domingo, 14 de março de 2010

PERMISSÃO PARA MATAR

Não se falou mais da Chacina de Vitória da Conquista, ocorrida na noite de 28 para 29 de janeiro, quando um grupo de exterminadores da polícia deu fim a 14 pessoas no bairro do Alto da Conquista.


Onde está o resultado do processo do comando da polícia? E os processos sigilosos do Ministério Público? E os soldados que foram para Salvador? Quais os reais motivos que levaram os bandidos a atirar nos militares que subiram o morro naquela noite, ferindo mortalmente o soldado Marcelo Márcio Lima? Na verdade, o que faziam lá naquela noite? E a versão dos bandidos? Que fim levaram?


São perguntas que os cidadãos que pagam seus impostos e vivem numa sociedade que se diz democrática, num Governo que se diz participativo, têm o direito de respostas. Não falo como jornalista, mas como membro dessa comunidade. Na semana passada aconteceu em Salvador, no bairro do Pero Vaz, outra chacina onde quatro pessoas foram mortas pela polícia. Tudo isso me faz lembrar o filme 007 onde o agente da rainha tem a permissão para matar.


Podem até me achar de ranzinza e chato, mas causa indignação e revolta viver numa sociedade onde as leis são burladas justamente por aqueles que deviam respeitá-las para que se confiasse nelas e servissem de exemplo para mudanças de conduta. O que ocorre é que tudo virou um mundo cão e a pena de morte foi instituída na base da metralhadora. O anormal virou normal e a impunidade é quem dita as normas.


Tenho todo direito de me revoltar com essa situação e com esse tipo de tratamento que nos é dispensado, qual seja de não dar satisfação dos fatos bárbaros de matança. Se eles têm a permissão para matar, seria bom que isso estivesse inserido claramente na Constituição para que não restasse mais dúvidas. É a sociedade do faz de conta. Quando será a próxima chacina de Conquista?


Na semana passada falei aqui dos atos violentos na história de Vitória da Conquista que até hoje não tiveram solução. Simplesmente caíram no esquecimento. Essa chacina, certamente será mais uma para nossa vergonha ou para orgulho e consentimento de muitos de que aqui é a terra da pistolagem como ficou conhecida lá fora.


Pena que a maioria do nosso povo tenha chegado a insensatez de que polícia tem mesmo que matar. Lamentável que não se acredite mais nas instituições de nosso país. O tecido social está todo esfarrapado e se tornou um trapo que não adianta mais ser remendado. O próprio sistema estúpido se encarregou de dilacerar os valores humanos.


Infelizmente, já era mesmo esperado, diante da impunidade em que nos acostumamos a viver, que a matança ia, pouco a pouco, se tornar num emaranhado de processos sigilosos, obtusos e num labirinto sem saída. Não foram apenas quatro militares os culpados pela chacina, mas um “mutirão da morte” que já chegou ao alto da Serra disposto ao extermínio e à vingança.


Nesse teatro todo, coube à imprensa o papel de coadjuvante, com um texto morno de passar alguns recados para a platéia. Que peça decepcionante e frustrante! Um enredo capenga e sem final! Será que vai haver um segundo ato ou coisa parecida?


O Ministério Público, conforme se noticiou, apontou a participação de 35 militares no mutirão, um número expressivo que mancha toda corporação. Eles serão julgados, sentenciados e presos? Serão afastados? A resposta, a sociedade descrente já tem na ponta da língua; Não vai dar em nada. Bem que o pastor Martin Lutter King dizia que o pior de tudo é o silêncio dos bons. É o que mais se vê hoje no país?


Fizeram caminhada da paz só para tapiar, massagear ou enganar a consciência? Não aguento mais esses movimentos que mais parecem propaganda de sabão em pó com os mesmos discursos distantes dos alvos. Estamos vivendo um processo de dormência profunda que não ouvimos nem sentimos mais a cavalaria do capitalismo passar por cima de nós.


Precisamos de manifestações e atos reivindicatórios dos nossos direitos contra a falta de segurança. Precisamos de protestos diários a favor de uma educação de qualidade para todos, sem essa de cotas, sem discriminação e sem reserva de mercado. Como disse o poeta Geraldo Vandré: Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.


Precisamos de saúde digna e de um socialismo com a face humana. Sem conscientização política não vamos chegar lá. Nossos governantes estão preocupados é com o poder e com a máxima de que os meios justificam os fins. O resto que se dane. As chacinas passam e os votos caem nas urnas nos passos dos eleitores movidos pelas promessas e pelas esmolas. Não dá mais para continuar.

Nenhum comentário: