quinta-feira, 29 de outubro de 2009

MALANDRO OCULTO


Se já estava bom demais, agora ficou bem melhor para os candidatos corruptos e safados das próximas eleições que servem para cevar os gafanhotos malditos destruidores das nossas plantações. Como em todas as minireformas que eles inventam em véspera de campanha, oficializaram dessa vez a figura do doador oculto, ou seja, o malandro oculto.

É ele o sujeito do verbo e dos objetos da frase que faz criar vários caixas que vão parindo nos esgotos como ratos. É ele a bola da vez que vai distribuir as cartas e alargar os latifúndios dos coronéis do velho sertão árido e cansado.

O malandro oculto agora existe de verdade; está registrado e protegido por lei do Congresso que os bestas sustentam, dividindo parte do seu pão. Primeiro o doador introduz a grana e depois o doado fica na obrigação de devolvê-la em dobro, com juros e correção monetária. É o chamado acordo do troca-troca dos fichas-sujas. Tudo feito por nossa conta.

Eles não têm nenhuma vergonha e fazem suas safadezas e sacanagens em público. Fazem xixi, ladroagem explícita e defecam na nossa frente. Não existe mais nenhum pudor. É a chamada promiscuidade eleitoral em grupo como nos tempos das orgias e dos bacanais romanos, acompanhados de vinhos, muita embriaguez e arrotos na cara dos súditos plebeus.

A instituição do malandro oculto rende mensalões; recheia o bolo dos empreiteiros que abrem mais canteiros de obras; agride a natureza com licenças ambientais arranjadas; enche os cofres dos banqueiros; e deixa os pobres mais pobres e os ricos mais ricos.

Mesmo assim, o eleitor anda léguas, enfrenta filas e até briga e se mata para votar no malandro oculto. E o cara ainda se sente altamente orgulhoso, dizendo que está cumprindo com seu papel cívico para eleger seu “legítimo” representante. O malandro oculto só dá para o parceiro que sabe mentir, enrolar e com “muita lábia”. Não é maluco que rasga dinheiro. Nós é que somos animais adestrados.

As nossas eleições seguem as mesmas regras dos jogos de cassino, do bicho ou das máquinas caça-níqueis. Você é atraído a jogar com promessas de lucros, mas quem sempre ganha é o dono da banca que não precisa ter atestado de idoneidade moral. A grande maioria é compulsiva e viciada e sempre está fazendo uma fezinha nos números.

No jogo montado para o próximo ano, o candidato pode ser cafajeste, malfeitor e corrupto. A certidão de quitação eleitoral deve mencionar apenas a apresentação de contas de campanha eleitoral anterior. O Ministério Público está proibido de representar judicialmente contra propaganda irregular ou ilegal. Agora ficou beleza. Só os partidos podem ajuizar ação entre si. Não é uma moqueca! Ou melhor, uma pizza recheada!

Ficou uma mangaba. Os desonestos também podem montar sua banca. Está batido o martelo oficial da pirataria. A transparência está condenada e quem praticar está fora do jogo. O malandro oculto pode ser traficante ou um criminoso qualquer. Justiça não pode registrar irregularidades nas contas anteriores.

O negócio é ajudar os candidatos sujos com problemas na Justiça Eleitoral. Está assim aberta a temporada de caça aos patos que já começam a ser baleados fora do tempo. Nem esperam mais a engorda. Quem tiver mais pontaria e chegar primeiro ganha. Quem abater mais, leva. Nada de moralidade e ética. Quem entrar com essas armas fica de fora. Malandro sempre gosta de aparecer, mas nesse jogo o recomendado é ficar oculto e nada da sociedade saber quem é o indivíduo.

Para disfarçar e trapacear, os donos das bancas estabeleceram o prazo de 30 de abril do ano seguinte para prestação de contas dos mais espertos que se deram bem no esquema. Sendo assim, quem fez sujeira e roubou não pode mais ser ajuizado ou condenado, pois já sentou em sua cadeira de foro privilegiado, o que significa imune e imortal.

E de lá daquela casa de horrores é só mandar uma banana para a macacada, sem ofensa a essa espécie de animais. Eles estão se lixando para a opinião pública? Que nada. Ninguém liga mais para isso. Já viramos saco de pancada. No mais é cair no carnaval e torcer pela Copa do Mundo e para as Olimpíadas. Podem deitar e rolar que não estamos nem aí. Basta o circo, e viva o malandro oculto.

Quando o cerco apertar, esses malandros ocultos fogem pelas portas dos fundos. Fosse no sistema antigo de cédulas, dava para eleger uma Cavalo para o Senado, um Bode para a Câmara, uma Caipora para a presidência e mais umas Hienas, uns Lobos, umas Raposas, uns Coiotes e outros bichos espertos e larápios para nos representar em outros cargos.

E por falar em Senado, viram que tem até defunto trabalhando? Os fantasmas só aparecem à noite e já tem gente que garante ter visto e ouvido assombração de almas penadas dos infernos, com gritos, gemidos, choros, lamentos, vozes do além e correntes se arrastando pelas plenárias, gabinetes e corredores. Votem no malandro oculto, ou, se quiserem no PS – Partido do Satanás.

Nenhum comentário: