“Acordem, o mundo está em chamas,” do poeta Beat, Lawrence Ferlinghetti. Dito por mim não tem a mesma força, mas, mesmo assim, ninguém quer escutar. Só os falsos deuses de ouro são obedecidos, adorados e venerados.
Alô, alô seu Marciano! Por que não voa mais sobre a terra e não pousa mais sua nave circular em nosso planeta de florestas, rios e montanhas?
Alô, alô Terráqueo idiota e estúpido, observe suas entranhas! Tudo isso está se acabando. Seu planeta está sujo e cheira mal. Seu mundo está em chamas e não dá mais para aterrissar nesse chão de crateras. Prefiro ficar voando entre estrelas e galáxias do que cair nesse lixo de bilhões de celulares, aparelhos inúteis, latas enferrujadas, destroços, plásticos e tubos.
Oh, Marciano! Também não precisa ofender. Nossa raça evoluiu e criou máquinas sofisticadas, bebês de laboratório e tecnologia de ponta para desvendar nossa origem. Nosso povo está querendo ser Deus e revelar os mistérios da vida e do universo.
É Terráqueo convencido e exterminador, quando estivemos por aí percebemos toda essa ilusão. Sua gente criou gerações confusas e infelizes. Tentamos avisar, mas ninguém quis nos ouvir. Com suas invenções, cobriram rios com concreto para tapar a sujeira; furaram toda terra como predadores; e derrubaram as árvores.
Mas Marciano! Temos o lado bom. Inventamos o progresso que oferece conforto e bem-estar à humanidade. Cobrimos os céus com pássaros voadores. Temos edifícios suntuosos, conexões velozes e possantes máquinas guiadas por nós.
Quanta bobagem, Terráqueo primitivo! Vocês não têm nem tempo para a felicidade. Criaram a ganância, a luxúria, a competição desenfreada para consumir porcarias como se fossem eternos. Olhem em seu redor: máquinas de destruição, bombas por todo lado e muralhas que se separam.
Marciano! Você deve estar com inveja do nosso planeta rico e poderoso.
É de fazer rir, Terráqueo panaca! Nós também nos destruímos e hoje estamos vagando no vazio imenso dos planetas, sem finito. Vocês da terra não conseguem comandar a si mesmos. Só sugaram as riquezas e não têm mais lugar para vomitar e defecar. Com seu capital nojento, só fizeram excluir, matar e deixar mais de um bilhão na miséria extrema. As pragas se espalham por todo canto.
É isso aí seus Terráqueos de merda! Vocês estão mesmo ferrados com suas fronteiras de muros e cercas elétricas que só resultaram em ódio, discriminação, matanças por todos os lados. Vocês não evoluíram nada e ainda continuam roendo o próprio rabo.
Pare de zombar, seu Marciano! Pare de voar na velocidade da luz! Dê uma freada e aqui uma parada. Vamos tentar consertar. Temos projetos para recuperar e acalmar a natureza.
A moradia de vocês treme nas profundezas; lança chamas de fogo e cinzas; inunda planícies e planaltos; derruba morros; levanta mares; torce e engole prédios com seus ventos raivosos como monstros gigantes da mitologia. Os deuses estão enfurecidos e vocês não sabem mais orar.
Seu Marciano! Estamos negociando e ganhando tempo para lucrar mais um pouco. Precisamos acumular e explorar. A camada ainda dá.
Cala a boca Terráqueo embusteiro, enganador e mentiroso! Gritou raivoso o Marciano, sabendo que o Terráqueo não quer mais parar, nem voltar atrás do que já fez e ainda fará.
Seu jogo é tentar tapiar a natureza como se ela fosse inesgotável. Ela é mansa, cordial e meiga, mas não atura ofensas duradouras e repetidas – pensou consigo mesmo o velho Marciano, depois de uma parada mirando a cara safada e sem vergonha do Terráqueo.
Vocês da Terra – bradou o Marciano - ficam enrolando com a tal de exploração sustentável, com selo preservação, troca de um esquisito carbono e fazendo uns remendos ali e acolá, mas continuam jogando gases mortíferos no ar, se empanturrando de bugigangas, dando umas migalhas aos miseráveis, escravizando os fracos, fabricando bombas nucleares e correndo como malucos atrás do deus dinheiro. Pelo que vejo, não tem mais volta, nem na paz, nem na guerra.
Com o olho maior que a barriga e a ganância de um devorador, o guloso termina morrendo pela boca – raciocinou o Marciano a respeito do Terráqueo, estúpido demais para se salvar da aniquilação total. Os falsos profetas e cordeiros de Deus engrossam as fileiras dos pecadores.
Navegando nos espaços siderais, o Marciano se desvia ao se aproximar dos terráqueos e sente que o caldeirão ferve e pode explodir de tanta pressão.
Alô Terráqueo solitário e egoísta! Vou desligar para você ficar com sua porcaria de computador a quem o tem como fiel amigo e companheiro. Essa parafernália não é sua vida? Você está morrendo sufocado pela poeira vulgar. Seu jardim está fedendo de xixi e cocô de ratos calungas. Seu planeta está infestado de piolhos e pulgas.
Não ligue mais para me incomodar. Daqui do alto já dá para ver uma nuvem de fumaça cobrindo todo o azul. Adeus Terráqueo, quem sabe, um dia eu posso voltar. Não vai ter outro paraíso sujar.
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