dos agentes de saúde e dos nossos governantes.
A maior parte das personalidades de fora desconhece totalmente a realidade interna do nosso país e fica de lá falando um monte de baboseiras. Os brasileiros se contentam com as poucas migalhas que recebem. Não basta só essa democracia elitista e burguesa. Não é essa a que queremos. A que temos direito de ter é a da justiça e da igualdade, com cara socialista.
Enquanto isso, as centrais sindicais só conseguem arrastar trabalhadores com seus shows sertanejos e distribuição de prêmios. Cadê a voz dos operários e estudantes no início dos anos 60 que ecoavam e bradavam nas praças e ruas clamando e lutando com seus punhos por direitos para todos, dignidade, igualdade e reformas socialistas de verdade?
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