segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

POLUIÇÃO SONORA E VIOLÊNCIA

Passado o carnaval do apartheid e do rebolation de Salvador que mais parece a casa dos horrores orgásticos no “vou te comer” do Lobo Mau de Ivete Sangalo, vamos falar de problemas nossos de cada dia que estão contaminando Vitória da Conquista. Um deles é a poluição sonora, e o outro é a violência assassina, inclusive da polícia, retratada no espancamento, arrombamento de casas e mortes de adolescentes.



Antes disso, (não consigo resistir) quero me deter um pouco no carnaval de Salvador e transmito aqui a narrativa do compositor Walter Queiroz Júnior na visão da sua personagem Maria Colombina. Ela se atreveu ir ao circuito e só ouviu músicas medíocres e conversas banais. Presenciou de perto a lamentável perversão da festa que um dia foi de todos, mas hoje é comandada pela elite burguesa e capitalista.



Em meio à multidão, Colombina foi esmagada e imprensada por cidadãos-rubôs embriagados que adoram estrelas fabricadas pela grana, repetindo grotescos refrões que contaminam a inocência das nossas crianças.



Mas, as mães aprovaram e incentivaram os filhos a repetir os refrões e os gestos, achando tudo lindo e sem malícia. Aliás, entraram na onda do quanto mais depravado melhor e até condenaram aqueles que criticaram a porcaria. Não adianta mais. Está tudo “dominado” como diz nossa juventude alienada e sem cultura.



A mídia dá a mão, e a Ivete Sangalo se acha a toda poderosa diva e rainha para chamar todo lixo do axé music de música baiana de maior valor artístico. Na verdade, Ivete e cia estão certos porque eles são mesmo os lobos maus dessa história que estão comendo há muito tempo lá de cima de seus camarotes e trios os pobres pipocas lenhados. Se todos lá em baixo aplaudem como escravos, ela tem mais é que dizer: “Vou te comer”.



Depois de tanta degradação, a impressão que temos é que não existem mais esperanças, nem lugar para uma provável reflexão e conscientização da sociedade. Chegamos ao nível mais alto da contradição. Enquanto o Ministério Público, Juizado e órgãos do governo fazem propaganda de combate à pedofilia e à exploração sexual, o carnaval banaliza e estimula o “vou te comer”, com direito a gestos sexuais da cantora. E ainda diz que não há nenhuma malícia nisso. Nem é mais preciso. Está tudo bem explícito.



Desculpem por ter me alongado demais nesse assunto, mas o nosso é sobre a questão da poluição sonora e da violência. Se Salvador é tida como a capital do barulho (vejam o carnaval), Vitória da Conquista está seguindo seus passos. Primeiro são os carros de som de propaganda que não obedecem ao limite dos decibéis. Aliás, não há vigilância e fiscalização para isso. Tudo corre solto por aqui.



Cada um faz sua propaganda com som mais alto para competir. Os carros param em qualquer lugar e tome barulho. O inferno começa logo cedo, inclusive nos bairros, atanazando a vida das pessoas que querem um pouco de sossego. Quando passam, as portas vibram e as janelas de vidro parecem que vão se partir.



Além dos carros de propaganda, temos que aturar ainda os imbecis frustrados, complexados e recalcados que têm necessidade de chamar a atenção com seus sons de trios de alta potência nos fundos de seus veículos. Depois de perturbarem as pessoas nos bares e restaurantes, saem rodando toda cidade a qualquer hora do dia e da noite, mostrando sua coleção de músicas de péssimo gosto de pagode e do axé music. Olha aí o carnaval de novo!



Esses caras de cabeça fútil acham que estão abafando e se sentem os donos do “pedaço”. O esporte predileto deles é exibir seus brinquedos. Na relação deles não existe ordem nem respeito ao direito dos outros. Liberdade para eles é sinônimo de individualismo e de que só eles existem, já que as autoridades e o poder publico não tomam conhecimento.



O som desses trios ambulantes invade nossos ouvidos em nossas casas e estupra nosso sagrado direito do silêncio. Não temos a quem apelar. Nos finais de semana, eles estão em todos os lugares e rodam nas ruas altas horas da madrugada, exibindo suas parafernálias com músicas horríveis.



A poluição sonora desmedida é uma das violências visíveis numa sociedade onde cada um faz o que bem entende e não existe punição e ordenamento. A outra é a violência bruta e estúpida por parte de assaltantes, criminosos e policiais que saem por aí matando, executando e fazendo o mesmo serviço sujo. Não temos proteção nem de quem deveria por lei dar proteção.



Como na degradação do carnaval, nossa sociedade sem educação de qualidade está sendo destruída por ela mesma, ao ponto de apoiar os atos de violência praticados por policiais. Ela perdeu por completo a confiança nas instituições da Justiça e não acredita mais em punição. Ela (sociedade) hoje aceita ser violentada nos seus direitos e acha que tem de ser assim mesmo. Não reage mais. Apenas aceita a matança como solução.



É só fazer uma pesquisa nas ruas e todos vão dizer que essa “força tarefa” para apurar os crimes contra adolescentes não vai dar em nada. Com a força do corporativismo, mais cedo ou mais tarde os processos emperram por falta de evidências dos autores e tudo cai no esquecimento. È a dura, cruel e triste realidade dos comentários que saem das bocas das pessoas nas ruas, nas rodas de bares e locais de encontros.



Não deveria ser assim e não gostaria de estar falando dessa maneira. mas esse é o retrato de uma sociedade que perdeu a confiança nas instituições em geral, tendo em vista os inúmeros casos de crimes engavetados que se tornaram insolúveis, principalmente quando são cometidos por policiais. Não queria dizer isso, mas me sinto enojado de ouvir aquela mesma coisa de que “vamos apurar e punir os culpados” quando o tempo passa e tudo fica na mesma.



Essa situação não acontece só em Vitória da Conquista onde vários crimes ficaram insolúveis como o assassinato do dono de jornal Alberto Oliveira, do prefeito de Manoel Vitorino, do caso da morte do marinheiro numa cela da delegacia regional, do pastor Tobas e tantos outros. Todo esse aparato para dar uma satisfação à sociedade, mas sem resposta punitiva.

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