Não quero ser “espírito de porco,” nem tampouco ser do contra, mas fico a pensar cá com “meus botões” sobre a escolha do Rio de Janeiro para sediar as Olimpíadas de 2016. Não me importa que seja visto como negativista.
Fico triste ao ver toda essa população desatenada da realidade política e social que comemora com ufanismo exagerado nas praças e ruas, sendo empurrada pela avalanche de prosperidade ilusória que o evento proporcionará para todo país.
Tudo me faz lembrar o marketing da ditadura militar com a Copa de 1970, com 90 milhões em ação, somente para fazer o povo esquecer das torturas dentro dos porões contra aqueles que defendiam a liberdade.
É certo que não estamos mais numa ditadura e os tempos são outros. No entanto, os governantes e os políticos de hoje usam armas parecidas, dando circo para acobertar suas mazelas.
De um canto ao outro do mapa ninguém ousa com racionalidade argumentar os fatos, com receio de ser olhado como traidor ou imbecil que não quer ver a façanha de termos entrado no clube dos grandes, mesmo que seja com pernas de pau.
O emocional verde-amarelo invadiu nossos parques e bosques, mansões e casebres, bairros luxuosos e favelas, sem se indagar ou questionar as nossas desgraças sociais. Vivemos no país das fantasias megalomaníacas.
Toda essa farra e ainda somos portadores dos piores índices de desenvolvimento humano, abaixo do Chile, Argentina e Uruguai, só para ficarmos aqui mesmo entre nossos vizinhos.
Não queremos ou não conseguimos mais avaliar que as Olimpíadas já estão sendo usadas como moeda de ouro para a perpetuação no poder dos políticos e dos cargos do Comitê Olímpico que há anos se tornaram vitalícios.
Capitalizam em cima da alienação desvairada das multidões que não enxergam que o Brasil de hoje tem 11 milhões de famílias penduradas no Bolsa Família que não conseguem sair da miséria. Que temos outros milhões de pessoas que nem contam com o Bolsa Família.
Não enxergam que o ensino brasileiro está entre os mais deficitários do mundo, em níveis comparados com nações mais atrasadas da África. Não ligam mais para os escombros deixados pela corrupção e nem cobram seriedade e ética dos políticos.
E vivemos assim, um escândalo superando o outro, sem mobilização popular, e uma Copa e uma Olimpíada fazendo nos sentir orgulhosos e desenvolvidos numa terra onde a concentração de renda é uma das maiores do mundo.
Não queremos mais saber se Sarney, Renan Calheiros, Jader Barbalho, Fernando Color e demais coligados coronéis transformam o Congresso numa Casa dos Horrores. Não queremos nem saber do castelo do deputado, construído com o nosso dinheiro.
Além do carnaval, das festas de final de ano e do futebol com torcidas loucas e fanáticas que matam, nossos olhos agora estão voltados para a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016.
Não importa se vão superfaturar os gastos como fizeram com os jogos do Pan do Rio de Janeiro que passaram de uma previsão de R$800 milhões para quase R$4 bilhões. Não importa se esses eventos vão deixar os mais pobres de fora dos espetáculos. As promessas de empregos temporários falam mais alto.
A alienação eufórica impede que os brasileiros cobrem respeito e que não sejam mais tratados como lixo. Será mesmo que as Olimpíadas vão mudar nossa situação social e educacional? Vão melhorar a distribuição de renda e reduzir a violência?
Pelo menos é certo que vão colocar batalhões de policiais militares e civis nas ruas durante os dias da grande festa. Vão expulsar os miseráveis das calçadas e deter os excluídos, impedindo que mostrem suas caras e rostos. Vão esconder a nossa outra realidade debaixo dos tapetes persas.
Confesso que não fiz festa, não gritei, nem comemorei porque não tenho muito do que me orgulhar do meu país. Não posso camuflar as contradições, nem fazer de conta que nada sei e que nada estou vendo. Não posso me empolgar com as safadezas.
Estão colocando luminosos bonitos e encantadores na minha rua toda esburacada e sem esgoto sanitário. A minha casa está cercada de ratos por todos os lados. Contrataram uma banda desafinada para animar os bestas.
Não posso enganar a mim mesmo, nem entrar nesta festa que é somente deles. Sei que como milhões, estou fora desse banquete. Eles se sentam á mesa para depois jogar as migalhas como sempre fazem.
No mundo, mais de um bilhão de habitantes vivem com menos de um dólar por dia. O planeta está poluído. O meio ambiente degradado, terremotos, tufões, tornados, catástrofes e tempestades por todas as partes.
O capitalismo devorando nossas almas e as armas destruindo os mais fracos, enquanto se gasta bilhões no espaço sideral e em arenas luxuosas além da imaginação humana. No nosso mundo virou um manicômio de loucos.
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