quinta-feira, 18 de março de 2010

A UESB E A SOCIEDADE

Não muito distante em termos físico e geográfico (apenas uns cinco quilômetros da cidade), mas ainda longe nos tempos modernos e tecnológicos em termos de presença material e espiritual na comunidade. É assim que ainda enxergo a participação e a interação da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – Uesb com relação à sociedade de Vitória da Conquista.

Não bastam os projetos de extensão que pela legislação a autarquia é obrigada a desenvolver dentro do seu raio de ação, para justificar sua função e sua existência. Para ser mais claro, estou falando aqui da universidade, que é custeada pelo contribuinte, tornar suas atividades, especialmente de interesse direto da comunidade, mais transparentes através da discussão e do debate aberto com as diversas camadas da sociedade.

A sensação que se tem, na minha humilde visão, é que esses cinco quilômetros parecem 500, e que a Uesb cada vez mais se fecha como se fosse uma empresa privada de donos e não tivesse satisfação para prestar para o povo. Ao longo desses anos que estou aqui em Conquista tenho observado que os eventos de grande interesse da população são sempre realizados lá, internamente, como se fossem somente direcionados para seu corpo acadêmico.

Quero fazer aqui uma distinção entre assuntos internos acadêmicos dos temas mais amplos e abrangentes que devem contar com a participação de todos os segmentos da sociedade para que possam e tenham a oportunidade de apresentar suas sugestões e propostas. É compreensível que uma questão de ordem técnica, disciplinar e concernente às suas normas de funcionamento só interessa ao seu corpo docente e discente.

No entanto, uma conferência e um seminário de comunicação, a inauguração de uma rádio, um debate na área social e da educação e até mesmo o processo de uma eleição para reitor, só para citar exemplos, são do interesse de todos e não somente dos estudantes, dos professores e dos funcionários.

Não é muito distante, mas vamos convir que fica difícil o deslocamento de pessoas até lá para se fazer presente aos eventos programados pela instituição. Nem todos têm o transporte particular, e o coletivo é por demais deficitário. Nesses casos, qual o mais lógico: a Uesb ir onde o povo está, ou o povo ir até a Uesb? Ela dispõe de estrutura para ir até onde o povo está como diz o artista-poeta.

Não consigo entender como uma conferência de comunicação é programada para ser realizada na Uesb e não no Centro de Cultura, ou noutro local do centro da cidade. A comunicação não apenas do interesse dos estudantes de Jornalismo. É uma questão que envolve e em muito a sociedade. A rádio é gerida pela universidade, mas é totalmente pública.

Diante do exposto, permitam-me dizer que o convívio direto da universidade com a comunidade tem deixado muito a desejar, ao ponto de muitos dizerem que “é coisa da Uesb” quando se relaciona a algum evento social e político que está se realizando naquela autarquia.
Tive que me alongar um pouco para tocar na questão mais atual que é o processo eletivo para a reitoria. Por que não estender e levar esse debate para toda sociedade? Por que é pouco divulgado e é só discutido internamente em assembléias? Só interessa àqueles grupos? Que democracia é essa?

Afinal de contas, como já disse, a Uesb é paga pelo povo. A universidade não tem donos, nem é uma empresa particular como fazem alguns prefeitos e políticos com a coisa pública. Além do mais, ela é constituída e formada de cabeças pensantes e de doutores que sabem, pelo menos teoricamente, quais suas funções e obrigações perante a população. Infelizmente, na prática não é assim que tem funcionado.

Outro problema que aqui levanto é a respeito da participação eleitoral dos representantes, ou delegados da sociedade, no processo de escolha do reitor. Se não me engano, reza sua legislação que também membros dos movimentos e entidades social-empresariais têm o direito de votar, e a reitoria tem a obrigação de convocá-los. Por que, então, isso não foi feito?

Não é o caso de uma comissão do povo entrar com um requerimento junto ao Ministério ou Defensoria Pública para que essa legislação seja cumprida? Aqui eu pergunto: Não cabe uma ação nesse sentido? Seria bom que o setor jurídico e o próprio corpo da reitoria esclarecessem esse questionamento. A comunidade tem o direito de saber como tudo funciona, da forma mais transparente possível.

Na verdade, o que se percebe é um isolamento e um distanciamento entre Uesb e sociedade. É preciso que haja um debate popular em torno dessas questões, mesmo porque a autarquia (antes era fundação) tem um orçamento igual ou superior ao da Prefeitura de Conquista e não pode ser de alguns, nem pertencer a grupos políticos.

A Uesb, criada em 1980 – se bem que sua história começou nos anos 60 com os cursos de Filosofia e Letras – é um patrimônio do município e da região sudoeste onde atua, com três campi (Itapetinga, Conquista e Jequié) e mais de 20 cursos. Os comentários são de que Jequié já planeja ter sua própria universidade e declarar sua emancipação do reino. É outro assunto a ser esclarecido.

Até agora sua sede é em Vitória da Conquista que tem um PIB de quase R$2 bilhões; 320 mil habitantes; quase 200 mil eleitores; é a 7ª economia da Bahia; e o pólo mais dinâmico do Nordeste. Atualmente a cidade faz ligação através da Avenida Olívia Flores, mas não está tão ligada e sintonizada assim com a comunidade. Ainda persistem os ruídos de comunicação. Falta mais transparência nos seus projetos, programas e atividades.

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