segunda-feira, 12 de abril de 2010

ESTIMA EM BAIXA


Não vi nem li em nenhum veículo de comunicação um comentário, uma notícia ou referência sobre o Dia do Jornalista que se passou no dia 7 de abril (quinta-feira) em homenagem à fundação da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) no ano de 1908. Será que é sinal de baixa estima em que vive a categoria depois de, equivocadamente, o Supremo Tribunal Federal ter suspenso a obrigatoriedade do diploma?

Bem que esse fato poderia ser motivo de se comemorar o dia com campanhas e manifestações de protesto por ter o Supremo confundido liberdade de expressão com qualificação profissional que se exige nos tempos atuais em qualquer área de trabalho. É lamentável ver uma profissão tão nobre que não consegue se reunir, pelo menos na homenagem ao seu dia, para discutir e debater seus problemas.

O escritor Gabriel Garcia Márquez disse certa vez que o jornalismo é a melhor profissão do mundo. Também concordo porque o jornalista é um operário especializado da notícia que tem por obrigação possuir um vasto conhecimento de vidas diferentes e complexas, para passar informações corretas, responsáveis e com qualidade e conteúdo.

Jornalismo é a arte de viver cenas diferentes e saber passar e interpretar a existência de cada uma delas, sem deturpar e distorcer. O jornalista precisa estar munido de informações variadas do conhecimento para saber pintar o seu quadro do dia-a-dia que retrate a realidade, mesmo que as cores sejam diferentes um do outro.

É uma profissão que deve ser o espelho da sociedade, principalmente, quando mais ela precisa de uma voz que a defenda. Para que a imprensa seja vista com respeito e com credibilidade, o jornalista deve ter uma formação acadêmica que lhe passe não só uma gama de conhecimento, mas, acima de tudo, ética e seriedade naquilo que faz. Sempre digo que sem responsabilidade não se pode defender liberdade de imprensa.

Depois de quase 40 anos de profissão – entrei na Faculdade de Comunicação-Facom da Universidade Federal da Bahia em 1970 – confesso que fico triste quando vejo a categoria dispersa e cada vez mais individualista, sem uma representação forte que, ao menos, reúna seus colegas para comemorar seu dia, debatendo as questões mais importantes da classe.

Naquela época na Bahia só existia uma escola com habilitação em Jornalismo. Naquela época ainda existia um ranço do jornalismo romântico, praticado por antigos profissionais que vieram de outras áreas do ensino, sobretudo do Direito. Mal ou bem, o jornalismo foi regulamentado pela Resolução de 1969 do regime militar, preservando os antigos que já atuavam no setor, mas determinando que onde houvesse faculdade a empresa desse prioridade ao diplomado.

Não se trata aqui da questão de reserva de mercado, mas de se estabelecer a formação profissional para uma categoria, tão importante como a medicina, a psicologia, a biotecnologia, a engenharia, dentre outros ramos do ensino. A extinção do diploma para o jornalismo tornou-se uma não profissão onde qualquer um pode exercer. Por isso é que todo mundo hoje é jornalista e se acha entendido no assunto, bastando para tanto fazer um comentário num simples informativo.

Na virada dos anos 70 para 80 houve uma proliferação de faculdades de jornalismo atraídas pelo simples glamour de ser jornalista, sem uma contrapartida do mercado. Por sua vez, muitas escolas foram implantadas sem condições de oferecer uma boa formação acadêmica. Além do mais, o profissional continua a trabalhar em condições precárias, acima da sua jornada de atividade e com salários baixos.

Talvez essa vaidade do glamour tenha deixado no jovem a sensação de que ele era um ente todo especial em relação às outras categorias. Faltou nos recém formados a conscientização de que o jornalista é também um operário qualificado que precisa lutar pela sua valorização, especialmente na defesa de seu diploma e por melhores ganhos. A ausência de um sindicato forte também contribuiu para esta situação como a que vemos atualmente.

Infelizmente, o que se percebe hoje é uma baixa estima na categoria; uma perda de identidade; de orgulho; e um clima de decepção e frustração por parte de diversos colegas, especialmente da nova geração. Exerci e ainda exerço minha profissão com muito orgulho, pois foi somente dela que tirei todo meu sustento e da minha família, mas nos últimos anos venho acompanhando esse desmoramento e essa desintegração com muito pesar.

Uma coisa é qualificação e formação profissional e outra coisa é o princípio constitucional da liberdade de imprensa e expressão, mas, o Supremo não viu assim e resolveu derrubar a obrigatoriedade do diploma. Aí a grande mídia empresarial confunde a sociedade com esse argumento de que a não exigência do diploma significa preservação da democracia. Ao contrário, só podemos aprimorar essa democracia através de mais conhecimento e saber científico.

Bem, o meu propósito, na verdade, é registrar aqui meu sentimento quanto a questão da valorização da classe que está se esvaindo. É dizer que devemos recuperar a autoestima e o orgulho. O que está em jogo neste momento é muito mais que emprego e salário. O que mais me preocupa é que o joio está prevalecendo e sufocando o trigo. O que mais me deixa atormentado é a falta de discussão, de união, de ações efetivas e que, pelo menos, o Dia Jornalista seja lembrado.

Por outro lado, quero também deixar registrado que somos operários qualificados da notícia e, como tal, nossa data de comemoração deveria ser em junho em homenagem ao “Correio Brasiliense”, embora impresso em Londres, começou a circular aqui em 1808. Antes a data era 10 de setembro, aniversário do surgimento da “Gazeta do Rio de Janeiro”, primeiro veículo impresso com a chegada da Família Real ao Brasil.

Nada contra a ABI, mas trata-se de uma organização patronal. Mais uma vez, alerto que precisamos nos valorizar como operários, sem arrogância e pedantismo de que somos o próprio Deus, e brigar pelos nossos direitos, sem aquele glamour e romantismo de antigamente. Pena que não estamos conseguindo nem comemorar nosso dia.

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