domingo, 26 de julho de 2009

ATÉ QUANDO SARNEY?

OI VOVÔ, OBRIGADO PELO EMPREGO. NEM PENSE EM DEIXAR ESSA CADEIRA.



Sabe aquele bicho-monstro da literatura de ficção que criou tentáculos em torno do seu corpo e gerou outras crias que terminaram por dominar todo um reino de poder até as águas profundas e sombrias dos oceanos? Assim são os tentáculos de Sarney e sua família que ocupam por muitos anos a Capitania do Maranhão e estenderam seus braços musculosos e feios por toda região do Planalto de Brasília.



Esse senhor maribondo com seus tentáculos vem demonstrando, ao longo dos seus quase 60 anos de política, uma performance insaciável de se apoderar do que é nosso por direito. Vive a rondar de dia e de noite os ambientes propícios para aplicar seus golpes mortais e tornar mais longas suas garras. Vive a tirar o pão da nossa boca.



Os colunistas políticos Samuel Celestino e Dora Kramer na edição de um jornal da capital de domingo (dia 26) expressaram muito bem o limite insuportável das ações de Sarney e sua família em termos de práticas ilícitas. Em tom de desabafo e ira, a pergunta que se faz, segundo o próprio Celestino, é até quando Lula permanecerá na trincheira em defesa de Sarney?



O colunista foi muito feliz ao citar as “Catilinárias” do tribuno Marco Túlio Cícero que do Senado da antiga Roma não se cansava de combater as afrontas e as tramóias de Lúcio Catilina. Fez-me lembrar do meu tempo de seminarista, estudante de Latim, que tinha por obrigação traduzir e estudar os discursos de Cícero. O professor de Latim era um carrasco, mas a descoberta das palavras fortes e mortíferas contra o seu alvo valeu a pena todo sacrifício.



No auge de sua raiva e rancor, Cícero indagou da Tribuna: Até quando, Catlina, abusarás da nossa paciência? A frase é apropriada a Sarney, mas Lula também não pode abusar de sua popularidade por muito tempo.



Extraordinário orador e filósofo, Cícero pronunciava seus discursos dos degraus do Senado, fazendo ecoar sua ira por toda Roma. O mais conhecido dos seus quatro discursos recebeu o título “Já Não Podes Viver Mais Tempo Conosco”. Catilina caiu e deixou o Senado.



Cito aqui neste comentário, como fez Celestino em sua coluna, o mesmo trecho do desabafo de Cícero contra o impostor: Até quando, Oh Catilina! abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda há de zombar de nós essa tua loucura? A que extremos se há de precipitar a tua audácia sem frio? Nem a Guarda do Paltino, nem a ronda noturna da cidade, nem os temores do povo, nem a afluência de todos os homens de bem, nem este local tão bem protegido para a reunião do Senado, nem o olhar e o aspecto destes senadores, nada disso conseguiu perturbar-te? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos? Não vês que a tua conspiração a tem já dominada todos estes que a conhecem? Quem, dentre de nós, pensas tu que ignora o que fizeste na noite passada e na precedente, em que local estiveste, a quem convocastes, que deliberações foram as tuas?



Como o PT está analisando tão estranho jogo de Lula? O Partido acabará pagando a conta nas próximas eleições e não ficará pedra sobre pedra. Como disse Samuel Celestino: O Senado se transformou numa fossa séptica entupida, cujo chorume escorre por seus corredores. Oh, Sarney, já não podes viver mais tempo conosco.



Há muitos anos que Sarney encara o Senado como extensão de sua própria casa ou das empresas de sua família, onde só ele, seus parentes, netas e netos, sobrinhos e sobrinhas, amigos e compadres podem fazer o que bem quiserem. Não podes mais conviver conosco. Basta de tanta conspiração.



Como bem avaliou a colunista Dora Kramer, o período autoritário dos milicos afastou a política da sociedade e atrasou brutalmente o processo. Acrescentaria que os homens que entraram, prometendo alívio, viraram as costas para a ética e a seriedade. Preferiram deixar o povo alienado para se perpetuarem no poder. Fizeram com que muitos voltassem, erradamente, a ter saudades dos tempos da ditadura.



O cidadão tem que obrigar, como fez repudiando a inflação, o agente público a se adaptar a um modelo de conduta. Como qualquer outro mercado, o eleitorado também é regido pela lei da oferta e da procura. Se há grande volume de mercadoria podre em circulação na política, é porque há aceitação do produto – como bem se expressou Kramer.



Digo mais que mercadoria podre na feira não deve ser comprada porque faz mal à saúde, e os hospitais públicos não cuidam da população pobre. Faça com que o feirante jogue as frutas podres no lixo, longe dos animais.



O pior é que atitudes fisiologistas e corruptas estão também entranhadas no seio do povo. Mas é preciso que o político se conscientize de que ele primeiro deve dar o exemplo. Acontece é que ele se viciou a compartilhar a fisiologia com seu eleitorado como forma de garantir e se eternizar no poder.



No entanto, como colocou a colunista Dora Kramer, imaginemos que por uma força coletiva ou ação de um líder de verdade que se disponha a organizar o recinto e conduzir um projeto de depuração cultural, mudasse a mentalidade do eleitor.



Não precisamos de candidatos santos, mas que apenas renunciem às suas orgias com o dinheiro público, e se conduzam dentro das normas de civilidade e de respeito ao próximo. Mas, infelizmente, até hoje, nosso político identifica a direção dos ventos, mede a força das marés e segue a corrente da natureza.

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