Não é preciso ser técnico, especialista, geógrafo, urbanista, ambientalista ou qualquer coisa parecida para saber que a grande maioria das habitações nos morros no Rio de Janeiro, Niterói, Santa Catarina, Salvador, ou em qualquer parte do mundo, está localizada em áreas de risco e desmoronamento. E quem são os responsáveis pela estupidez das tragédias que ocorrem quando chegam a temporada das águas e as tempestades? Isso também não é preciso ser especialista para saber.
São os governantes passados e os atuais, com aparência de condoídos, que aparecem nos locais com a maior cara de pau e cinismo, para mostrarem para a população de que estão preocupados. E aí dizem que estão tomando todas as providências e, com o mesmo descaramento, recomendam aos moradores que deixem suas casas. Qual moral têm esses caras assassinos irresponsáveis de dar orientações e ordens depois dos estragos? Se tivessem vergonha na cara não deveriam nem aparecer.
Basta acontecer uma catástrofe, e sempre tem uma atrás da outra, para os governos federal, estadual e municipal impressionarem a todos com a “liberação” de milhões e bilhões de reais para o socorro das vítimas. O dinheiro se perde no meio do caminho. O mínimo que fazem é amontoar os desabrigados em escolas, ginásios de esportes e creches, em condições degradantes e repugnantes.
A mídia corre apressada e faz seu espetáculo de compaixão e lágrimas. Muito choro num cenário devastador de perdas humanas que sempre viveram na miséria dos morros, vulneráveis aos traficantes. Começam a chegar os donativos – alimentos, remédios, roupas, sapatos e até brinquedos – de todas as partes do país. É a expressão da solidariedade que está sempre se repetindo em nossas vidas em pequenos intervalos de tempo.
Aí, vem a estiagem; o tempo passa; a imprensa vai cobrir outro espetáculo de mortes e desgraças em outro lugar; e os governantes continuam impunes fazendo suas sacanagens com o povo. Os milhões de reais desaparecem e nada de obras de habitação em locais seguros. Os candangos continuam trepados nos morros que vão deslizar nas próximas chuvas. As ações contra as irregularidades são arquivadas e esquecidas.
Os filmes se repetem nas próximas temporadas de chuvas, e aí, lá estão novamente eles (governantes) no pé dos morros “tomando as providências” e fazendo recomendações. Lá vêm as doações e os jornalistas para fazerem suas coberturas de dores. Assim, sucessivamente, a estupidez das tragédias vai se alternando como se já fizesse parte do nosso cotidiano.
O cenário de terror ainda é preenchido com o lento socorro às vítimas por parte das coordenações de defesa civil, dos bombeiros e das forças militares desordenadas e despreparadas. Aqui no Brasil, tudo vai chegando aos poucos e de forma atrasada. Mas, para mostrar grandeza lá fora, um enorme batalhão cheio de equipamentos, cães farejadores, aparelhos, máquinas de todo tipo, tendas, medicamentos, médicos e profissionais de várias áreas se deslocou numa rapidez impressionante até o Haiti para socorrer as vítimas do terremoto. Não ia dizer, mas sou obrigado a lembrar que o Haiti é aqui mesmo no Brasil.
Tome entrevistas com entendidos no assunto que falam o óbvio. Não é necessário ser expert no assunto para se deduzir que dentro de mais 50 ou 100 anos as habitações dos morros cariocas e locais semelhantes vão deixar de existir. No seu lugar, só vão ficar os escombros. A natureza não agradece, devolve tudo em ruínas.
É um saco estar falando aqui, mais uma vez, dessas questões e desses políticos enganadores, mentirosos, fisiológicos, nepotistas, demagogos, corruptos, canastrões e aproveitadores que estão sempre lucrando com as tragédias, e que estão sempre voltando com as eleições. Infelizmente, o povo se encarrega de cobrir toda sujeira com votos e doações, sem protestos, sem manifestações e revoluções. Aceitamos tudo calado, com o choro preso na garganta, como criança diante de um pai carrasco.
Sempre vejo torcedores se esganando, brigando e matando uns aos outros pelos seus times de futebol. Sempre vejo as ruas e cidades lotadas nos carnavais e festas. Sempre vejo carreatas de bandeiras nas copas de futebol, exaltando a seleção. Sempre vejo aglomerações de gente querendo aparecer onde TVs estão cobrindo crimes monstruosos, como no caso dos Nardoni. Sempre vejo multidões em comícios e centenas de milhares de pessoas nas avenidas quando são convocadas por governantes para defender interesses deles, como no Rio de Janeiro no caso da distribuição do pré-sal. Vi concentrações para aplaudir com fogos o Brasil eleito para sediar as Olimpíadas e a Copa do Mundo.
Não vejo e não vi movimentos de milhares de brasileiros para combater a corrupção, a malversação do dinheiro público, contra as cafajestices dos políticos, contra a roubalheira, os mensalões, os sanguessugas, os desmandos dos prefeitos e governadores, contra o presidente que nada vê, contra a precária educação, o descaso da saúde pública e contra todas as espécies de injustiças praticadas neste país.
De todas as merdas proferidas pelo campeão de votos do Big Brother Brasil, um tal de Dourado – 150 milhões de telespectadores estavam lá atentos – pelo menos uma coisa dá para se aproveitar quando disse que o povo brasileiro não sabe votar. Diria que com exceção da minoria que não conta nas decisões da maioria dos eleitores comprados por favores. A única coisa que ainda nos resta é essa democracia, mal ou bem.
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