Os processos correm em sigilo; as reuniões, inquéritos e interrogatórios são feitos a portas fechadas; nomes dos interrogados não são revelados; testemunhas ameaçadas não falam; os policiais criminosos continuam atuando nas ruas; e quase nada de objetivo e do que interessa ao público é divulgado à imprensa.
Muito mistério e pouco esclarecimento. São assim que correm as investigações de mais de uma semana da “força-tarefa” que está em Vitória da Conquista para apurar os fatos de espancamentos, seqüestros e mortes, inclusive de adolescentes, praticados por policiais no final do mês passado, a partir do dia 28 quando foi assassinado o militar Marcelo Márcio Lima.
De lá para cá, as matérias da imprensa escrita e falada (ainda adoto a classificação antiga), inclusive da capital, têm se limitado a registros da chegada da “força-tarefa” e pautas de atividades do dia com poucas entrevistas dos personagens. Por conta do sigilo e do mistério impostos, percebe-se nas informações da mídia uma enorme lacuna em termos de objetividade e de investigação. Mesmo assim, a imprensa ainda é o fio da esperança para pressionar.
A decepção e a frustração perderam suas forças porque foram superadas pelo descrédito da sociedade nas instituições, especialmente em casos dessa natureza. É de se considerar ainda que o aumento da violência e da bandidagem; a impunidade; o vazio deixado pelo Estado na área de segurança, além de outros fatores educacionais, sociais e econômicos negativos ao longo dos anos empurraram o povo para o maior dos absurdos.
Refiro-me ao apoio de expressivas camadas da população, não só a pobre, aos policiais pistoleiros que matam, exterminam e plantam suas próprias leis e justiça na base do gatilho. Já falei aqui e repito outra vez. Em conversas nas ruas e em discussões, a grande maioria acha que a polícia tem que torturar, matar e executar mesmo. Só assim se resolve o problema. Assim pensam. Perderam a fé e a esperança que deram lugar à acomodação. As pessoas ficaram sem perspectivas.
Isso é um reflexo da degradação a que chegou a nossa sociedade por se sentir desprotegida e descrente nas leis de punição. É o reflexo da falência do Estado e de suas instituições que por muitos e muitos anos estiveram e ainda estão a serviço das elites burguesas capitalistas. É a decadência dos princípios da educação que cederam lugar à ignorância e à estupidez da criatura humana.
O Estado, por sua vez, chegou ao estado mínimo, embora cobre o máximo do cidadão, inclusive de impostos. A policia passou a ser temida como se fosse pior que os bandidos. Sem estrutura de proteção digna e segura do Estado, as testemunhas preferem ficar mudas para não serem as próximas vítimas. A lentidão se arrasta nas investigações e decisões, acentuando mais ainda o temor.
Chega de conversa e vamos diretamente aos fatos, mesmo envoltos em mistérios, sigilos e interrogações. Tudo isso deixa no ar o cheiro da impunidade. A corporação militar, (os comandantes) com todo seu aparato disciplinar e normas de plantões de trabalho, sabe os nomes daqueles que participaram das operações de terror.
Mas, mesmo depois de dias de atuação da força-tarefa, os nomes ainda não foram revelados sob alegação de que os autos de reconhecimento são apenas o início das investigações e ainda serão necessárias novas diligências – segundo o secretário de Segurança Pública da Bahia. Fossem bandidos do outro lado os nomes já estariam estampados.
Os números são desencontrados. Enquanto o Ministério Público aponta 14 assassinatos, a Polícia Civil trabalha com apenas quatro, talvez os que já foram reconhecidos por pessoas que testemunharam os assassinatos e seqüestros ocorridos durante a operação da PM em represália à morte do soldado Marcelo Márcio Lima Silva.
Sobre o policial morto não se falou nada na imprensa sobre os motivos relacionados com o crime. Ele e seu companheiro da moto estavam à paisana, subindo o Alto da Conquista. Tinham algum envolvimento? Foi um ato de vingança da parte dos traficantes? O bandido sabia que eram policiais e por que atirou? Existem outras perguntas a fazer para esclarecer.
As autoridades não revelam os nomes dos policiais, nem se vão solicitar prisão cautelar. A imprensa amordaçada, não tem acesso aos autos, nem aos inquéritos. Quatro foram conduzidos para Salvador.
Aí entra a força do corporativismo. Colegas e parentes dos militares entram em ação para impedir o trabalho do Ministério Público. Gritam e berram pedindo apoio da população, argumentando que a medida é inconstitucional. Só queria saber se a Constituição manda fazer justiça com as próprias mãos, matando, torturando e executando?
O Ministério alega que não pode pedir a prisão porque eles podem tentar fugir, destruir provas e ameaçar testemunhas. Os dois últimos atos citados já foram feitos desde o início. Fugir não é preciso. O argumento não convence.
O que aconteceu em Conquista foi uma chacina de grandes proporções e pouca comoção da comunidade. Até ontem foram encontrados na localidade de Lagoa das Flores, dois corpos das 14 vítimas executadas. Até quando vão recolher provas materiais como cadáveres e projéteis de armas para esclarecer e dar nomes?
O filósofo francês Voltaire tem um conto onde as pessoas acordam sem memória. Se elas não têm consciência de si mesmas não são nada. Homens sem memória nada sabem; não dizem nada; consentem tudo; e se deixam ser manipulados. São bonecos sem passado, sem presente e futuro. O sistema bruto fez com que a sociedade perdesse a memória.
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